Entrevista-Adriana-Guzmán
Série baseada em entrevista com Adriana Guzmán aborda o projeto político do Feminismo Comunitário Antipatriarcal frente às opressões. Arte: Beatriz Lago.

Adriana Guzmán: o Feminismo Comunitário Antipatriarcal é ação política, não teoria

Postado em 02/03/2021, 9:00

Por Vandreza Amante e Morgani Guzzo

Em entrevista ao Portal Catarinas, a indígena Aymara fala sobre a criação do projeto político feminista comunitário antipatriarcal frente às violências contra os povos e as mulheres indígenas na Bolívia.

A memória de luta dos povos traz consigo histórias de resistência, de construção de estratégias de sobrevivência, de conhecimentos e saberes ligados ao território que atravessam gerações, permeada pela cultura e pela cosmologia de cada povo.

Por toda a América Latina, ou Abya Yala – termo de origem kuna para se referir a esse território -, elas estão mobilizadas para lembrar a memória ancestral, suas lutas, e denunciar as violências coloniais que colocam suas vidas em risco ainda na atualidade.

Conversamos com Adriana Guzmán, mulher indígena Aymara da Bolívia, lésbica, feminista comunitária antipatriarcal, reconhecida pelo movimento indígena e pelos movimentos feministas latino-americanos.

Na conversa, ela conta a trajetória de luta e a formação do movimento de mulheres indígenas, o contexto de origem do feminismo comunitário antipatriarcal na Bolívia como um caminho possível pelo fim das violências contra as mulheres e das opressões do Estado genocida. Também faz uma série de reflexões sobre seu projeto de sociedade e sugere possíveis articulações dos movimentos feministas em Abya Yala.

Devido à profundidade das reflexões, apresentaremos a entrevista em formato de série, em quatro partes. Na primeira, Adriana Guzmán aborda a formação do Feminismo Comunitário Antipatriarcal na Bolívia; na segunda, fala da importância da autonomia para esse projeto político; na terceira, fala sobre a luta pela descriminalização do aborto, a discussão política sobre os fundamentalismos religiosos que tentam subjugar os povos indígenas; na quarta e última parte, aborda o exemplo de mulheres indígenas que lutaram e lutam contra o poder colonial. 

QUEM É ADRIANA GUZMÁN

Adriana Guzmán Arroyo é indígena lésbica do Povo Aymara, integrante do movimento Feminismo Comunitário Antipatriarcal, na Bolívia, e feminista de Abya Yala. Escreveu os livros: Descolonizar la memoria, descolonizar feminismos (2019), Un feminismo útil para la lucha de los pueblos (2016), El tejido de la Rebeldia. ¿Qué es el feminismo comunitario? (2014), entre outras obras importantes na luta feminista regional contra o patriarcado e a sociedade colonial heteronormativa.

Território Aymara/ Mapa: marianabruce.blogspot

No movimento social, é reconhecida por seus estudos e sua experiência política em Educação Popular, Ciências da Educação e Feminismo, ferramentas que fortalecem a energia do Feminismo Comunitário Antipatriarcal. Nasceu em La Paz. É filha de Amparo, neta de Teresa e Elena, criadora de Diana e Julia. Ele estudou Ciências da Educação na Universidad Mayor de San Andrés, na Bolívia. Fez parte dos movimentos sociais durante o massacre do gás, ou “Guerra do Gás”¹, em 2003.

Adriana Guzmán Arroyo. Foto: Arquivo pessoal.

PORTAL CATARINAS – O que é feminismo comunitário antipatriarcal e como foi o processo de construção desse conceito, de significação dessas palavras pelas mulheres bolivianas?

ADRIANA GUZMÁN: Primeiro, o feminismo comunitário antipatriarcal é uma organização de mulheres Aymaras, Quechuas, Guaranis, de mulheres indígenas, mulheres originárias, meninas, avós, de distintas cidades, lésbicas, não lésbicas… É uma organização. O feminismo comunitário que estamos construindo é o que chamamos de ação política, não é uma teoria, é uma ação política, uma proposta, uma ferramenta de luta.

Começamos desde o massacre do gás, em 2003, aqui na Bolívia, quando Gonzalo Sánchez de Lozada, um presidente gringo, nascido, crescido e formado nos Estados Unidos, mandou militares massacrarem, na cidade El Alto, principalmente, que é uma cidade de Aymaras – porque esse território, se chame cidade ou não se chame cidade, é um território ancestral. As cidades são territórios ancestrais que pertenciam aos povos. E quero chamar a atenção que esse presidente vive hoje impune, é docente na universidade nos Estados Unidos, protegido pelos democratas, nunca foi julgado, e dá aula na universidade sobre a Bolívia. Essas são as lógicas da justiça que não servem para os povos indígenas, que não serve para as mulheres.

Frente a esse massacre, saímos às ruas para resistir e lutar, e nessa resistência vimos e entendemos a materialidade do que é o colonialismo, o racismo; nos demos conta que os militares massacram favelas, vilas, nas comunidades, não massacram bairros dos ricos, não matam os ricos, os ricos não vêm seus filhos ou irmãos passarem por uma repressão militar. Para nós, isso é parte do colonialismo e parte do racismo. Há vidas que valem e vidas que não valem, e vidas que valem menos. A vida de homens indígenas vale menos, e vale duplamente menos a vida das mulheres.

Nos demos conta do que é o colonialismo, do que é o racismo, e também do que é o machismo. Nós saímos como muitas a protestar, a resistir nas ruas, mas ainda precisávamos cozinhar, criar os filhos, limpar. Nos perguntamos: 

Se esse é o momento de insurreição, de organização dos povos, de revolução, diria a esquerda, quem cozinha na revolução? Quem limpa quando estamos fazendo a revolução? Quem cria quando se está fazendo revolução? Que tipo de revolução é essa que, além de lutar nas ruas, nos segue impondo a nós, mulheres, criar, cuidar, limpar. Por exemplo, precisamos cuidar dos irmãos feridos ou detidos. Quem faz isso? As mulheres. Os companheiros não fazem isso. Nós temos que levantar de madrugada para cozinhar para levar ao cárcere, cuidar dos irmãos, depois igual ir marchar, depois igual ir protestar.

Isso mesmo passou em 2019, durante o golpe de Estado na Bolívia. Outra vez, nós tivemos que tirar os presos, fazer comida e levar para as pessoas, ir ao protesto… e o machismo aparece, se materializa. Então em 2003, vimos o colonialismo, o racismo e o machismo. Depois de um protesto de mais de 31 dias, foram assassinados 61 irmãos homens, e duas mulheres, sendo uma criança. E nos perguntamos porque tantos homens e tão poucas mulheres. A partir da culpa que nos impõe o patriarcado pensamos que não tínhamos lutado igual, não tínhamos nos arriscado igual. Depois nos demos conta que isso era culpa, e que a realidade é que não temos direito nem a morrer pela lógica desse sistema patriarcal e machista.

Nós, mulheres, saímos a lutar, mas temos que voltar com vida, porque temos que voltar para criar, voltar para pagar o aluguel, para cuidar das avós e avôs. Nós saímos com a responsabilidade de não morrer. Temos a responsabilidade de seguir vivas.

Muitos companheiros saem com a responsabilidade somente de sua pessoa individual e, por isso, se colocam na frente das balas, brigam com a polícia. Como você pode brigar com um policial se você sabe que ele está armado? Para nós, é um problema a mais, porque se for preso precisamos ir libertá-lo. Essas lógicas machistas não compartilhamos. E é muito mais complexo no contexto onde os policiais são homens indígenas, onde nós estamos enfrentando os nossos irmãos e nossos primos. Para nós, é uma reflexão muito complexa, muito difícil.

O problema é que os Estados tem destruído as comunidades, colocando as forças militares, obrigando que os nossos irmãos Aymaras, Quechuas façam o serviço militar e se alistem na polícia. Que outra possibilidade lhes resta? Que outra coisa podem estudar nossos irmãos empobrecidos? Pode ser policial ou pode ser professor. São as duas únicas coisas. Não pode entrar na universidade para estudar engenharia, para ser biólogo, para ser cientista. Todas essas reflexões começamos a fazer em 2003, como dizemos, frente às balas, olhando o machismo, o colonialismo, o racismo, olhando o patriarcado.

Por isso dizemos que o nosso feminismo não vem do feminismo. Nós não nos nomeamos feministas porque temos lido o feminismo ou escutado as feministas. Nós temos nos nomeado feministas na luta, na rua, frente ao patriarcado, decidindo que isso não é o que queremos para nós, decidindo que não é justo que nos matem por sermos mulheres originárias, por sermos povos originários.

Por isso começamos a nos chamar de feministas em 2003 e adiante, porque para nós não bastava sermos mulheres, ou a discussão como mulheres, porque no massacre do gás tínhamos ficado organizadas muitas mulheres, sim, mas sempre terminávamos discutindo se os homens são bons ou maus, se são companheiros e nós não queríamos discutir sobre os homens, queríamos discutir sobre o Estado, sobre os recursos, sobre a economia. Como é que isso que há uma economia de redistribuição econômica, que propõe o socialismo, mas essa distribuição segue privilegiando os ricos, os ricos mais e os pobres menos. Que redistribuição é essa?

Nós não queremos que redistribuam nenhuma riqueza, nós não queremos riqueza. Como povos originários, como mulheres originárias, desde a memória ancestral, não precisa acumular riqueza para viver bem. Para viver bem precisa de comida, precisa de educação, precisa o necessário para viver. A acumulação é parte do sistema. Mesmo que haja uma redistribuição socialista, democrática, como queira, segue sendo acumulação de riquezas.

Então, desde 2003 temos nos chamando de feministas por isso, para não terminar em uma discussão moral, quando nós queremos uma discussão política. Porque não se trata somente dos homens, se trata de como o sistema opera desde os corpos dos homens e das mulheres, as estruturas. E essa reflexão fazemos porque ainda que em 2003 tenham assassinado os nossos irmãos, igual haviam relações de opressão, dependíamos de patroas e não de patrões, por isso nossa discussão não é com todas as mulheres, é com as mulheres que têm uma posição frente ao sistema. A unidade das mulheres para nós não existe. A unidade é política, é frente ao sistema.

Mulher indígena lésbica, feminista comunitária antipatriarcal/ Foto: arquivo pessoal

Aí, em 2003 começamos as discussões para a Assembleia Constituinte e nos chamamos feministas também para ter um peso político, epistemológico, porque na Assembleia Constituinte discutiam os socialistas com suas propostas, os comunistas, os indianistas, resulta que nós mulheres não éramos nada, não somos comunistas, não somos socialistas, não somos indianistas. Então também nos servia chamarmos de feministas para nos igualarmos nos termos de poder. São socialistas, e nós somos feministas.

Até agora nos tem servido, como mulheres originárias, para ganharmos respeito. Não creio que nos escutariam da mesma forma se não tivéssemos nos definido feministas, se não tivéssemos construído nossas categorias. Vivemos em um mundo patriarcal, machista e racista. Também nos chamamos feministas por uma estratégia política, por uma disputa desse campo das palavras que também dão poder.

PORTAL CATARINAS: E por que feminismo comunitário?

ADRIANA GUZMÁN: A partir de 2005, 2006 e 2007 fomos construindo nossa proposta como feminismo comunitário porque temos visto que há muitos feminismos, mas que não têm uma proposta. Não basta descrever como funciona o sistema, não basta dizer que o patriarcado opera assim, que o sistema sexo e gênero, que há desigualdades. O assunto é: qual é a proposta? O que construímos juntas? Como transformamos essas opressões?

Para nós, pela experiência de 2003, que se repetiu em 2019, a proposta é a comunidade. A ruptura do individualismo. A negação da acumulação de riqueza.

O que me preocupa, sem saber se vives no Brasil ou onde for, é a dor que sentimos pela vida de nossas irmãs e nossos irmãos, além das fronteiras. A recuperação do corpo-território, como dizem as irmãs da Guatemala, que somos parte da natureza, somos parte da Pacha. Como não nos vai doer que destruam os solos? Como não nos vai doer que contaminem os rios? Assim como nos dói nossos corpos quando nos humilham, quando matam os nossos filhos, ou quando violam as nossas filhas?

Então que projeto político mais comprovado pode existir que a comunidade? Não estamos falando de uma revolução utópica, de um programa revolucionário. Estamos falando de algo que existe. A comunidade existe, minha mãe vive em sua comunidade, nós viemos da comunidade. A comunidade tem resistido à pandemia, tem resistido ao golpe, tem resistido aos Estados genocidas, racistas, que não se importam com o sistema de saúde, que não se importam em resolver a crise econômica e de saúde na pandemia.

A comunidade existe, e não é só na Bolívia. A humanidade, o mundo tem memória de comunidade. As espécies têm memória de comunidade. Mas a humanidade, essa lógica, nos tem feito pensar que estamos acima da natureza, que há que dominá-la.

Então temos proposto ser feministas comunitárias porque é uma proposta possível. Nós não acreditamos nas utopias e nas coisas que nunca se alcançam. Quando falamos em viver bem como mulheres originárias, como povos indígenas, suma qamaña, em Aymara, sumak kawsay, em quechua, não estamos falando que daqui há 20 anos temos que construir o viver bem, eu quero viver bem cada dia. Todos os dias são de luta por viver bem.

Nós vivemos bem como feministas porque temos destruído as relações machistas, as relações de poder. Vivemos bem porque temos feito que se respeite a nossa palavra em um mundo onde a palavra das mulheres não vale. Esse viver bem se constrói todos os dias, não somente para as próximas gerações. Não estamos nessa lógica linear do tempo que vamos sentar e esperar trinta anos que o Estado construa o viver bem. Não. Nós queremos viver bem agora, temos memória do viver bem. Nas comunidades, os povos têm vivido bem ancestralmente, e hoje seguem lutando por viver bem. Em todo caso, vivem bem diferente das cidades, que têm colapsado, que não sabem o que fazer com o sistema de saúde, que têm perdido os seus conhecimentos ancestrais, que têm perdido a relação com o seu próprio corpo para poder respirar frente a um vírus. Por isso, somos feministas comunitárias.

PORTAL CATARINAS: E quando entra o termo “antipatriarcal”?

ADRIANA GUZMÁN: Em 2016, nós nos definimos como organização antipatriarcal. Sei que há feministas comunitárias autônomas em Chiapas, por exemplo, há feministas comunitárias wakanakas na Argentina, há feministas comunitárias ancestrais na Guatemala. E nós nos definimos antipatriarcais, em 2016, por uma ruptura interna frente à violência. Nossa luta contra a violência tem sido sempre a principal. Não entendemos as revoluções que creem que a luta contra a violência temos que fazer as mulheres, e depois, digamos, que é um detalhe.

O sistema se sustenta quando há violência sobre nossos corpos, porque nessa violência se aprende a violência sobre os territórios, se aprende a violência contra os povos. Então, para nós, a luta contra a violência é irrenunciável. O questionamento dentro das organizações frente as práticas de violência, as práticas de abuso sexual tão naturalizadas na esquerda, onde os referentes abusam as companheiras jovens e não jovens, onde não há uma ética no amor, uma ética nas relações afetivas e sexuais, isso para nós foi um questionamento profundo.

Então, em 2016, rompemos com uma parte do feminismo comunitário, devido a uma denúncia de violência provocada por Julieta Paredes, e nos dizemos antipatriarcais a partir de então. Porque não se trata só de Julieta Paredes, se trata dessas lógicas de naturalizar a violência dentro do feminismo, dentro da esquerda, dentro das lutas. Aí estão os agressores e as agressoras falando da revolução como se não fosse uma revolução a ética nas relações sexuais e afetivas.

Nos dizemos antipatriarcais porque o patriarcado se reproduz dentro das organizações, e não basta ser comunitárias, há que ser antipatriarcais.

Leia a segunda parte da série aqui:

¹ A Guerra do Gás foi um conflito relacionado à exploração das reservas de gás natural, que se acirra quando o então presidente da Bolívia, o empresário Gonzalo Sánchez de Lozada, decide exportar o gás natural a preços baixíssimos, sem que houvesse uma política para abastecer o mercado interno. A população de El Alto e outros povos andinos que chegaram à cidade se organizam contra a exportação, questionam os preços e pedem por uma Assembleia Constituinte. Em 13 de outubro, militares com armas de guerra disparam contra a população, matando mais de 60 pessoas, entre elas um menino de cinco anos. Lideranças das organizações e comunidades clamaram pela renúncia do então presidente. As marchas contra Sánchez de Lozada se estenderam a todo o território boliviando, inclusive na capital La Paz. Sánchez de Lozada decide fugir do país, deixando sua renúncia no congresso.

* Esta série é resultado de uma entrevista realizada com a Adriana Guzmán, mulher indígena lésbica Aymara da Bolívia. Dividida em quatro partes, apresentamos suas reflexões sobre a formação do Feminismo Comunitário Antipatriarcal na Bolívia, a importância da autonomia, o lugar da luta pela descriminalização do aborto, a discussão política sobre os fundamentalismos religiosos que tentam subjugar os povos indígenas e o exemplo de mulheres indígenas que lutaram contra o poder colonial até os dias atuais. É um convite à reflexão a partir de uma das referências latino-americanas na luta contra as opressões e as violências contra as mulheres.

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