O assassinato do empresário Marcos Matsunaga, herdeiro e executivo da Yoki, é um dos crimes mais emblemáticos da história recente do Brasil. Mais de uma década depois, o caso volta ao centro do debate com o recém-lançado filme “Elize: Sombras de Uma Mulher” (2026), dirigido por Felipe Vellas, que retoma uma história já revisitada pelo documentário “Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime” (2021), de Eliza Capai. 

Disponíveis na Netflix, as duas obras, embora construídas em linguagens distintas, desafiam os estereótipos impostos às mulheres pela cultura patriarcal. A louca, a santa e a puta aparecem como categorias que tentam explicar quem foi Elize. Ao acompanhar sua trajetória, percebemos que essas imagens não são fixas: sobrepõem-se, alternam-se e são moldadas pelas expectativas e julgamentos dirigidos às mulheres. 

Diante de cada episódio de violência contra uma mulher, costuma reaparecer a pergunta: “o que ela fez para merecer isso?”, “por que não foi embora antes?” Quando a vítima é homem, esse tipo de questionamento raramente ocupa o centro da narrativa.

No caso de Elize, a motivação do crime foi rapidamente reduzida ao ciúme, ao interesse financeiro e à disputa pela herança, deixando pouco espaço para compreender o contexto de violência de gênero que também atravessava a história.

É aí que o documentário de Eliza Capai se torna especialmente potente. Pela primeira vez, o público acompanha a versão da própria Elize e revisita um julgamento cuja defesa se apoiou na desqualificação da vítima — gesto incomum em um Tribunal do Júri brasileiro quando o cônjuge assassinado é homem. Longe de inverter simplesmente papéis, esse recurso suscita uma pergunta mais profunda: quais relações de poder, marcadas por desigualdades de gênero, ajudaram a construir a narrativa da “louca”, da “interesseira”, da “prostituta” e, por fim, da assassina fria? 

Mais do que absolver ou condenar, as obras propõem compreender como essas categorias são produzidas socialmente e atravessam a forma como somos julgadas, principalmente as que rompem, de maneira extrema, os rótulos atribuídos a elas. 

Elize foi abandonada pelo pai ainda muito nova e a figura paterna que veio a seguir, o padrasto, a abusou sexualmente durante a infância e a adolescência. Diante do abuso, não foi acolhida pela mãe, que a via como obstáculo ao casamento. O afeto e o acolhimento aparecem concentrados na figura da tia, principal referência de cuidado. As duas obras desenham uma trajetória marcada por relações familiares disfuncionais, ausência de proteção, insegurança financeira e uma rede de apoio extremamente frágil. Esse contexto ajuda a compreender por que Elize se tornou a parceira ideal para um homem que, como retratado nas obras, reproduzia um ciclo de abusos.

O filme apresenta Marcos como um príncipe que a resgataria. O love bombing — manipulação por demonstrações intensas de afeto e generosidade — manifestou-se em presentes extravagantes, como um carro de luxo, e na promessa de uma vida diferente. Vieram o casamento de princesa, a casa, a estabilidade financeira e o projeto de formar uma família. Mas também as sucessivas tentativas de engravidar, acompanhadas de tratamentos hormonais que cobriam seu rosto de espinhas, alteravam seu corpo e corroíam sua autoestima. Era o preço cobrado pela família Matsunaga.

Com o nascimento da filha, a narrativa da “mulher louca” ganhou contornos mais fortes. Junto ao puerpério e ao crescimento da criança seguiram-se as ausências crescentes do marido. Marcos passou a deixar a esposa de lado, saindo com outras mulheres, o que reforçou o abandono, o isolamento e o desamparo dela.

A passagem de garota de programa a esposa e mãe consolidou uma relação em que Marcos deixava de ser apenas cliente para exercer poder irrestrito sobre sua vida. Não bastava retirá-la da prostituição e obter lugar de cliente exclusivo, era preciso, também, apagar aquilo que fazia dela uma mulher desejada por outros: sua autonomia, poder erótico e energia vital. 

O discurso do salvador aparecia constantemente como forma de dominação. Segundo o documentário e o filme, Marcos a humilhava chamando-a de “puta” e reforçava a ideia de que ela lhe devia gratidão eterna por tê-la “tirado daquela vida”. A dívida nunca poderia ser quitada, porque era justamente ela que sustentava a hierarquia entre os dois. 

Elize percebeu que o homem com quem se casou desejava uma família menos como espaço de afeto mútuo e mais como instrumento de poder. Havia a esposa confinada ao espaço doméstico, dedicada à maternidade e dependente do marido, enquanto outra mulher ocupava os badalados restaurantes, as viagens, as aventuras na selva e a promessa de, um dia, assumir o lugar da oficial. Elize reconheceu esse roteiro porque já havia ocupado o papel de amante. Era um ciclo que já havia se repetido com a ex-esposa, transformada na “louca” da história, e que, ao que tudo indica, se repetiria com ela. 

Agora, era sua vez de ser apresentada como a mulher descontrolada, ciumenta e ingrata, que exigia demais de quem lhe proporcionava conforto material. Foi quando Elize viu sua sanidade ser questionada, correndo o risco de perder a guarda da filha e de enfrentar a violência patrimonial. Assim era o poder exercido pelo homem retratado nas obras: substituir mulheres, desqualificá-las e, quando deixavam de servir, transformá-las nas desequilibradas da história. Guardadas as especificidades, é semelhante ao vivido por muitas mulheres que perdem seus filhos por meio do instrumento da alienação parental, tema que abordamos na reportagem “A construção da louca”. 

Era diante desse cenário que Elize estava: um não‑lugar em que o papel de louca parecia caber. Embora o filme, por sua narrativa ficcional, por vezes apresente Elize em tom de ingenuidade e romantização, fica evidente que ela é feita de complexidades.

O documentário é complementar neste sentido ao mostrar versões sobre como ela é capaz de transitar da sensibilidade à frieza, da vulnerabilidade à violência, num movimento constante entre a louca, a santa e a puta. 

Por meio das obras, é possível refletir, no entanto, que o lugar da santa, da esposa troféu, é distante, quase impossível de habitar, principalmente porque, aos olhos da família e dos amigos do marido, ela parecia não pertencer àquele mundo. Restam-lhe, então, as figuras da puta e da louca, aqueles historicamente atribuídos às mulheres que ousam desafiar as expectativas.

A força de obras como essas está justamente em provocar reflexões que ultrapassam os binarismos entre bem e mal, vítima e algoz, mocinha e vilã. Elize não cabe em nenhuma dessas categorias de forma absoluta. Sua história exige um olhar capaz de sustentar contradições, sem que isso signifique justificar o crime ou apagar a brutalidade que o marcou.

Talvez a maior contribuição seja suscitar esse debate num momento em que dispomos de outras lentes para interpretar as relações de gênero. Sob perspectiva feminista, é possível ver Elize não apenas como autora de um homicídio, mas como mulher cuja trajetória foi moldada por papéis de gênero convenientes à ordem patriarcal. Papéis que, hoje, revelam como a louca, a santa e a puta são mecanismos de controle que organizam a forma como a sociedade julga, absolve ou condena mulheres.

No fim, talvez a maior loucura seja a naturalização da violência que atravessava aquela casa: um quarto cheio de armas, relações marcadas pelo controle e uma criança vivendo nesse ambiente. A história de Elize Matsunaga ajuda a enxergar que a louca não nasce pronta, ela também pode ser produzida. Não porque toda mulher submetida a abuso vá reagir da mesma forma, nem porque isso explique ou justifique um assassinato. Mas porque mostra como a desqualificação sistemática, o gaslighting, a humilhação, a ameaça de perder os filhos, a dependência econômica e a violência psicológica empurram uma mulher para um lugar em que qualquer reação confirma o diagnóstico imposto desde o início: o de louca.

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  • Paula Guimarães

    Jornalista e co-fundadora do Portal Catarinas. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pós-graduada...

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