Circula nos posts na “machosfera” uma opinião calhorda comparando o voto feminino como “uma das maiores desgraças da humanidade”. À medida que se aproximam as eleições, o direito consolidado e sob ataque é o sufrágio feminino.

Há, hoje, um movimento orquestrado pela extrema direita no Brasil, boa parte copiado dos Estados Unidos, que quer tirar das mulheres o direito de votarem e, consequentemente, de serem eleitas. Por que esses discursos vêm com força agora?

Desde muito, em quase todas as sociedades, os homens exerceram controle sobre a propriedade, os filhos e as mulheres sob um regime patriarcal. Muitas mulheres, porém, cansaram do domínio e passaram a questionar a subalternidade com que eram tratadas. 

O século 20 viu surgirem os movimentos feministas e a luta pelo direito ao voto em igualdade de condições com os homens. No Brasil, o movimento feminista ganhou força na década de 1920, tendo à frente nomes como a professora Maria Lacerda de Moura e a bióloga Bertha Lutz

Juntas, elas fundaram a Liga para a Emancipação Intelectualda Mulher, grupo de estudos voltado à luta pela igualdade política das mulheres. Logo depois, Bertha Lutz criou a Federação Brasileira para o Progresso Feminino que tinha entre suas pautas “assegurar à mulher direitos políticos e preparação para o exercício inteligente desses direitos”.

O voto das mulheres no país foi reconhecido em 1932 e incorporado à Constituição em 1934, mas ainda era facultativo. Somente em 1965 tornou-se obrigatório e equiparado ao dos homens. 

Entramos no século 21 com a experiência da democracia consolidada (ou se consolidando) com mulheres alcançando postos de comando, eleitas nas diferentes esferas do poder político, fazendo a diferença. Essa presença cada vez maior assustou e assusta homens que se acham preteridos porque elas estão alçando postos que eles consideravam só seus por direito.

Maioria da população, mulheres ainda são minoria nos espaços de poder político 

Os resultados do Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o Brasil tem 6 milhões de mulheres a mais do que homens: são cerca de 104,5 milhões de mulheres e 98,5 milhões de homens

As mulheres representam cerca de 53% do eleitorado brasileiro, mas ocupam 17% a 18% das eleitas para cargos políticos, evidenciando que a participação feminina ainda está muito abaixo da proporção de mulheres na população e no eleitorado. 

Ainda segundo dados do IBGE (2022), embora representem 51,5% da população brasileira, elas ocupavam, em maio de 2026, 18,7% das cadeiras na Câmara dos Deputados e 19,8% no Senado Federal (Agência Senado, 2026).

No Judiciário, ainda que o percentual de magistradas seja de 36,8%, apenas uma mulher integra o Supremo Tribunal Federal (STF). No Executivo, somente uma mulher chegou à Presidência da República na história do país e, nos últimos 30 anos, apenas dez foram eleitas governadoras. No âmbito municipal, a disparidade se mantém: elas ocupam apenas 13,2% das prefeituras brasileiras.

Estes dados mostram que, mesmo sendo a maioria da população, a participação das mulheres eleitas não passa de 20% em relação aos homens eleitos. O que acontece? Quais discursos as amedrontam na decisão do voto? A força da cultura machista, do patriarcado e da misoginia está longe de ser erradicada. 

Ódio e estruturas machistas e fascistas corroem a democracia 

Em um ensaio político que busca compreender a ascensão do autoritarismo contemporâneo, a filósofa Marcia Tiburi argumenta que a extrema direita se apoia na desinformação tecnológica, no ódio e em estruturas machistas e fascistas e corroer para democracia. 

Ela denomina turbotecnomachonazifascismo esse conjunto de discursos infames que desqualificam as mulheres e fazem da misoginia um instrumento de poder e capital político para angariar votos.

Márcia aponta a retórica do “macho agressivo” contra os direitos das mulheres, marcada por provocações que buscam causar medo e pânico, beirando ao grotesco e ao ridículo. 

Recentemente, vimos um partido com candidato à Presidência, o Missão, defender o fim do voto das mulheres com um despudor de dar asco. 

O objetivo? Obter seguidores, e votos, de uma parcela de incautos/as alienados/as. Trata-se de um discurso perigoso para as mulheres, para a cidadania, para a democracia, para a política e para a sociedade.

Mulheres advogando contra si mesmas é um paradoxo

Vemos mulheres saindo em defesa dos discursos de homens que querem eliminar o direito ao voto delas. É uma contradição: imagine votar em um candidato que defende que você não tem o direito de votar? 

Como pode haver mulheres que votem pelo fim de seus próprios direitos? 

Presenciamos essa contradição, por exemplo, nas ações de uma deputada estadual de direita de Santa Catarina que apresenta projetos como a criação da Procuradoria Especial do Homem, escreve livros que atacam as conquistas das mulheres e do feminismo e cria clubes antifeministas, entre outras iniciativas. Mas ela foi eleita. Incoerente, absurdo, ilógico, contraditório. É um paradoxo: mulheres eleitas advogando contra si mesmas.

Como estas mulheres ligadas ao bolsonarismo não percebem que o espaço de poder continua sendo definido pelos homens? Como não se percebem como mulheres e aceitam serem coadjuvantes e não enxergam os danos do patriarcado? 

São cooptadas e estão lá porque servem aos interesses do partido. Como essas mulheres não enxergam o mundo ao redor? Não se percebem enleadas nas redes de poder masculinas mesmo com tanta informação? 

Talvez não percebam, ou não querem perceber, a força política que teriam se deixassem de atuar apenas como apoio dos homens e construíssem um caminho próprio que defendesse os direitos das mulheres e denunciasse a violência política de gênero. Elas também sofrem esta violência, todavia, aceitam. 

Sobre estes discursos que pretendem afastar as mulheres do direito ao voto, um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) analisou 126 publicações feitas em 18 comunidades do Telegram. 

A pesquisa identificou uma narrativa consolidada na chamada “machosfera” que busca deslegitimar o sufrágio feminino associando o exercício desse direito a uma suposta decadência social e política. 

Essa naturalização aparece em frases que classificam o voto feminino como “um dos maiores erros da sociedade ocidental”, “uma das maiores desgraças da humanidade” e “a pior decisão já tomada pelo Brasil”, expressões recorrentes nas mensagens analisadas. 

Esse projeto da “machosfera” objetiva o controle dos corpos das mulheres, manipular suas mentes e fazê-las acreditar que elas não sabem fazer escolhas e, portanto, não sabem votar, reproduzindo as ideias de fragilidade e incapacidade feminina para tomar decisões. Adotam uma perspectiva reacionária, machista e misógina de controle e desprezo às mulheres. Parece uma distopia como no Conto da Aia, mas é um movimento em curso.

Antifeminismo e ressentimento se transformam em estratégias de mobilização

A socióloga e cientista política Bruna Camilo, pesquisadora de gênero e misoginia, no livro Machosfera: Quando a Misoginia Vira Política (Dialética Editora, 2026) investiga comunidades masculinistas e a conexão na internet. 

Ela mostra como transformam discursos antifeministas e ressentimento em estratégias de mobilização política. Um negócio lucrativo e que tem sido usado para desinformar eleitores com o objetivo de obter ganhos políticos, ou seja, o voto. E as mulheres são o alvo: a ofensiva é misógina e as desqualifica para o exercício desse direito. 

Nas últimas décadas, movimentos por direitos — feministas, negros e LGBTQIAPN+, entre  outros — deslocaram fronteiras e contribuíram para nomear violências até então naturalizadas. 

Pessoas historicamente invisibilizadas e excluídas passaram a disputar, a duras lutas, os espaços públicos, políticos e de poder. Houve avanços e, por isso, as reações negativas e os contra-ataques (backlash) se intensificam neste momento que antecede as eleições.

É preciso continuar vigilante

Mas há esperança neste universo de contradições e paradoxos. Muitas mulheres, também alguns homens, estão firmemente engajadas na defesa dos direitos conquistados, entre eles o sufrágio, fundamental no exercício da democracia, da cidadania e da inclusão. Movimentos, ONGS, parlamentares, jornalistas, comunicadores, e outras organizações vêm construindo ações que conscientizem sobre o poder delas para construírem mundos mais justos, possíveis e inclusivos.

Dentre várias iniciativas, destaco a organização Elas no Poder, cuja missão é “impulsionar a participação ativa de adolescentes e mulheres em espaços de decisãofortalecendo a democracia e promovendo a equidade de gênero e raça.” 

Observe que são jovens impulsionando lideranças ainda mais jovens com propósito de transformar estruturas de poder. Acredito nestas iniciativas transformadoras que partem da premissa que conscientizar é o caminho para relações democráticas. 

“Sem mulheres no poder, a democracia empobrece”, nos lembra a advogada Melina Fachin. Sim, a democracia precisa das mulheres nos espaços de decisão, e o voto delas é irrevogável. 

“Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que nossos direitos sejam questionados. É preciso continuar vigilante a vida inteira”, alertou Simone de Beauvoir ainda em 1974. Seguimos vigilantes. 

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  • Marlene de Fáveri

    Marlene de Fáveri, natural de Santa Catarina, Historiadora, professora Aposentada do Departamento de História da UDESC....

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