Em 1975, a antropóloga norte-americana Gayle Rubin cunhou a expressão “tráfico de mulheres” para descrever algo que nenhum editorial resume melhor do que os áudios, as fotos e as mensagens que vieram a público nas últimas semanas sobre o Caso Master: em determinadas estruturas de poder, a mulher não é parte do acordo entre homens — é a moeda com que ele se paga. 

Cinquenta anos depois de Rubin, a tese voltou a se confirmar, em plena disputa eleitoral de 2026, no centro do sistema de Justiça brasileiro.

O banqueiro Daniel Vorcaro comprou acesso a ministros do Supremo Tribunal Federal, à Procuradoria-Geral da República, à cúpula da Polícia Federal e a parlamentares do Centrão e da direita oferecendo jatinhos, contratos de consultoria e festas privadas com mulheres recrutadas para a ocasião. 

Mensagens interceptadas e divulgadas pela imprensa mostram a lógica funcionando como um balcão de logística, não como um deslize pontual de mau gosto:

“Cara, tem 120 mulheres e 20 homens. Tô tendo que tirar mulher porque não tá cabendo.” “Só menina nova. Metade de fora e as daqui conhecemos.” “Telefone na porta.”

E, numa mensagem que resume o projeto político por trás da sedução, um dos organizadores explica a outro: “É só pra dar confiança pros caras […] Mandei aqui pro Toffoli. Pô, dá até para trazer o Alexandre numa dessa, entendeu?” A mulher, nessa frase, não é destinatária de nada: é o meio pelo qual um homem convence outro homem a confiar num banco.

Envolvimento de ministro Nunes Marques expõe relação com as eleições 

O que uma recente reportagem da revista Piauí acrescenta a esse quadro é ainda mais grave, porque coloca o escândalo no centro do poder, ou seja, no Supremo Tribunal Federal, às vésperas do carnaval, com a presença do próprio presidente do Tribunal Superior Eleitoral. 

Conforme as 125 mensagens trocadas entre sete organizadores e reveladas pela revista, na noite de 28 de fevereiro cinco garotas de programa foram levadas ao tríplex de Daniel Vorcaro para uma festa que contou com a presença do ministro Kassio Nunes Marques, do STF. 

“Emprestei quarto do lado para ministro com 5 menina”, escreveu Michael, um dos organizadores, a outro. “Só lembra que sem celular”, repetiu-se a mesma regra de silenciamento que vale para as demais festas.

O desembargador Newton Ramos, do TRF-1, cuidou da logística do hotel. 

Fotos trocadas entre os organizadores mostram preservativos usados e peças de roupa íntima encontradas sob os travesseiros — “Essas menina é artista, olha o que achei embaixo do travesseiro” — e uma das jovens é identificada, em mensagem de outra agenciadora, como tendo “ficado com o Kassio”. 

Em outra conversa, a agenciadora Rayanna cobra o pagamento de uma das mulheres como quem fecha uma venda: “10 né!”, escreve, antes de receber o Pix.

Procurado pela reportagem, o ministro negou qualquer conduta irregular. Mas as mensagens revelam também uma ponte financeira que não pode ser ignorada: Kevin Marques, filho do ministro, recebeu de empresa ligada a Vorcaro um salário mensal de R$ 500 mil, além de repasses que somaram R$ 282 mil — no mesmo período em que o próprio Nunes Marques votava, no STF, em processos de interesse direto do banco, como o chamado “caso Alcídia”.

É aqui que o episódio deixa de ser só mais uma crônica de devassidão da elite brasileira e se torna uma questão eleitoral. 

Kassio Nunes Marques além de ministro do STF é, neste exato momento, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ou seja, a autoridade máxima responsável por garantir a lisura do pleito de 2026. 

Foi sob sua presidência que o TSE decidiu questões favoráveis ao candidato Flávio Bolsonaro, incluindo a retirada, de ofício, de conteúdo identificado como “Exército do Lula” das redes. 

Um país não pode discutir a lisura eleitoral fingindo não ver que o árbitro da eleição está, segundo documentos obtidos pela imprensa, financeira e socialmente ligado à mesma rede que ele deveria fiscalizar com isenção.

Mulheres recrutadas são tratadas como mercadoria humana 

Enquanto isso, a Polícia Federal apura uma segunda ponta do mesmo esquema, revelada pela Revista Fórum: indícios de que Daniel Vorcaro financiou, com cerca de R$ 4,3 milhões, uma rede de prostituição que recrutava mulheres, inclusive refugiadas ucranianas, para eventos como o do tríplex, pagando R$ 120 mil por mês ao operador responsável, Diogo Batista. 

As mensagens atribuídas a Batista descrevem as mulheres recrutadas, em conversas privadas, como mercadoria humana:

“Vou já escravizar ela pra hoje.” “Escravas. Se quiser levo 2 do Rio.”

A estrutura de recrutamento de garotas jovens é chamada, internamente, de “a creche”. O caso mais grave envolve uma refugiada ucraniana de 19 anos, impedida, segundo a reportagem, de seguir para a Itália, onde pretendia pedir refúgio e “preparada” para seu “debute” no circuito de prostituição. 

Internamente, era chamada de “Mucilon”, o nome de uma papinha infantil, e descrita como “gata e novinha”, “doutrinada” e “obediente”. 

Foi a filósofa Djamila Ribeiro, em coluna na Folha de S. Paulo, quem primeiro cobrou publicamente a apuração do caso e articulou, pessoalmente, a representação que a deputada Tabata Amaral (PSB-SP) protocolou na Polícia Federal — três meses depois da primeira denúncia, tempo suficiente, nas palavras de Djamila, para a organização “calar mulheres, cobrir rastros, queimar provas”. 

A conduta pode configurar tráfico de pessoas, nos termos do artigo 149-A do Código Penal e da Lei 13.344/2016, que internaliza o Protocolo de Palermo — instrumento que estabelece, de forma explícita, que o consentimento da vítima é irrelevante quando há abuso de situação de vulnerabilidade. 

Assim perguntou Djamila: “qual era a liberdade concreta de jovens cujo país estava sendo bombardeado e cuja permanência no Brasil dependia dos homens que organizavam as festas?”

Lógica já havia aparecido na fala de Bolsonaro quando ofereceu brasileiras a turistas

Nada disso é incompatível, aliás, com o fato de que boa parte da classe política brasileira incluindo setores que hoje disputam a eleição de 2026 em nome da “defesa da família” construiu carreira atacando o que chama de “ideologia de gênero” e tratando o empoderamento feminino como “conceito doentio”, nas palavras já usadas em plenário pela deputada Bia Kicis (PL). 

O deboche é estrutural: o mesmo campo político que mobiliza pânico moral contra professoras e defende que a mulher deve voltar ao “lugar de mãe e esposa” é o que, nos bastidores documentados por essas reportagens, trata corpos femininos como brinde de negociação — sem que isso lhe custe uma fração do capital político que gasta perseguindo a palavra “gênero” em sala de aula. 

Essa lógica já havia aparecido, em 2019, na boca de um presidente da República: “quem quiser vir ao Brasil fazer sexo com mulher, fique à vontade”, declarou Jair Bolsonaro a jornalistas — oferecendo o corpo da mulher brasileira como atrativo turístico nacional, a ponto de a OAB de Alagoas e secretarias de turismo de três estados responderem, em campanha publicitária: “Brasil está à disposição dos turistas. As mulheres brasileiras, não.”

 O corpo e a voz femininos são tratados como ativo transacionável entre homens

O que une a festa que oferece mulheres a ministros do STF, o ex-presidente que oferecia o corpo da mulher brasileira a turistas estrangeiros e os próprios ataques ao empoderamento feminino partindo de parlamentares eleitas é a mesma gramática: o corpo e a voz femininos tratados como ativo transacionável entre homens — nunca como sujeito da transação. 

Como lembrou a antropóloga argentina Rita Segato sobre a lógica mais ampla da violência de gênero, ela “não se baseia em um desejo sexual […] é um ato de poder, de dominação, é um ato político”. 

As reportagens que dão conta do escândalo que vem à tona, descrevem o funcionamento ordinário de um sistema. O sistema patriarcal em que a misoginia é o mecanismo punitivo de controle, que é comprovado por dados.

Segundo a União Interparlamentar, o Brasil ocupa a 138ª posição entre cerca de 180 parlamentos do mundo em representação feminina. 

No plano da violência, o retrato se agrava, pois segundo o Atlas da Violência 2024, 67,1% dos assassinatos de pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil têm mulheres como vítimas e, segundo o Conselho Nacional de Justiça, entre os feminicídios, 62% das vítimas são mulheres negras.

Acesso e permanência de mulheres nos centros de decisão são imperativos

Ou seja, o sistema patriarcal mantém uma elite no poder majoritariamente masculina, branca e homogênea, que menos resiste a esquemas como o do Banco Master, que mais facilmente relativiza a apologia presidencial ao turismo sexual e que mais naturalmente aceita parlamentares discursando contra os próprios direitos das mulheres. 

Ali, a presença feminina constitui uma exceção, que se divide entre a resistência sujeita a sucessivos e constantes ataques misóginos e aquela que precisa demonstrar lealdade à estrutura existente, em vez de alterá-la.

Assim, superar a misoginia estrutural exige desmontar a própria arquitetura do patriarcado mediante a redistribuição radical do poder e dos recursos materiais. 

O acesso e a permanência de mulheres nos centros de decisão jurídica, legislativa e econômica são imperativos para estancar o silenciamento sistemático que as afasta da esfera pública. 

Para desmantelar um sistema que reduz corpos femininos a moedas de troca, objetos de barganha ou instrumentos de alianças masculinas, é urgente refundar o pacto social. 

Apenas a eliminação dos mecanismos punitivos de controle e a garantia da soberania sobre os seus corpos consolidarão a integração definitiva das mulheres como sujeitos de direito e políticos plenos.

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  • Raquel-Tamassia-Marques

    Advogada, especialista em Direito Processual Civil pela PUC São Paulo, em Direitos das Mulheres pela UniDomBosco, em Dir...

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