Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, mulheres da Amassuru, rede com mais de 900 especialistas em segurança e defesa da América Latina e do Caribe, discutem o que está em jogo nas eleições e o que podemos perder com o avanço do bolsonarismo. 

Entre brasileiras, argentinas, peruanas, mexicanas e colombianas, a conversa reuniu cansaço, medo e indignação, mas também a urgência de respostas coletivas e transnacionais. Para as brasileiras, a eleição de Flávio Bolsonaro poderia aprofundar práticas de violência, autoritarismo e desmonte de direitos experimentadas durante o governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022.

Partimos de três questões: como a militarização e os modelos de masculinidade promovidos pelo bolsonarismo se relacionam com a violência contra mulheres e os feminicídios; como a guerra às drogas e as políticas punitivistas afetam sobretudo mulheres negras, periféricas, indígenas e camponesas; e como a extrema direita regional e as pressões estadunidenses articulam antifeminismo, criminalização dos movimentos sociais e disputas econômicas e geopolíticas.

 Recusamos tratar as pautas de gênero como “cortina de fumaça”, elas integram projetos de acumulação capitalista, militarização e precarização. As mulheres e os feminismos aparecem aqui não só como alvos dessas políticas, mas como produtoras de conhecimento e alternativas democráticas.

1. Como a militarização da política e da vida cotidiana, articulada aos modelos de masculinidade promovidos pelo bolsonarismo, contribui para a violência contra as mulheres e os feminicídios no Brasil?

Izadora Xavier — Professora de Relações Internacionais na UEPB, Brasil: É importante distinguir a lógica autoritária de Jair Bolsonaro, mais associada às Forças Armadas, daquela de Flávio Bolsonaro, aparentemente mais próxima das milícias. Isso mostra por que a militarização não se resume à presença de militares no poder: envolve práticas cotidianas, autoritarismo e hierarquias de gênero.

Precisamos investigar quais modelos de homem os candidatos representam e quais políticas sustentam suas performances, sem individualizar a crítica à masculinidade de Flávio. Preocupa-me também a dificuldade da esquerda em converter políticas progressistas em uma alternativa explicitamente feminista.

No debate da Band, Lula questionou Flávio sobre suas posições relativas à licença-maternidade; diante de uma resposta evasiva e individualista, não insistiu e retornou à disputa sobre corrupção, quase um confronto de honra masculina. A campanha de Lula ainda não transformou as políticas progressistas de gênero dos governos petistas nessa área em um posicionamento feminista claro.

Rosimar Francelino – Advogada e servidora pública atua no enfrentamento à violência contra as mulheres, Brasil: Ser militar não implica automaticamente praticar violência contra mulheres, mas lideranças autoritárias podem legitimar a misoginia, inclusive na violência política contra candidatas.

Mesmo a tipificação do feminicídio, conquista feminista com apoio social, enfrenta resistências na aplicação: em Rondônia, identificamos três casos recentemente desclassificados. Sob Marcos Rocha, quase todas as secretarias estaduais foram ocupadas por militares.

Agora Marcos Rogério, também bolsonarista, foi eleito governador. Apesar das elevadas taxas de feminicídio, seguimos sem secretaria de políticas para mulheres. O bolsonarismo atravessa, assim, instituições de segurança e justiça.

Alessandra Jungs de Almeida — Pesquisadora de estudos feministas de segurança na FHS, Suécia: A América Latina foi fundamental para reconhecer juridicamente a violência de gênero internacionalmente, mas as conquistas estão sob ataque.

Milei questiona a legislação de feminicídio argentina e, no Brasil, candidatas antifeministas financiadas massivamente pelo PL foram eleitas com plataformas centradas na contestação da categoria de feminicídio. As desclassificações em Rondônia mostram que categorizar uma violência como feminicídio continua sendo uma disputa política.

Izadora Xavier — Professora de Relações Internacionais na UEPB, Brasil: A contribuição dos estudos de gênero é mostrar que o problema não se limita à “masculinidade de Flávio Bolsonaro”, mas à adesão social a masculinidades militarizadas, milicianas e misóginas.

Trata-se de uma ideologia compartilhada sobre o que significa ser um homem poderoso, que circula da candidatura presidencial aos governos estaduais, à violência política contra mulheres e às relações íntimas e profissionais. Flávio a legitima, mas não a encarna sozinho.

Por isso, uma alternativa progressista precisa disputar os sentidos da masculinidade, da feminilidade, da liderança e das relações entre homens e mulheres, não apenas apresentar melhores políticas públicas.

Renata Garcia — Professora e pesquisadora de gênero e segurança pública na UFPB, Brasil: Precisamos disputar as gramáticas da política e da segurança, afirmando a legitimidade das mulheres como especialistas em defesa, justiça e segurança.

A esquerda ainda incorpora pouco o conhecimento feminista às suas propostas e convoca poucas mulheres para formulá-las. A Amassuru fortalece nossa visibilidade e capacidade de propor outras formas de produzir segurança, para além da defesa de direitos já conquistados.

Sonia Cardona — Especialista em políticas públicas de segurança cidadã, Colômbia: Na Colômbia, estudamos políticas de bombardeios, ocupações e intervenções da força pública, sobretudo em áreas rurais.

“Recuperar” um território pode tanto significar militariza-lo quanto investir em educação, saúde e desenvolvimento agrário. Conceitos e indicadores de segurança formulados décadas atrás precisam ser revistos à luz das realidades atuais e dos impactos diferenciados sobre as mulheres.

Sofia Vizcarra — professora de Ciência Política na UFRGS, Brasil: A extrema direita nega o gênero como categoria analítica enquanto promove uma política de gênero: apresenta mulheres como pessoas a proteger, resgatar ou capacitar individualmente, nunca como sujeitas capazes de transformar estruturas ou com agência coletiva.

Suas respostas tecnológicas à violência priorizam eficiência e rapidez, sem enfrentar causas, masculinidades ou modelos institucionais. A violência vira questão de gestão, não de poder.

Nas agendas ambientais e climáticas, a incorporação do gênero é insuficiente e, nos programas da extrema direita, não existe uma perspectiva interseccional.

As políticas de segurança e defesa, incluindo as de combate a violência de gênero, são sobretudo formuladas por homens. No Peru, mesmo com uma presidenta, prevalece a mano dura conduzida por ex-militares e policiais, enquanto mulheres especialistas são ignoradas, salvo quando endossam o antifeminismo.

Catalina Gil — Pesquisadora e consultora especializada em segurança, democracia e liderança de mulheres, Colômbia: A dificuldade é transformar evidências acadêmicas em propostas capazes de disputar a percepção popular de insegurança.

Predomina a ideia de que segurança significa identificar inimigos, prender e usar a força. Quando criticamos isso, nos cobram alternativas. Precisamos comunicar experiências concretas de redução da criminalidade sem militarização, mesmo que a prevenção produza resultados menos visíveis.

Olivia Tena — Professora e pesquisadora de gênero, masculinidades e instituições policiais na UNAM, México: No México, apesar de um governo mais próximo de demandas feministas, preocupa a articulação internacional conservadora. Organizações policiais evangélicas, os chamados Policiais Celestiais, participaram recentemente de evento no Congresso apoiado pela oposição, com homenagens a autoridades e à Embaixada de Israel.

Assim como no Brasil, essas articulações mostram como movimentos conservadores ocupam gradualmente espaços institucionais, mesmo sob governos progressistas em um Estado laico. 

2. Como a guerra às drogas e o combate à criminalidade mobilizados nas eleições afetam as mulheres e os territórios marginalizados da América Latina?

Helena Salim de Castro —  Doutora e pesquisadora de gênero, feminismos e segurança internacional, Brasil: A guerra às drogas não começou no Brasil. É importante situar essa política regionalmente e desde uma perspetiva feminista. Desde os anos 1920, discursos estadunidenses e de outros países associavam o consumo e a comercialização de certas substâncias a estereótipos de gênero e masculinidade.

Nos anos 1970, essa política se expandiu regionalmente, apoiada também por classificações em instituições internacionais. Para além de ser construída a partir de entendimentos de feminilidades e masculinidades, seus efeitos são racializados e generificados, como mostra o encarceramento de mulheres em posições vulneráveis nas redes de drogas.

As operações militarizadas obscurecem alternativas de investigação e inteligência e essa narrativa da força encontra adesão porque as pessoas vivem insegurança real. No entanto, essa abordagem não enfrenta as causas do problema. A continuidade dessa política pode ser entendida a partir do que Mark Neocleous compreende como pacificação.

Para o autor, a segurança não deveria ser entendida apenas como proteção contra ameaças, mas como tecnologia política da ordem liberal: segurança também é governança destinada a assegurar condições de acumulação capitalista. A guerra às drogas pode funcionar como pacificação e controle de corpos e territórios. Seu inimigo não é a substância, mas sobretudo pessoas negras, periféricas, camponesas e comunidades de cultivo ancestral.

Liana Carvalho — Pesquisadora de facções criminosas no Nordeste brasileiro e professora na UFPB, Brasil: Falamos pouco de como organizações criminosas reproduzem conservadorismo, misoginia e divisão sexual do trabalho. As mulheres são subordinadas tanto nelas quanto nas políticas estatais. Com Eugenio Raúl Zaffaroni, podemos pensar que reconhecer alguém como inimigo compromete o Estado Democrático de Direito, pois suspende seu reconhecimento como sujeito de direitos.

As mulheres são construídas como inimigas pelos discursos misóginos e por políticas que aprofundam sua vulnerabilidade.

A categoria de narcoterrorismo mistura escolhas jurídicas, políticas e ideológicas, podendo legitimar intervenções externas e ampliar a criminalização e o encarceramento feminino.

Na prisão, mulheres enfrentam abandono, separação dos filhos, dificuldades de sobrevivência e discriminações de raça, sexualidade e configuração familiar. Sofrem ainda condenação moral por transgredir expectativas de feminilidade. Nas facções, enfrentam violência doméstica, exploração e impossibilidade de recorrer à polícia.

Quando companheiros são presos ou deixam de prover renda, muitas assumem o varejo de drogas, apresentado como empreendedorismo, mas marcado pela mesma precariedade e desigualdade do trabalho feminino formal e informal. A ofensiva punitiva amplia o aparato estatal sem reduzir o poder do crime: as mulheres perdem dos dois lados.

Izadora Xavier — Professora de Relações Internacionais na UEPB, Brasil: O punitivismo promete responder à experiência de violência cotidiana, mas, como revela o Rio de Janeiro, reduto eleitoral de Flávio Bolsonaro, não reduz essa experiência.

Retomando Helena, essas políticas protegem condições de acumulação, inclusive as do tráfico internacional e atividades comerciais associadas. Por que a contradição entre promessa e resultado é tão pouco percebida? Iris Marion Young, com a lógica da proteção masculinista, ajuda a compreender: a adesão à militarização depende menos da eficácia das políticas punitivistas, do que da imagem do homem forte e guerreiro que protege a sociedade.

O conservadorismo apresenta hierarquias tradicionais de gênero como fontes de segurança, mistificando a violência e a dominação que sustentam essa falsa proteção. A crítica feminista revela essa contradição. A mistificação do sexismo no punitivismo também atinge homens subalternizados, aos quais se oferece uma sensação limitada de poder pelo exercício de pequenas violências contra grupos minorizados.

Alessandra Jungs de Almeida — Pesquisadora de estudos feministas de segurança na FHS, Suécia: Essa promessa de proteção protege privilégios masculinos diante das conquistas feministas dos últimos dez ou quinze anos na região.

Nesse sentido, a promessa de proteção oferecida por homens fortes também pode ser entendida como uma defesa da ordem social diante daquilo que esses setores identificam como uma ameaça: os próprios feminismos. Ao mesmo tempo, não podemos separar gênero de economia.

Sob Bolsonaro, reformas conduzidas por Paulo Guedes precarizaram trabalho e condições de vida, enquanto ataques misóginos mobilizavam indignação e, por vezes, desviavam a atenção dos retrocessos trabalhistas.

Isso não torna o gênero uma “cortina de fumaça” porque a defesa dos privilégios masculinos e a precarização econômica são dimensões articuladas em um mesmo processo político.

Sofia Vizcarra — Professora de Ciência Política na UFRGS, Brasil: Esta campanha está intensificando a guerra às drogas na Amazônia, apresentando desmatamento e problemas ambientais, como crimes ambientais associados ao PCC e ao Comando Vermelho.

A extrema-direita na Pan-amazônia propõe uma “mano dura” verde: mais forças da ordem para “recuperar” territórios. Mulheres amazônicas e comunidades rurais vão sofrer efeitos semelhantes aos observados na Colômbia, Peru e Bolívia com essas políticas.

Outro problema é a noção de narcoterrorismo, que confunde terrorismo, tráfico e crime comum, eleva o risco de intervenção externa e dificulta compreender economias ilícitas em relação ao desenvolvimento e à desigualdade. O uso deste enquadramento não funcionou em outros países da região.

Helena Salim de Castro —  Doutora e pesquisadora de gênero, feminismos e segurança internacional, Brasil: Classificar organizações criminosas como terroristas tem consequências práticas. Na campanha, profissionais da segurança pública questionaram propostas de Flávio Bolsonaro e seus efeitos sobre o trabalho policial.

Em uma aula sobre crime organizado com profissionais de segurança, surgiram preocupações semelhantes. Dialogar com quem implementa políticas pode abrir espaço para questionar o punitivismo, mesmo quando as críticas não partem de pressupostos feministas.

3. Como as redes transnacionais da extrema direita, os discursos de segurança e as pressões geopolíticas ameaçam democracia, soberania e direitos na região?

Lisa Belmiro Camara — Professora de Relações Internacionais na UFGD, Brasil: Em 2015, oito dos doze países sul-americanos tinham governos considerados progressistas. Desde então, a região acompanhou a ascensão global da extrema direita. É necessário distinguir conservadorismos tradicionais de projetos como os de Javier Milei e Nayib Bukele e observar a reorganização de alianças.

A Venezuela, antes capaz de disputar influência regional com o Brasil, ocupa outra posição após a intervenção estadunidense e a captura de Nicolás Maduro. Milei afastou a Argentina de alianças tradicionais; a eleição de Abelardo de la Espriella reaproximou a Colômbia dos Estados Unidos.

Embora diferentes, esses governos valorizam políticas de segurança duras: como a cooperação com Israel e ampliação militar e policial na Colômbia; maior presença militar e endurecimento penal na Argentina.

O segundo mandato de Donald Trump é mais explicitamente intervencionista, com Marco Rubio no centro dessa orientação. No Brasil, pressões comerciais, sanções contra ministros do STF e iniciativas para classificar PCC e Comando Vermelho como terroristas são instrumentos complementares de pressão.

A posição brasileira importa para o equilíbrio regional e para articulações com a China. Influenciar politicamente o Brasil ampliaria o poder estadunidense na região e globalmente. A interferência eleitoral, portanto, integra uma estratégia imperial que combina meios econômicos, políticos, militares e tecnológicos.

Izadora Xavier — Professora de Relações Internacionais na UEPB, Brasil: Assim como Trump chegou ao segundo mandato com maior capacidade de intervenção institucional, um novo governo bolsonarista poderia encontrar condições mais favoráveis, inclusive pela composição do Congresso.

Precisamos observar as Big Techs, próximas ao governo Trump, e suas conexões com as propostas tecnológicas de Flávio Bolsonaro. Não se trata apenas de privatização liberal, que deixa o mercado operar, nem da reorganização neoliberal do Estado pela lógica de mercado.

No libertarianismo das empresas de tecnologia, plataformas privadas e suas inteligências artificiais passam a desempenhar funções de governo, enquanto o Estado atua como mediador. Serviços essenciais e a própria vida política poderiam depender de empresas não submetidas aos mesmos mecanismos de controle democrático.

As pressões dos Estados Unidos, comerciais, jurídicas e securitárias, integram esse projeto internacional de reorganização do poder. O objetivo não seria apenas influenciar uma eleição, mas alinhar o Brasil a um projeto das Big Techs mediado pelo Estado estadunidense.

Alessandra Jungs de Almeida — Pesquisadora de estudos feministas de segurança na FHS, Suécia: Vejo uma atualização da Operação Condor. Nas ditaduras, o comunismo era apresentado como ameaça à família, à ordem e à nação. Hoje, a chamada “ideologia de gênero” cumpre parte desse papel. Mulheres conservadoras defensoras da “família” participavam das mobilizações que antecederam a ditadura brasileira em 1964. Essa circulação de ideias reapareceu ligada a interesses capitalistas contemporâneos.

Na Argentina, a criminalização de movimentos indígenas, como o Mapuche, relaciona-se à disputa por territórios e recursos estratégicos para a tecnologia e a indústria militar estadunidense. Transformar esses movimentos em ameaças legitima repressão e projetos extrativistas. O Brasil, por seus recursos naturais e posição na competição entre Estados Unidos e China, é especialmente relevante. Um alinhamento aos interesses estadunidenses pode aprofundar exploração ambiental, precarização do trabalho e violência contra mulheres, povos indígenas e defensores de direitos territoriais.

Também circula o modelo Bukele, de encarceramento em massa e expansão do poder punitivo. O governo de Milei já assinou um acordo de cooperação com Bukele, nomeando a aproximação um laboratório de política de segurança. O discurso de segurança de Abelardo de la Espriella copia a experiência de El Salvador e o ministro de segurança de Bukele veio ao Brasil em 2026 para apoiar Flávio Bolsonaro, que disse que a política do país em segurança era inspiradora.

Precisamos considerar o que isso significaria para movimentos sociais brasileiros diante das denúncias de perseguição e exílio de feministas em El Salvador.Com base no que acontece em outros países e no primeiro governo de Bolsonaro, um retorno bolsonarista poderia ter três efeitos. Primeiro, desmontar novamente políticas e instituições de gênero, agora com maior experiência administrativa.

Minha pesquisa sobre a Argentina em organismos internacionais identifica uma sequência semelhante à do primeiro governo Bolsonaro: silêncio ou retirada dos debates de gênero, oposição explícita às normas e promoção ativa de visões antifeministas.

Segundo, intensificar a criminalização de movimentos trabalhistas, ambientais, territoriais e de grupos marginalizados, que estão na última e talvez mais violenta fronteira de resistência à acumulação capitalista. Terceiro, aprofundar desigualdades raciais e de gênero pela militarização da segurança, cuja violência atinge desproporcionalmente pessoas negras.

O bolsonarismo articula antifeminismo, autoritarismo, racismo e militarização patriarcal, redefinindo quem é ameaça e quem merece proteção estatal. Seus efeitos ultrapassam o Brasil.

Helena Salim de Castro —  Doutora e pesquisadora de gênero, feminismos e segurança internacional, Brasil: A fala de Alessandra remete à segurança ontológica e a Jef Huysmans, que pensa a segurança como mediação entre ordem e caos. Os discursos não constroem apenas inimigos externos: produzem o “estranho” interno, alguém presente no território nacional, mas tratado como se não pertencesse plenamente à comunidade política. Esse estranho deve ser ordenado, controlado e, às vezes, eliminado.

Quando feministas e indígenas são representados como perigosos, constrói-se uma fronteira simbólica entre quem pertence à nação e quem pode ser excluído. A criminalização e a perda de direitos exigem não só decisões governamentais, mas alguma adesão social. Entender essa produção de estranhos e inimigos ajuda a explicar o apoio popular a políticas autoritárias.

Fim da conversa

Nossa conversa mostrou que as eleições brasileiras expressam disputas que atravessam a América Latina e o Caribe. Militarização, misoginia, autoritarismo e intervenção estrangeira se reforçam mutuamente, ao mesmo tempo que o bolsonarismo integra redes transnacionais da extrema direita. Os riscos incluem retrocessos legais, a naturalização da violência, masculinidades autoritárias, enfraquecimento da prevenção, precarização da vida e exclusão de mulheres das decisões sobre segurança.

Compartilhar experiências, produzir diagnósticos comuns, disputar a linguagem da segurança e fortalecer redes feministas são formas de resistência que ultrapassam as eleições. Se começamos perguntando o que podemos perder com o bolsonarismo, terminamos perguntando o que precisamos construir para impedir essas perdas. Os feminismos latino-americanos historicamente oferecem ferramentas para transformar relações entre poder e segurança. Não há democracia, segurança ou soberania sem a participação das mulheres e sem o pleno respeito a suas vidas, direitos e territórios.

Participantes da conversa

Alessandra Jungs de Almeida — co-fundadora de Amassuru e pesquisadora de pós-doutorado no Centro de Gênero, Paz e Segurança, Departamento de Estudos da Guerra, da Universidade de Defesa da Suécia (FHS). 

Catalina Gil — pesquisadora colombiana e consultora especializada em segurança, democracia e liderança de mulheres.

Helena Salim de Castro — coordenadora do Iaras – Núcleo de Estudos de Gênero, doutora e mestre em Relações Internacionais e pesquisadora de gênero, feminismos e segurança internacional. 

Izadora Xavier do Monte — professora de Relações Internacionais da UEPB e doutora em Sociologia pela Universidade de Paris 8. 

Liana Carvalho — professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), pesquisadora de facções criminosas no Nordeste brasileiro. 

Lisa Belmiro Camara — professora de Relações Internacionais da UFGD e doutora em Relações Internacionais pela UFSC. 

Olivia Tena — doutora em Sociologia e professora da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), pesquisadora de estudos de gênero, metodologia feminista, masculinidades e instituições policiais. 

Renata Garcia — professora do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos da UFPB, pesquisadora de gênero e segurança pública. 

Rosimar Francelino — advogada e servidora pública em Rondônia, atua no enfrentamento à violência contra as mulheres e pesquisa feminicídios e organizações criminosas. 

Sofia Vizcarra Castillo — professora de Ciência Política na UFRGS e doutora em Sociologia pela PUC Peru. 

Sonia Cardona — Assistente social com mestrado em psicologia comunitária. Coordenadora de Amassuru Colômbia e sócia de Amassuru.

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