Estamos entrando no ciclo eleitoral de 2026 discutindo democracia, representação e futuro. Em breve, escolheremos nossos candidatos (assim mesmo, no masculino plural), mas antes de decidirmos quem ocupará os espaços de poder, existe uma pergunta anterior e mais incômoda: quem realmente ocupa esses espaços hoje?

As mulheres são maioria da população brasileira. São maioria nas universidades, no cuidado cotidiano da vida, nas filas dos serviços públicos, na sustentação silenciosa das famílias e comunidades. No entanto, desaparecem progressivamente à medida que subimos os degraus do poder institucional.

No Supremo Tribunal Federal (STF), há apenas uma mulher entre onze integrantes. No Congresso Nacional, as mulheres continuam sendo minoria expressiva. Tivemos apenas uma mulher presidenta da República em toda a história brasileira, experiência marcada, não raras vezes, por hostilidades que ultrapassavam a divergência política e atingiam diretamente sua condição de mulher. Isso não é coincidência. É estrutura.

E estruturas importam. Porque elas moldam quem fala, quem decide, quais problemas são considerados prioritários e quais experiências são reconhecidas como dignas de atenção pública.

Infelizmente, no próprio processo eleitoral as mulheres já partem em desvantagem. Por isso, é fundamental pensar em políticas voltadas à sua participação política. E é importante esclarecer desde logo que não estamos pedindo que se ajude mulheres a chegar ao poder. Trata-se de algo muito maior: proteger a própria democracia.

Uma democracia sem mulheres nos espaços de decisão não é apenas menos diversa. É uma democracia empobrecida.

Quando mulheres não ocupam os lugares onde decisões são tomadas, não perdemos apenas representatividade numérica. Perdemos experiências, perguntas, prioridades e perspectivas fundamentais para a construção das políticas públicas e das instituições.

A ausência feminina nos espaços de poder impacta diretamente a forma como o Estado trata temas como violência, cuidado, trabalho, orçamento público, mobilidade, segurança, direitos reprodutivos, proteção social e desigualdade. Não existe neutralidade possível em estruturas historicamente construídas sem a presença plural da sociedade.

Os obstáculos para essa participação são muitos. O primeiro deles está nas próprias estruturas de poder, historicamente pensadas por homens e para homens, em um processo de naturalização do poder masculino. Homens ainda são percebidos como ocupantes “naturais” da política, da magistratura e dos espaços de decisão. Mulheres, frequentemente, seguem tratadas como exceção.

Aquelas que conseguem furar essa barreira pagam um preço desigual pelo exercício do poder. Mulheres em posições de liderança continuam sendo julgadas não apenas por suas decisões, mas também por sua aparência, voz, maternidade, firmeza ou comportamento. A liderança masculina costuma ser lida como autoridade; a feminina, muitas vezes, como inadequação ou ameaça.

Não partimos do mesmo lugar. Não competimos sob as mesmas condições. Ignorar isso é apenas transformar desigualdade estrutural em aparência de justiça.

Um dos elementos centrais que sustentam essa desigualdade é a divisão sexual do poder. Durante séculos, os homens foram associados ao espaço público e à autoridade, enquanto as mulheres foram associadas ao cuidado e à sustentação da vida privada. 

O problema é que o cuidado continua sendo tratado como uma obrigação natural feminina, e não como responsabilidade coletiva ou valor democrático. Mas alguém só consegue ocupar plenamente o espaço público porque existe uma rede invisível sustentando a vida cotidiana. E essa rede, historicamente, tem gênero. Por isso tantas mulheres chegam aos espaços de liderança exaustas, culpabilizadas ou obrigadas a escolher entre existência pública e cuidado privado.

Em meio a tantos impedimentos, emerge um obstáculo particularmente perverso: a violência. A violência política de gênero não é um excesso pontual do debate público. Ela se tornou um mecanismo de exclusão. Mulheres que ocupam espaços de poder frequentemente enfrentam ataques pessoais, campanhas de deslegitimação, intimidação, violência simbólica e perseguição nas redes sociais. E o efeito dessa violência não atinge apenas quem está no cargo. Ela envia uma mensagem coletiva às próximas mulheres: “esse lugar não foi feito para vocês”.

Por isso, em ano eleitoral, essa discussão se torna ainda mais urgente. Democracia também é o direito de existir plenamente nos lugares onde o futuro é decidido. A sub-representação feminina não é um problema “das mulheres”. É um problema democrático. Enfrentar essa realidade exige compreender que igualdade de gênero não é uma pauta acessória, secundária ou identitária. É um compromisso constitucional.

Sem mulheres no poder, a democracia brasileira continuará incompleta e jamais conseguirá responder integralmente aos desafios do nosso tempo.

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  • Melina-Fachin

    Advogada, pós-doutora em democracia e direitos humanos no Centro para os Direitos Humanos e a Democracia da Universidad...

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