A invasão dos Estados Unidos na Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro e da deputada Cilia Flores, sua companheira, em 3 de janeiro de 2026, marcaram um ponto de inflexão na já prolongada crise venezuelana. Nos dias que se seguiram, em um contexto atravessado por bombardeios, danos à infraestrutura civil e militar, interrupções nas comunicações e um clima generalizado de medo, mulheres da rede Amassuru — composta por mais de 900 mulheres que trabalham com temas de segurança e defesa em diferentes países da América Latina e do Caribe — se reuniram para dialogar, escutar-se e transformar em palavras o que havia ocorrido.

A conversa contou com a participação de mulheres venezuelanas que vivem no país, bem como de integrantes da rede de outros países da região. O diálogo foi fruto do testemunho direto de colegas da Amassuru que se encontram na Venezuela, da experiência em direitos humanos de ativistas e pesquisadoras e de uma reflexão política baseada em longos períodos de análise. A conversa, posteriormente, transformou-se neste artigo. Portanto, este artigo não deriva de um olhar externo ou neutro, mas de vozes situadas que vivem, acompanham e analisam as consequências da violência na vida cotidiana no país e na região.

A invasão na Venezuela não pode ser compreendida como um fato isolado. Ela se inscreve em uma história reiterada de intervenções estrangeiras no Caribe e na América Latina, bem como de bloqueios econômicos internacionais e em mais de uma década de crise humanitária e de violações sistemáticas de direitos humanos na Venezuela, aprofundadas pela precarização econômica, pela repressão política e pela incapacidade do Estado de garantir condições mínimas de proteção à sua população. 

As respostas dos organismos multilaterais têm sido insuficientes e as saídas políticas promovidas a partir do interior do país não conseguiram deter a deterioração institucional nem aliviar a emergência social, deixando grande parte da população — incluindo as mulheres — exposta a múltiplas formas de violência estrutural.

A partir de uma perspectiva feminista, essa conversa coletiva da Amassuru deu origem a este artigo em formato de perguntas e respostas, escrito a várias mãos. Por razões de segurança, decidimos anonimizar nossos nomes. Ainda assim, compartilhamos que somos professoras, pesquisadoras, consultoras internacionais e ativistas no campo da segurança e defesa em diferentes países da região. Nosso artigo busca aprofundar as implicações das intervenções de potências estrangeiras em países latino-americanos e seu impacto diferenciado sobre mulheres, famílias e comunidades. 

Em nossa análise, as mulheres não aparecem apenas como vítimas da guerra, da repressão ou da crise, mas como sujeitas políticas centrais na sustentação da vida, na defesa da soberania, na denúncia das violências, na produção de conhecimento e na construção de horizontes de paz em um cenário de reconfiguração da ordem mundial.

1) Como estão hoje as companheiras venezuelanas e como se sentem? O que podemos fazer como rede de mulheres para compreender melhor e contribuir para a situação das mulheres?

Mulher 1 – Vive na Venezuela e trabalha com direitos humanos, ação humanitária e jornalismo: Meu trabalho se desenvolve sob protocolos de segurança construídos a partir da sociedade civil. Ainda assim, o exercício cotidiano da minha atuação é marcado por um profundo cansaço e desgaste emocional, especialmente no jornalismo, onde cada vez menos colegas conseguem sustentar a cobertura por medo, esgotamento e falta de condições. 

A crise venezuelana não é um fenômeno recente, mas um conflito prolongado, atravessado por múltiplas formas de ingerência, incluindo as de Cuba e da Rússia, diante do qual a solidariedade internacional tem sido historicamente insuficiente e só se ativa de forma tardia e limitada, deixando as organizações e quem defende direitos humanos em uma situação de extrema fragilidade. 

São majoritariamente mulheres que acompanham e defendem pessoas detidas, acumulando responsabilidades familiares em um contexto de crise, repressão e ameaças.

Além disso, há uma dinâmica de “porta giratória”, com detenções arbitrárias, controles sem identificação e restrições severas à liberdade de expressão de jornalistas libertados, incluindo casos de violência sexual documentados pela organização que represento.

Mulher 2 – Vive na Venezuela, jornalista e pesquisadora: Vivemos em um estado de terror generalizado que se intensificou após os bombardeios e diante da ausência de um plano estatal de proteção da população civil. Há mais de 10 anos, devido à crise econômica, sobreviver cotidianamente é um ato heroico. 

A classe política venezuelana não deu conta do país. Em relação à ingerência estrangeira, não se pode equiparar o império dos Estados Unidos a Cuba, país que saldou uma dívida social da Venezuela e responde a outra lógica e escala de poder. Uma avaliação crítica dos atores não pode ser simplificada nem obscurecida sob uma única categoria de ingerência. A única saída possível passa por uma solução política que escute todas as vozes. 

A rede Amassuru pode contribuir abrindo espaços de discussão e escuta para: (1) compreender a complexidade das disputas políticas na Venezuela sem reduzi-las a leituras binárias; (2) facilitar diálogos feministas informados para processar contradições, visibilizar impactos diferenciados e sustentar uma reflexão coletiva que escape à simplificação ideológica.

2) Como devem ser interpretados os conceitos e o uso indistinto de termos como intervenção, sequestro ou ingerência no marco dos acontecimentos na Venezuela?

Mulher 3 – Colombiana que trabalha com prevenção de violência: Um dos principais desafios diante dos fatos ocorridos na Venezuela é a dificuldade de nomear o conflito sem cair em simplificações ou eufemismos.

O uso indistinto de termos como evento, intervenção, sequestro ou ingerência não é neutro: cada um produz efeitos políticos e define marcos de legitimidade ou de negação da violência. 

Nesse contexto, é especialmente relevante examinar o papel dos organismos internacionais, cuja capacidade de proteção se revela limitada — quando não inexistente — em cenários em que os Estados descumprem sistematicamente a garantia de direitos fundamentais. A noção de ingerência é particularmente problemática se seus alcances, limiares e sinais de alerta não forem claramente delimitados, pois pode contribuir para a normalização de práticas de controle externo sobre os territórios. 

Assim, o debate sobre como nomear o ocorrido não é meramente semântico, mas profundamente político: implica reconhecer o caráter violento do processo, disputar os marcos interpretativos dominantes e questionar quem detém o poder de defini-los e com quais consequências concretas para as populações afetadas.

Mulher 2 – Vive na Venezuela, jornalista e pesquisadora: As denominações variam conforme os atores e o lobby trumpista: o governo fala em sequestro; setores alinhados a María Corina Machado, com maior visibilidade internacional, utilizam o termo extração; e outras vozes apontaram uma tentativa de ocupação. O debate sobre ingerência exige ampliar e “desnarcotizar” a análise para evitar simplificações. 

A Venezuela é politicamente mais diversa do que sugerem as narrativas dominantes. No interior do país existem três tipos de oposição: (1) uma oposição com maioria eleitoral liderada por María Corina Machado, hoje ilegalizada de fato e perseguida; (2) uma oposição parlamentar que pactuou suas cadeiras com o governo; e (3) uma esquerda política — comunista, socialista e social-democrata — cofundadora do chavismo, também perseguida, que se opõe tanto a Maduro quanto a Machado, com menor representação eleitoral e visibilidade internacional. Na Venezuela, é difícil nomear o que ocorreu justamente por essa sobreposição de interesses, narrativas e assimetrias de poder.

Mulher 1 – Vive na Venezuela e trabalha com direitos humanos, ação humanitária e jornalismo: Há dificuldade em nomear o ocorrido e a oposição interna está profundamente desarticulada, com porta-vozes deslocados para o exterior por razões de segurança. A partir das organizações de direitos humanos e do jornalismo, optou-se por se referir aos fatos como “a captura”, enfatizando os interesses econômicos que sustentam a intervenção e mantendo denúncias documentadas perante instâncias internacionais.

3) Por que a Venezuela se tornou um território central na disputa pela hegemonia global e que riscos essa intervenção abre para a América Latina?

Mulher 4 – Professora e pesquisadora de Relações Internacionais do México: A partir de um olhar de fora da Venezuela, o país tornou-se estratégico não apenas pelo governo de turno, mas por seu peso geopolítico, energético e territorial na disputa entre os Estados Unidos e outras potências. A Venezuela concentra as maiores reservas provadas de petróleo do mundo e mantém vínculos econômicos com China, Rússia, Irã e Índia, o que a converte em um nó-chave da competição intercapitalista. 

Os Estados Unidos buscam reafirmar sua supremacia hemisférica, reativando uma versão renovada da Doutrina Monroe, não apenas para controlar recursos, mas também espaços, rotas comerciais e de comunicação. A ação unilateral dos Estados Unidos enfraquece o multilateralismo e pode legitimar intervenções semelhantes em outros países da região, em um contexto de franca decadência da cooperação internacional. 

A partir de uma memória latino-americana marcada por golpes de Estado e ditaduras, essas disputas afetam principalmente os povos, e não as elites, e as violências recaem de forma desproporcional sobre os corpos e territórios mais vulneráveis, especialmente os das mulheres.

Mulher 5 – Professora e pesquisadora de Estudos Internacionais do Equador: O ocorrido deve ser lido no marco de uma “globalização desviada ou obscura”, na qual o modelo clássico de globalização se enfraqueceu e dá lugar a uma reorganização simultânea de poderes locais, regionais e globais. 

Diferentemente da Doutrina Monroe tradicional, a nova leitura da América Latina como o tradicional quintal dos Estados Unidos encontra-se hoje fragmentada, sem unidade entre os povos e atravessada por tensões intergeracionais, processos crescentes de despolitização, uma crise de representação e ambientes abertos de guerra cognitiva. 

Nesse cenário, as leituras não podem ser feitas apenas de cima para baixo: é necessário um olhar desde baixo, onde se expressam as maiores turbulências e onde a condução política de cada Estado possui e aporta suas próprias dinâmicas e interesses, que buscam se resolver por meio de diferentes estratégias e cursos de ação. 

Essa fragmentação enfraqueceu a resiliência dos Estados frente ao crime organizado, e as ameaças (inclusive ambientais e fronteiriças) são construções políticas impulsionadas por interesses transnacionais. Nesse contexto, os nativos digitais emergem como atores capazes de produzir mudanças políticas, em meio a uma disputa global cada vez mais instável, na qual a luta por hegemonias é constante e cada vez mais complexa.

Mulher 6 – Professora e pesquisadora de Estudos Políticos do Equador: Complementando a leitura geopolítica, a solidão internacional que a Venezuela atravessa é uma experiência que identifico também na Palestina e em outros contextos de violência prolongada. Em ambos os casos, existem interesses econômicos claros que sustentam a guerra, a invasão e o despojo, enquanto a indignação internacional é insuficiente. 

As empresas abutres que hoje olham para a Venezuela não pensam apenas em um país, mas na região latino-americana como um conjunto de territórios ricos em recursos. A partir dessa lógica de necropolítica, na qual a acumulação se impõe sobre a vida, são as mulheres que colocam seus corpos em jogo: como cuidadoras, como sustentadoras de famílias e como principais protagonistas na defesa de pessoas encarceradas. 

Precisamos conectar os pontos entre Venezuela, Palestina, Sudão, Nigéria e Ucrânia para compreender que se trata de um padrão global de despojo e violência. Deve haver um ativismo feminista internacional que denuncie com força essas conexões e seus impactos diferenciados sobre as mulheres.

Mulher 7 – Pesquisadora colombiana de Relações Internacionais: O ocorrido na Venezuela não é um fato isolado, mas parte de um momento histórico em que potências grandes e médias estão reorganizando seu poder, gerando conflitos em diferentes regiões como Irã, Iêmen, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. A intervenção na Venezuela responde principalmente a interesses econômicos, em particular à reconfiguração energética derivada da guerra entre Rússia e Ucrânia e à disputa pelo destino do petróleo. 

Esse cenário intensificou uma polarização global que empurra leituras simplistas e reforça posições extremas. Em diálogo com o debate colombiano sobre soberania, há urgência em romper a polarização e abrir espaços de diálogo que permitam defender a soberania e a democracia sem que estas se convertam em pretextos para novas arbitrariedades.

Mulher 8 – Professora e pesquisadora de Relações Internacionais do Brasil: Nosso debate tem dado pouca atenção à noção de soberania, apesar da Venezuela estar sendo utilizada como cenário de disputa entre superpotências. 

No Brasil, foi publicada recentemente uma pesquisa que mostra que 58% da população teme que ocorra um processo de intervenção semelhante. Esse temor está ancorado na memória histórica sobre as ditaduras militares em países como Brasil, Chile e Argentina, que contaram com o apoio dos Estados Unidos. Sabemos que as invasões não trazem mais direitos humanos, mas novas violências. 

É necessário reconhecer que hoje coexistem ataques aos direitos humanos e à soberania na Venezuela.

O desafio é não contrapor esses dois princípios, mas sustentá-los conjuntamente, evitando duas ilusões: a primeira, de que essa intervenção externa poderia resolver as condições de direitos humanos; e a segunda, de que essa intervenção não faz parte de uma disputa geopolítica maior.

Mulher 9 – Pesquisadora colombiana de Ciências Políticas e Internacionais: Os acontecimentos de 3 de janeiro não apenas reordenam o cenário político, mas também estão reconfigurando o mundo criminal, com impactos diretos e diferenciados sobre as mulheres. 

A presença e o papel da embaixada dos Estados Unidos na Venezuela devem ser lidos também a partir dessa chave, que incide sobre economias ilegais, violências e controles territoriais. Além disso, a experiência histórica do acompanhamento diplomático da Venezuela aos processos de paz na Colômbia é um exemplo de uma diplomacia orientada à resolução de conflitos.

Mulher 10 – Pesquisadora de estudos internacionais e meio ambiente com conexões no Chile e na Argentina: A consigna de “recuperar o petróleo”, impulsionada pela administração Trump, inscreve-se em uma lógica de acumulação por despossessão, como argumenta Harvey [geógrafo britânico], própria de um capitalismo em crise que já não gera riqueza, mas depende crescentemente da extração de recursos, territórios e corpos. 

Esse projeto requer estabilidade político-social, mas não necessariamente democracia nem garantias de direitos, já que, para as petrolíferas, o central é a ordem, não a participação política. 

A partir dessa perspectiva, não são contraditórias a interlocução com setores do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) nem a negociação com empresas como a Chevron. A pressão político-militar dos Estados Unidos deve ser lida mais como defensiva do que ideológica, orientada a excluir capitais concorrentes e assegurar influência hemisférica, com uma mensagem implícita dirigida a Moscou e Pequim sob a retórica de “nosso hemisfério”.

Mulher 2 – Vive na Venezuela, jornalista e pesquisadora: O retorno da embaixada dos Estados Unidos é o claro tutelamento de uma ditadura. Essas negociações respondem a uma lógica de contenção do uso da força, mais do que a um processo democrático genuíno. A presença de atores armados transnacionais na Venezuela requer uma solução política estrutural, binacional e de integração, com perspectiva feminista, de direitos humanos e de direito internacional humanitário. 

A experiência de participação da sociedade na construção da paz no processo de paz com o ELN (Exército de Libertação Nacional)é um novo paradigma internacional que pode ser assumido no diálogo venezuelano. Essa abordagem não implica legitimar economias ilegais nem violências de gênero.

É possível condenar o terrorismo de Estado, a criminalização da pobreza, as medidas coercitivas unilaterais, a intervenção militar e o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores.

4) Que papéis as mulheres estão assumindo no atual cenário venezuelano de intervenção e violência e como uma leitura feminista latino-americana permite compreender seus impactos políticos, territoriais e corporais na região?

Mulher 11 – Pesquisadora de Gênero e Segurança da Colômbia: É preciso interrogar de onde estamos pensando o ocorrido e as próprias perguntas, propondo o corpo como eixo central da análise. Os corpos das mulheres funcionam como o primeiro território da violência, onde se inscrevem a invasão, o controle e a disciplina, não apenas em nível individual, mas também comunitário. 

A partir daí, é necessário repensar a soberania incorporando a capacidade organizativa das mulheres diante da crise venezuelana. Precisamos reler a Doutrina Monroe a partir dos corpos e da vida cotidiana para compreender que a Venezuela não é uma exceção, mas um cenário que pode se reproduzir em outros territórios da América Latina se não forem questionadas as lógicas que naturalizam a intervenção.

Mulher 5 – Professora e pesquisadora de Estudos Internacionais do Equador: Precisamos fazer uma leitura complexa e integral que articule variáveis sociais, políticas e de violência, deslocando o foco exclusivo do controle territorial para o corpo das mulheres como a primeira escala da intervenção. A partir desse olhar, o ataque à intimidade, à vida cotidiana e aos vínculos comunitários constitui a primeira escalada geográfica da violência, um aspecto ignorado pela geopolítica tradicional. 

A ação de aparatos de inteligência estrangeiros e locais sustentou uma visão masculinizada do poder, invisibilizando as mulheres e reproduzindo violência feminicida e criminalização. Diante disso, há urgência em recuperar a perspectiva feminista, erguer a voz e fortalecer processos de emancipação e organização comunitária.

Mulher 7 – Pesquisadora colombiana de Relações Internacionais: Em diferentes contextos de violência e autoritarismo (como Irã, Venezuela ou Estados Unidos), são as mulheres que ativam as principais formas de resistência, mas suas ações raramente são visibilizadas. Na Venezuela, por exemplo, o foco midiático costuma se concentrar nos presos políticos homens, enquanto são as mulheres que sustentam a defesa, o cuidado e a denúncia. 

Podemos traçar um paralelo com o contexto migratório nos Estados Unidos, onde as mulheres se interpõem fisicamente diante da violência estatal e também enfrentam os maiores riscos, inclusive a morte, como no caso de Renee Good, em Minneapolis.

As narrativas hegemônicas se aproveitam da violência e naturalizam a guerra como forma de paz. Há urgência em criar mecanismos próprios para visibilizar o protagonismo das mulheres, evitando que outros discursos falem em seu nome e apaguem sua ação política.

Mulher 1 – Vive na Venezuela e trabalha com direitos humanos, ação humanitária e jornalismo: A Venezuela pode se tornar uma porta de entrada para legitimar práticas contrárias à Agenda 2030 e aos direitos das mulheres na região. A partir da minha experiência de anos trabalhando com gênero, o país apresenta um forte atraso: o movimento feminista e de diversidades foi um dos primeiros a ser desarticulado, enquanto as mulheres assumiram centralmente a defesa de pessoas detidas, muitas delas também encarceradas. 

A falta de financiamento — agravada após a chegada de Trump — reduziu drasticamente as capacidades das organizações, hoje impossibilitadas até mesmo de produzir dados com enfoque de gênero. 

Houve o caso de uma feminista detida e agredida em agosto, cuja libertação foi possível graças à pressão internacional, como exemplo do papel estratégico que a rede pode desempenhar para proteger, denunciar e amplificar essas lutas.

Mulher 11 – Pesquisadora de Gênero e Segurança da Colômbia: Devemos repensar o conceito de soberania a partir das contribuições dos estudos feministas e da ciência política.

A violência exercida sobre os territórios está indissociavelmente ligada à violência exercida sobre os corpos, especialmente aqueles lidos como femininos. 

A intervenção na Venezuela foi legitimada discursivamente antes do uso da força, por meio da promessa de “levar democracia” e “proteger direitos”, uma narrativa que invisibiliza os impactos corporais e cotidianos da violência. 

O medo generalizado diante da ferocidade das mudanças em curso e a denúncia do ocorrido por organizações feministas em diferentes cantos da América Latina — que construíram memória histórica sobre a violência estatal e intervencionista — revelam a urgência de nutrir um conceito situado de soberania que reconheça como as agressões territoriais se traduzem em insegurança, controle e dano sobre as pessoas e suas comunidades.

Fim da conversa.

Nossa conversa enfatiza não apenas a imensa validade da análise construída a partir da experiência e da ética política das mulheres, mas também a capacidade de uma leitura feminista orientada à articulação de dimensões geopolíticas, de direitos humanos e de poder com um registro profundamente sensível à dor humana. As contribuições de cada uma de nós não se limitaram a discutir marcos políticos ou estratégicos, mas incorporaram de maneira central os impactos concretos e cotidianos que esses processos têm sobre a vida das mulheres, seus corpos, vínculos e responsabilidades de cuidado. 

Ao longo de um diálogo estendido por mais de três horas, este espaço se converteu em uma oportunidade para avaliar olhares complexos e situados que rejeitam soluções simplistas e convocam a uma saída concertada, com múltiplos atores envolvidos e com a participação ativa das mulheres. 

Longe de ficarmos aprisionadas na polarização, tivemos um diálogo produtivo, de significados particulares compartilhados, que abriu caminhos para pensar a soberania de nossos territórios e de nossos corpos a partir das nossas vidas, reconhecendo que sem nós não há compreensão plena do conflito nem possibilidade real de transformação.

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