A heterossexualidade compulsória é um fenômeno que a filósofa e poetisa Adrienne Rich denominou, nos anos 1980. Trata-se de um sistema social e cultural que, desde a infância, orienta desejos, brincadeiras, relacionamentos e até projetos de vida em relação a compreensão dos papéis de gênero, silenciando outras formas de afeto. 

Na prática, essa pressão invisível faz com que muitas mulheres, por exemplo, interpretem sua falta de interesse por homens como timidez ou uma “fase”, e não como uma orientação sexual legítima. Para Camila Marins, hoje com 42 anos, esse foi um fator que adiou a descoberta da sua própria sexualidade por muito tempo. 

“A minha primeira relação com mulher foi por volta dos 25 anos, infelizmente! Nunca namorei homens e achava que tinha algo errado comigo. Mas o que estava errado era a sociedade, que impunha a heterossexualidade como padrão e modelo a ser seguido, e isso é devastador para a vida de tantas de nós. Me afirmar sapatão foi transformador e libertador!”, recorda.

Jornalista e mestre em políticas públicas em direitos humanos, Camila transformou a própria trajetória e o desejo de conectar outras mulheres lésbicas em um projeto coletivo: a Revista Brejeiras. Fruto de um movimento cooperativo, a iniciativa busca ampliar os espaços de fala dessa população, colocando as lésbicas no centro do debate.

Camila Marins. Crédito: arquivo pessoal.

A publicação aborda temas como economia, política, gastronomia, paquera, astrologia, cultura e lazer. Para além do entretenimento, tornou-se um movimento social que reivindica políticas públicas e direitos, promovendo e fortalecendo uma rede de solidariedade entre lésbicas. 

A construção dessas redes de pertencimento aparece, de diferentes formas, nas trajetórias das mulheres entrevistadas para esta matéria. Seja no ativismo, na produção de conteúdo ou nas relações familiares, elas compartilham o desejo de viver seus afetos com total liberdade. 

Sexualidade e família

O mesmo dente que Camila Carvajal tratou aos 16 anos, em sua primeira sessão de canal, quebrou agora, aos 44. E essa quebra a fez viajar no tempo de volta à adolescência no interior do Rio de Janeiro. Aos 16, ela tinha um jeito “moleca” e usava um bermudão largo quando virou assunto no bairro. Em um consultório odontológico, durante sua primeira sessão de canal, imobilizada na cadeira e com a boca escancarada, ouviu a pergunta seca: “Então quer dizer que você virou sapatão?”. Paralisada, nem conseguiu responder.

Mesmo em  uma família formada por  mulheres que desfiaram convenções sociais, sua mãe e avó enfrentaram julgamentos por serem divorciadas, ser lésbica era um tabu que ultrapassava esses limites. 

“Percebi que minha família só me aceitava se eu ficasse dentro do armário. Curiosamente, minha avó não me apoiou exatamente, mas foi a mulher que me disse: ‘Minha filha, se está te fazendo feliz, sua avó está contigo’. Ainda era quem me botava no colo. Mas minha mãe e minha tia foram mais rígidas, não aceitavam”, relata.

Camila Carvajal. Crédito: arquivo pessoal.

Atual coordenadora financeira da Secretaria de Cultura do Estado do Rio Grande do Norte, a contadora afirma que, apesar de viver em um contexto matriarcal, sua família apresentava nuances muito machistas.

O processo de se descobrir lésbica não foi imediato. Até pouco tempo antes do fatídico dia do consultório, Camila namorava meninos, inclusive aqueles considerados os mais “disputados” pelas garotas da escola.

“Era um ‘playboy’ do Rio de Janeiro que ia me buscar no colégio, na cidade do interior, no carro importado. Me dava presentes caros, o sonho das meninas. Eu namorava e o menino adorava, porque eu via futebol com ele. Aí me descobri apaixonada pela minha melhor amiga, e isso mudou minha vida”, relembra.

A “saída do armário” resultou  em alguns rompimentos nas relações familiares, mas também lhe trouxe a liberdade de viver a própria sexualidade. 

“Onde eu estiver, eu quero ser quem eu sou”, afirma.

“Muito feminina para ser sapatão?”

O termo que Camila ouviu no consultório na pergunta invasiva carrega uma longa história de estigma e ressignificação. A palavra “sapatão” surgiu como uma gíria pejorativa e lesbofóbica, associada ao uso de sapatos masculinos por mulheres, especialmente a partir da década de 1920, e foi amplamente difundido pela marchinha de carnaval “Maria Sapatão”. Embora sua origem esteja enraizada no preconceito, ela  foi ressignificada pela comunidade lésbica ao longo do tempo, sendo hoje utilizada como uma identidade política de afirmação e resistência.

Apesar disso, a mudança não eliminou os estereótipos associados às mulheres que se relacionam com outras mulheres. Ideias sobre aparência, comportamento e feminilidade ainda influenciam a forma como elas são percebidas e, muitas vezes, como têm suas identidades questionadas. Como já aconteceu com a advogada Rosa Oliveira, de 58 anos.

Desde a adolescência, ela já percebia que sua maior afinidade era com mulheres. Mas, como ela mesma conta, não frequentava a cena LGBTQIAPN+, nem se identificava com os estereótipos associados a ela. Foi na faculdade que tudo se concretizou: apaixonou-se por uma colega, iniciou sua vida sexual com liberdade, namorou meninas e meninos e se descobriu bissexual.

No início dos anos 1990, ela começou a atuar no movimento LGBTQIAPN+ e fundou, em Porto Alegre (RS), o grupo Nuances – Pela Livre Expressão Sexual. A ONG atua na promoção da cidadania e no debate de questões que envolvem travestis, bissexuais, transexuais, lésbicas e gays. A militância também marcou sua vida afetiva, pois foi nesse ambiente de luta que Rosa conheceu sua atual esposa, Gisele, em 1994.

“Muitas vezes ouvi de amigas que sou ‘muito feminina’. E já fui discriminada por colegas do movimento que não aceitavam minha bissexualidade como legítima para atuar nele, especialmente no início, quando a fluidez de gênero ainda não era discutida nem vivenciada abertamente. Enfim, quando dizem que sou muito feminina, quase completo a frase: ‘muito feminina para ser sapatão?’”, ironiza.

Rosa observa que seu relacionamento com Gisele frequentemente frustra expectativas heteronormativas. Embora a advogada expresse mais feminilidade e sua parceira se encaixe esteticamente no estereótipo “sapatão”, as duas vivem uma dinâmica própria, na qual tarefas domésticas e decisões financeiras não seguem divisões baseadas na performatividade de gênero. 

Rosa e Gisele. Crédito: arquivo pessoal.

Para Rosa, essa organização representa uma conquista do casal na forma de se comunicar, buscar harmonia e felicidade, sem se prender a modelos heteronormativos ou a rótulos que tentam enquadrar sua relação em padrões pré-estabelecidos.

“Agora você tem que decidir”

O  processo de conhecer a própria sexualidade é fluido e pode ser atravessado por outras vivências, como a maternidade e não-monogamia. Como é  o caso da humorista e criadora de conteúdo, Aline Negríndia, de 42 anos. Ela se descobriu bissexual aos 12 anos e passou a se identificar como  não-monogamica na vida adulta.

“Aos 30, entendi que eu era não-monogâmica. Logo depois engravidei e minha mãe falava coisas do tipo: ‘Agora você tem que decidir se namora só com homens ou com mulheres, porque vai ser confuso pra minha neta saber que a mãe  tem o pai dela e uma namorada’. Mas eu sempre lidei bem com isso”, garante. 

Aline Negríndia. Crédito: arquivo pessoal.

A não-monogamia, termo que se refere a modelos de relacionamento nos quais  as pessoas têm liberdade de estabelecer vínculos afetivos e/ou sexuais com mais de uma pessoa de forma consensual, inclui práticas como poliamor, relacionamento aberto, anarquia relacional e swinging. Não é uma prática homogênea e cada relação define seus próprios limites.

Nos vídeos que produz para as redes sociais, Aline também aborda a relação com a irmã, que é evangélica. As diferenças religiosas e sexuais entre as duas frequentemente aparecem em seu conteúdo, que utiliza o humor para abordar a convivência dentro da própria família. 

Envelhecimento seguro como um sonho coletivo

Para essas mulheres, a passagem do tempo reconfigurou prioridades, expôs lacunas na cultura e na mídia, e acendeu alertas sobre o futuro. 

“Quantas avós sapatonas vemos em novelas e séries? Ou sapatonas que estão na menopausa? Ou lésbicas sendo entrevistadas em matérias do dia a dia sobre economia, política, cultura etc.?”, questiona Camila Marins.

A edição mais recente da Revista Brejeiras, “Gatas/Sapas Extraordinárias 50+”, trata justamente do envelhecimento dessa população.

Mulheres lésbicas e bissexuais 40+ desafiam estigmas e projetam futuro em comunidade 
Edição “Gatas/Sapas Extraordinárias 50”. Crédito: Revista Brejeiras/ Divulgação

Ela argumenta que a representação na mídia é fundamental para criar outros imaginários que desestabilizem e destruam a heterossexualidade compulsória: “Eu sou uma sapatona dos anos 1980, criada num imaginário de família ‘margarina’ e com a Revista Capricho trazendo homens na capa, e isso é muito violento”, desabafa.

A jornalista reivindica ainda a destinação orçamentária para a mídia popular e comunitária sapatão e cita o projeto de lei nº 6216/2025, que institui o Programa Cassandra Rios de Apoio e Fomento à Produção Literária e de Comunicação Popular e Comunitária Lésbica do Estado do Rio de Janeiro. A proposta foi apresentada pelas deputadas estaduais Dani Balbi (PCdoB) e Verônica Lima (PT) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

“Há muita vida e tesão pulsando. E, para enfrentarmos o medo da solidão, é essencial uma Política Nacional de Cuidados que considere a comunidade sapatão e questione os formatos da chamada família”, completa. 

Perguntada sobre expectativas e planos para o envelhecimento, Rosa Oliveira tem um sonho coletivo.

“Quando penso no meu futuro a médio e longo prazo, sonho em dividir com amigas uma moradia, ou um espaço com várias moradias, onde tenhamos serviços de saúde e cuidados disponíveis”, revela.

A advogada carrega a certeza de que, para um bom envelhecimento, é necessário continuar buscando autonomia, mas sem se isolar.

Camila Carvajal, por sua vez, é direta sobre seu horizonte:

“Minha certeza para esse envelhecimento é que eu quero envelhecer bem. Pretendo ter bons amigos, boas pessoas, e só”.

Ela admite o medo do futuro, mas assim como as outras, visualiza nas conexões a esperança de bons futuros anos.

“Dá medo, né? Porque não é fácil ser uma mulher lésbica sozinha. E pensar em envelhecer hoje… Eu percebo que talvez seja mesmo com amigos. Faz alguns anos que a gente fala em envelhecer em comunidade, comprar um grande terreno, todo mundo. E é isso mesmo que eu estou querendo”, finaliza.

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  • ariele-lima

    Natural de Juazeiro, sertão baiano. Estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), c...

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