O que significa defender o bem viver nas eleições de 2026? Para mulheres negras que atuam na política, nos movimentos sociais e na defesa dos direitos humanos, a resposta passa pela garantia de condições dignas de vida, pelo incentivo às políticas de cuidado, e pelo enfrentamento das desigualdades e violências de gênero e raça.

No cenário que vivemos de ausência de políticas públicas de cuidado, a reprodução social cotidiana, recai significativamente sobre os corpos de mulheres, defender o bem viver significa reivindicar o direito ao descanso, à segurança, à educação, à trabalho digno, à autonomia e à participação política.

“O bem viver é uma escolha política. É defender que a vida esteja no centro das decisões, que o cuidado seja uma responsabilidade coletiva e que nós tenhamos o direito de existir para além da luta diária pela sobrevivência”, afirma Bia Vargas, primeira suplente de deputada estadual em Santa Catarina e vice-presidente do PT de Florianópolis.

Para ela, as eleições representam uma oportunidade de disputar outro projeto de sociedade. “Não queremos apenas resistir a esse sistema. Queremos transformá-lo”, defende.

Cuidado, políticas públicas e desigualdade: quem sustenta a vida das mulheres?

A sobrecarga do trabalho doméstico e de cuidado, remunerado ou não, tem ganhado centralidade no debate sobre o bem viver. Historicamente atribuídas às mulheres, essas atividades são fundamentais para o funcionamento da sociedade, mas nem sempre são reconhecidas ou compartilhadas.

“Somos mães, filhas, trabalhadoras, cuidadoras. Estamos nos terreiros, nas igrejas, nas escolas, nos sambas. Somos a força motriz de uma economia que está nos engolindo vivas”, afirma Débora Nunes Barbosa, assistente social e presidenta do Conselho Regional de Serviço Social de Santa Catarina (CRESS 12ª Região).

Segundo ela, a responsabilidade pelo cuidado não pode continuar sendo tratada como um destino individual das mulheres. A alta dos preços dos alimentos, as dificuldades de acesso à saúde, a insegurança e a falta de proteção social tornam essa realidade ainda mais desigual.

O peso da organização social afeta as mulheres de formas diferentes, intensificando as desigualdades enfrentadas pelas mulheres negras devido ao racismo e ao sexismo, pelas mulheres com deficiência na busca por autonomia e pelas mulheres trans na luta pelo direito à existência e ao reconhecimento.

“Não podemos falar em bem viver sem enfrentar as desigualdades que determinam quem tem direito ao descanso, à segurança, à liberdade e até mesmo a ser cuidada”, destaca.

Para Michele Thomaz, teóloga, assistente social e ativista feminista, a defesa do bem viver também parte do reconhecimento da interdependência entre as pessoas.

“Historicamente somos nós que cuidamos dos corpos, por isso defendemos o bem viver. Pela compreensão, na prática, de que somos interdependentes, que somos um coletivo”, afirma.

Direito à vida, à autonomia e à participação política

O bem viver também está relacionado à possibilidade de ocupar espaços de decisão, construir projetos pessoais e exercer direitos sem abrir mão da saúde, da segurança e dos afetos.

“Nós mulheres defendemos radicalmente o bem viver porque queremos estar nos espaços de poder, mas com tranquilidade, com uma rede de apoio, com direito ao lazer, o direito de criar os nossos filhos, com direito a avançar nos projetos que nós quisermos”, afirma Vanessa da Rosa, vereadora de Joinville (SC) pelo PT.

Para Lara Luísa, professora, pesquisadora e liderança quilombola, a defesa do bem viver está diretamente relacionada à dignidade e às políticas públicas de reparação.

“Merecemos estar vivas e vivendo com dignidade. Em décadas de resistência ao neocolonialismo, esses foram os únicos 20 anos que as políticas públicas de reparação tiveram impacto sobre nossas vidas”, afirma.

As reflexões apontam para a necessidade de políticas públicas que reconheçam o cuidado como responsabilidade coletiva e garantam condições para que mulheres possam viver para além das urgências da sobrevivência.

Eleições de 2026: que futuro queremos construir?

Para Débora Nunes Barbosa, a democracia também precisa ser medida pelas condições concretas de vida da população. Isso significa pensar no futuro das próximas gerações e enfrentar a naturalização da sobrecarga feminina.

“Queremos que [nossas filhas] herdem mais possibilidades do que medos, que não recebam como herança a obrigação de cuidar de todo mundo enquanto adiam a própria vida”, afirma.

Nesse sentido, a disputa eleitoral envolve mais do que a escolha de representantes: coloca em debate quais vidas serão priorizadas nas decisões políticas e quais responsabilidades devem ser assumidas pelo Estado e pela sociedade.

“A radicalidade do bem viver talvez resida na compreensão que não basta mudar as condições em que as mulheres sobrevivem. Precisamos transformar uma sociedade que aprendeu a depender de nós sem se responsabilizar por nós”, conclui Débora.

As entrevistadas participaram do 5º Encontro de Negras e Negros do Judiciário Catarinense, que ocorreu nos dias 9 e 10 de outubro de 2026, na sede do SINJUSC em Florianópolis. O evento teve como tema “Terra negra, terra cabocla, terra de luta – Do Contestado a Antonieta, a vida é desafio”, debatendo ações afirmativas, racismo estrutural e reparação histórica.

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  • Nicole é feminista, latino-americana, mulher cis e migrante. Formada em Serviço Social pela Universidade Federal de Sant...

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