A iniciativa de pessoas como a indígena Vanuza Kaimbé pode mudar os rumos da política brasileira/ Foto: Governo de São Paulo

“A ciência venceu a política”, afirma a primeira indígena vacinada no país

Postado em 18/01/2021, 11:23

A vacinação das cem primeiras pessoas brasileiras contra a Covid-19 aconteceu no domingo (17), logo após a aprovação do uso emergencial das vacinas de Oxford/AstraZeneca e da Coronavac/ Instituto Butantan pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Com a decisão, as vacinas poderão, agora, ser aplicadas em toda a população brasileira.

A primeira indígena a ser vacinada foi Vanuza Kaimbé. Ela é moradora da Aldeia Multiétnica “Filhos dessa Terra” em Guarulhos, São Paulo, onde vivem 22 famílias, aproximadamente 70 pessoas das etnias Kaimbé, Pankarare, Pankararu, Tupi e Wassu Cocal. Muitas/os moradoras/es da ocupação são estudantes que migraram de outras regiões do país, como ela que veio da Bahia para estudar em São Paulo junto com o filho.

Em entrevista ao Portal Catarinas Vanuza Kaimbé, explicou que o Estado de São Paulo tem autonomia para realizar a vacinação de indígenas em áreas urbanas e rurais, mesmo que o governo federal tenha afirmado que os indígenas urbanos não estariam no grupo prioritário.

Vanuza Kaimbé é primeira indígena a ser vacinada contra a Covid-19 /Foto: arquivo pessoal

PORTAL CATARINAS – Como você foi selecionada para tomar a vacina? Qual foi o critério?
O Instituto Butantan me chamou porque eu fiz campanha para os testes, para ver quem estava com Covid-19, e quem não estava lá na minha aldeia multiétnica Filhos dessa Terra, em Guarulhos (SP). Foi a primeira aldeia onde foram feitas as testagens. E na UBS Soberana, também em Guarulhos. Devido ao meu contato, e eu falei da esperança que eu tinha na vacina, da vontade que eu tinha de viver, pois eu já havia testado positivo.

Foi aí que o Instituto Butantan ficou com meu contato, a Secretaria de Justiça, a Secretaria de Saúde viu a repercussão porque eu falei da importância do isolamento, todos os vídeos que eu fiz no Facebook falando para usar máscaras, da importância do isolamento. Então, foi através dessa minha disposição para orientar as pessoas sobre a importância de manterem a distância e da esperança da vacina. E quando chegou a vacina eles me chamaram para fazer parte das cem pessoas que a receberiam, para ser a primeira indígena vacinada no Brasil e servir de exemplo para os parentes e para toda a população que tem dúvida, que foi acometida por fake news. É um dia histórico, é um dia de grande importância para nós brasileiros.

PORTAL CATARINAS – Você mora atualmente em uma aldeia multiétnica urbana. O governo federal disse que os indígenas que residem em áreas urbanas não estariam no grupo prioritário, somente moradores de aldeias em áreas rurais. Como você analisa essa declaração do governo? Em São Paulo será diferente?
Eu moro numa aldeia urbana no município de Guarulhos,  a aldeia multiétnica Filhos desta Terra. O governo federal insano, totalmente desrespeitoso, e também isso não é novidade. Ele permaneceu 30 anos na Câmara dos Deputados sendo um deputado inútil, voltou sempre contra os direitos das pessoas, dos trabalhadores, das empregadas domésticas,  sempre foi inimigo número um dos povos indígenas, ele sempre tratou a gente com desrespeito, e não ia ser agora como presidente que ele iria nos respeitar. Ele disse que os indígenas em contexto urbano não iriam ser vacinados, mas os estados têm autonomia para decidir quem vai vacinar. 

Aqui em São Paulo o governo do estado não levou em consideração e vai vacinar sim os indígenas, porque indígena é indígena na cidade ou nas aldeias. Nós somos vacinados por comprovação científica, nós temos vulnerabilidades com doenças respiratórias. Então é por isso que nós somos prioridade para vacinar. Quem tem que vir na prioridade é a ciência não é a política. E a ciência venceu a política.

PORTAL CATARINAS – Você já foi infectada pela Covid-19 e perdeu diversos parentes para a doença. Para você qual a importância de uma vacina na circunstância atual de pandemia?
Eu tive a doença, eu perdi parentes, eu perdi amigos e eu vi o sofrimento das pessoas solidárias àquelas que perderam seus parentes e os seus entes queridos. Assisti a várias reportagens e depois não conseguia dormir. Fiquei um tempo sem assistir TV. É a importância de viver, é um sopro de vida. É uma garantia de que nós iremos viver. E gratidão por viver. Gratidão por saber que a chance de eu morrer pela doença diminuiu muito.

Eu vou continuar usando máscara, eu vou continuar usando álcool em gel, eu vou continuar fazendo distanciamento, mas com um pouquinho de leveza, com um pouquinho de esperança de que vamos continuar vivos.

A importância é combater esse vírus porque não tem nenhuma medicação que seja eficaz. E a eficácia veio através da vacina.

Quero falar para o povo indígena, para o meu povo,  para o Povo Kaimbé e as outras 304 etnias no Brasil, a gente resiste a 521 anos, vamos resistir mais, vamos mostrar que nós somos povos de resistência, e vacinar é um ato de resistência, é um ato de sobrevivência. A gente já resistiu ao etnocídio, ao genocídio, a outras doenças que tentaram nos matar, como quando trouxeram a gripe para gente, e a gente venceu. Vamos vencer mais essa. E a única maneira no momento de vencer essa é a vacina. Vacina já, povo indígena! Vacina já, meus parentes!

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