“As mulheres não sabem votar.” A afirmação do nostálgico da ditadura Paulo Figueiredo, diante das denúncias feitas por Michelle Bolsonaro, não é um detalhe do bolsonarismo. Faz parte, na verdade, do seu DNA. E aí reside um dos maiores paradoxos do movimento: depender do voto das mulheres enquanto as menospreza publicamente.

Se nem mesmo a esposa do ex-presidente da República está imune à violência política machista e misógina praticada por setores do próprio bolsonarismo, o que dizer das demais?

A mulher que percorreu o país em busca do voto feminino, presidiu o PL Mulher e foi uma das principais fiadoras da aproximação do bolsonarismo com o eleitorado feminino também acabou atingida pelo gabinete do ódio que ajudou a legitimar. 

Os ataques ganharam força no contexto da disputa interna entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro pela condução do futuro político da família e pela definição da candidatura presidencial de 2026, mobilizando inclusive seus enteados e aliados em uma ofensiva pública contra a ex-primeira-dama.

O episódio também coloca em xeque um dos pilares do discurso conservador: a suposta defesa da família. Quando o poder entra em disputa, nem a família escapa publicamente. Trata-se, mais uma vez, de violência política de gênero, uma realidade sistematicamente negada pelo antifeminismo, mas que não deixa de existir por isso. 

Michelle cresceu politicamente, mas sua trajetória sempre esteve condicionada às decisões dos homens. Quando deixou de cumprir esse roteiro e entrou em rota de colisão com eles, tornou-se alvo dos mesmos métodos que ajudou a sustentar. Ao assumir publicamente o cabo de guerra, perdeu, ao menos por enquanto. No bolsonarismo, a coerência exige que a mulher conheça o seu lugar: o definido pelo marido, pelos filhos do marido ou pelo presidente do partido.

Ao deixar a presidência do PL Mulher para dedicar-se ao marido, Michelle retornou ao papel que o conservadorismo tradicionalmente reserva às mulheres. Mas ela não está desavisada. Conhece a hostilidade do bolsonarismo em relação às mulheres e, ao mesmo tempo, ajudou a construir a estratégia que mobiliza suas imagens para conquistar o eleitorado feminino. Seu papel foi exercer influência sobre outras mulheres, legitimando um projeto político que preserva hierarquias de gênero.

Não se trata de uma contradição isolada. A pesquisadora francesa Léane Alestra, autora de Les Vigilantes (As vigilantes), de 2025, argumenta que a extrema direita contemporânea não oferece emancipação às mulheres, mas um pacto de respeitabilidade. Nesse projeto político, elas podem ocupar espaços de liderança desde que personifiquem valores como maternidade, moralidade e defesa da família, sem desafiar a ordem patriarcal.

Para explicar essa dinâmica, Alestra propõe o conceito de “contrato de vigilância”, que não se restringe às mulheres da direita, mas atravessa a experiência de todas as mulheres. Trata-se de uma dupla vigilância: sobre si mesmas, para se conformarem aos padrões de respeitabilidade feminina, e sobre outras mulheres, reproduzindo essas mesmas normas.

A extrema direita radicaliza esse contrato ao transformar mulheres em guardiãs da ordem moral e da família. O pertencimento, porém, é sempre condicionado à obediência e pode ser revogado quando elas desafiam a autoridade masculina.

Como não propõe alterar as estruturas que produzem a desigualdade de gênero, a extrema direita tampouco oferece emancipação ou melhorias materiais às mulheres. Em vez disso, canaliza a violência contra pessoas que são alvos do racismo, a população LGBTQIA+ e feministas, preservando intacta a hierarquia patriarcal.

Essa dinâmica também ajuda a explicar um dos principais argumentos do livro Feminismo em disputa (2022), organizado por Esther Solano, Beatriz Della Costa e Camila Rocha. De acordo com Solano, a luta antifeminista encampada por mulheres é particularmente perigosa porque mobiliza a legitimidade da condição feminina para deslegitimar o feminismo e enfraquecer a defesa dos direitos das próprias mulheres. O peso simbólico desse movimento é maior porque a desconstrução não parte de um homem falando de seus privilégios, mas de uma mulher que reivindica falar em nome de outras mulheres.

A pesquisa mostra que o problema não é, necessariamente, a rejeição das mulheres conservadoras aos direitos das mulheres. Embora apenas 29% das entrevistadas se declarassem feministas e 34% se assumissem não feministas, o estudo conclui que cerca de 65% das mulheres se consideram feministas ou não rejeitam essa classificação. As entrevistas qualitativas revelam que muitas defendem pautas historicamente associadas ao feminismo — como o enfrentamento da violência, a autonomia e a igualdade de oportunidades —, mas recusam a identidade feminista em razão do imaginário negativo construído em torno do movimento. 

O conflito, portanto, não está apenas nas agendas de direitos, mas na disputa pelo significado do feminismo e pelos limites da participação feminina no poder. É justamente nesse terreno que o bolsonarismo constrói sua estratégia: precisa do voto das mulheres, mas reafirma uma ordem política em que seu protagonismo permanece condicionado à autorização masculina.

A trajetória de Michelle Bolsonaro evidencia esse mecanismo. Sua ascensão foi estimulada enquanto fortalecia o projeto político do grupo. Sua autonomia, porém, encontrou rapidamente as barreiras impostas por uma estrutura que continua reservando aos homens a palavra final sobre o poder.

A representante do PL não foi a única a experimentar esse mecanismo. A senadora Damares Alves também denunciou uma escalada de ataques misóginos e ameaças dirigidas a ela e à sua filha, após manifestar apoio público à então presidenta do PL Mulher em meio às disputas internas do bolsonarismo. Entre as intimidações, circularam montagens simulando a decapitação e o empalamento de sua filha. O episódio revela que a violência política de gênero também atinge mulheres conservadoras quando deixam de se alinhar às disputas de poder conduzidas pelos homens do próprio grupo.

Outras antifeministas também acabaram diante do espelho. Ana Campagnolo e Caroline De Toni viveram essa inversão quando a articulação para lançar Carlos Bolsonaro ao Senado por Santa Catarina colocou em risco a candidatura de De Toni, até então considerada o nome natural do PL no estado. A reação partiu das próprias mulheres do partido, que se mobilizaram em defesa de sua candidatura. O episódio revelou que, mesmo para mulheres que dedicaram suas trajetórias à defesa desse projeto político, o protagonismo feminino encontra limites quando passa a disputar espaços historicamente reservados aos homens.

A escritora Andrea Dworkin oferece outra chave para compreender esse fenômeno. Em Right-Wing Women (1983, tradução livre: “Mulheres de direita”), argumenta que muitas mulheres conservadoras não desconhecem o machismo nem a violência masculina. Ao contrário: conhecem seus riscos e, justamente por isso, optam por se alinhar ao poder patriarcal. Diante de uma estrutura percebida como permanente e difícil de derrubar, a promessa de proteção parece mais segura do que o enfrentamento dessa ordem. Não se trata de emancipação, mas de um pacto em que a segurança é trocada pela manutenção da hierarquia de gênero.

Esse pacto ajuda a explicar por que mulheres podem atuar como protagonistas de projetos que restringem a autonomia de outras mulheres sem deixar de ser, elas próprias, vulneráveis a essa mesma estrutura.

Como em O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), o patriarcado recompensa mulheres que ajudam a construir sua própria estrutura de poder, mas as pune quando elas ultrapassam os limites que lhes foram impostos. Serena Joy, uma das formuladoras intelectuais da teocracia de Gilead, torna-se vítima do mesmo regime que ajudou a erguer. Ao ler um trecho da Bíblia em voz alta para reivindicar mais direitos às mulheres, tem um dedo amputado por ordem do próprio marido, o comandante Fred Waterford.

A cena sintetiza o paradoxo: enquanto serviu para legitimar o regime, Serena foi valorizada; quando reivindicou um mínimo de autonomia, foi castigada. Sua mutilação simboliza o limite imposto à participação feminina em projetos autoritários: mulheres podem exercer influência, mas não desafiar o poder masculino que as autoriza.

É justamente por isso que a defesa da participação política das mulheres não pode se limitar à ocupação de cadeiras por corpos femininos. Votar em mulheres continua sendo fundamental, inclusive porque muitas que não se identificam como feministas compartilham pautas de igualdade e enfrentamento à violência. Mas há uma diferença entre não reivindicar a identidade feminista e instrumentalizar o lugar de mulher para combater o próprio feminismo.

Quando mulheres utilizam sua legitimidade política para desqualificar direitos conquistados e reforçar estruturas que restringem a autonomia de outras mulheres, deixam de ampliar a representação feminina e passam a fortalecer as mesmas hierarquias que historicamente excluíram as mulheres do poder.

Da Serena Joy de O Conto da Aia a Michelle Bolsonaro, passando por Damares Alves, Ana Campagnolo e Caroline De Toni, a lição parece a mesma: regimes conservadores recompensam mulheres que ajudam a sustentar sua ordem, mas raramente aceitam que elas a disputem. Talvez por isso a frase “as mulheres não sabem votar” seja tão reveladora. 

O problema nunca foi a capacidade das mulheres de votar, mas a recusa em aceitar que elas decidam por si mesmas. As mulheres podem votar, mobilizar eleitoras, ocupar cargos, pedir votos e até ajudar a construir um projeto de poder. O que não podem é definir seus rumos quando essa decisão confronta a autoridade masculina. 

Quando isso acontece, bebem do próprio veneno. Descobrem que a misoginia que relativizaram, justificaram ou instrumentalizaram não faz exceções quando o poder masculino se sente ameaçado. Essa experiência, no entanto, não as transforma automaticamente em vítimas políticas nem apaga o papel que desempenharam no enfraquecimento dos direitos das mulheres. O desafio do feminismo não é negar a violência que elas sofrem, mas compreender que ela decorre da mesma estrutura patriarcal que escolheram ajudar a preservar.

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  • Paula Guimarães

    Jornalista e co-fundadora do Portal Catarinas. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pós-graduada...

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