Da luta pela redemocratização às mobilizações feministas contemporâneas, mulheres com mais de 60 anos escreveram a história do Brasil e seguem ocupando as ruas, os movimentos sociais e os espaços de construção política nacionais. Em um país onde o etarismo se soma à misoginia para invisibilizar suas trajetórias, elas reivindicam reconhecimento não apenas pelo legado que ajudaram a construir, mas também pelo protagonismo que continuam exercendo nas disputas por direitos e justiça social.

Hoje, a expectativa de vida da população brasileira é de 76,6 anos, quase duas décadas a mais do que em 1970, por exemplo, quando era de 57,6 anos. O país já tem mais pessoas idosas do que crianças de até 14 anos, mas o envelhecimento acontece de forma desigual. É o caso de mulheres trans, cuja expectativa de vida é de apenas 35 anos.

Entre as pessoas de 60 a 74 anos, 50,3% afirmaram ser brancas; 38,6%, pardas; 10,2%, pretas; 0,3%, indígenas e 0,7%, amarelas. Já entre aquelas de 75 anos ou mais, 55,6% são brancas; 33,8%, pardas; 9,1%, pretas; 0,4%, indígenas; e 1,1% amarelas. Os dados são do Censo Demográfico de 2022.

Para Soeli Catarina de Carvalho, 65 anos, o etarismo ignora a experiência acumulada e a capacidade de contribuição das mulheres idosas.

“Temos muito a contribuir, têm uma história que deve ser honrada e reconhecida. E ainda têm muita força e muita caminhada, até porque a expectativa de vida das pessoas está muito maior agora. A gente tem muito o que contribuir para o nosso país, para a nossa sociedade, para nossas comunidades”, afirma.

Soeli Catarina de Carvalho no Festival Mulheres em Lutas – MEL 2026 | Crédito: Daniela Valenga/Portal Catarinas.

A mesma percepção é compartilhada por Magaly Goes, 64 anos. Ela destaca que envelhecer não significa deixar de ocupar espaços políticos e coletivos.

“Nós estamos vivas, nós temos capacidade de lutas, nós temos histórias e essas histórias têm que ser respeitadas. Principalmente, a gente ainda tem muita força, muito querer, muitas possibilidades de ajudar e de ser parte da construção de um outro projeto de sociedade, de um outro projeto de mundo, de um outro bem viver”, ressalta.

Magaly Goes no Festival Mulheres em Lutas – MEL 2026 | Crédito: Daniela Valenga/Portal Catarinas.

As trajetórias das mulheres 60+ atravessam as principais mobilizações sociais das últimas décadas e revelam como a experiência acumulada continua impulsionando a defesa de direitos, a organização coletiva e a construção de futuros mais justos. Essas vivências se cruzaram durante a segunda edição do Festival Nacional MEL – Mulheres em Lutas, entre os dias 29 e 31 de maio em São Paulo (SP).

Das Diretas já ao Levante Mulheres Vivas: uma vida em lutas

Para muitas mulheres que hoje têm mais de 60 anos, a participação política atravessa décadas da história brasileira. Elas estiveram nas mobilizações pela redemocratização, nos movimentos sindicais, nas lutas por moradia, pela igualdade racial e pelos direitos das mulheres. Em comum, carregam a experiência de quem ajudou a construir conquistas sociais e segue mobilizada diante dos retrocessos e desafios do presente.

Aos 72 anos, Elisete dos Santos Sousa afirma que a luta faz parte de sua trajetória desde a infância. Filha de um político perseguido pela Ditadura Militar, ela lembra de ter visto policiais entrarem em sua casa quando tinha apenas 12 anos. Moradora de Rio Grande da Serra (SP), participa há cinco décadas do movimento negro e de organizações sindicais.

“Em todo movimento eu estive e estou dentro: das Diretas Já, do movimento dos professores, dos atos contra Bolsonaro”, cita.

Elisete dos Santos Sousa no Festival Mulheres em Lutas – MEL 2026 | Crédito: Daniela Valenga/Portal Catarinas.

A amiga e companheira de militância Maria Aparecida Guilherme, 69 anos, também acumula cerca de 50 anos de atuação política. Para ela, acompanhar o aumento das violências contra as mulheres gera indignação, mas também reforça a necessidade de seguir mobilizada. “Tem que continuar na luta”, resume.

Maria Aparecida Guilherme no Festival Mulheres em Lutas – MEL 2026 | Crédito: Daniela Valenga/Portal Catarinas.

Raquel Rodrigues, 61 anos, descreve como amor à primeira vista o sentimento de quando participou de um comício do presidente Lula, com a presença do cantor Chico Buarque, no Estádio do Pacaembu, na zona central da cidade de São Paulo.

“Eu vi aquele monte de bandeira vermelha, adorei, e pensei que esse era meu lugar. Eu sou da periferia da Brasilândia e eu sempre vi uma diferença, porque ia trabalhar no centro e via muita disparidade com os bairros nobres. Eu luto pela igualdade”, descreve.

Raquel Rodrigues no Festival Mulheres em Lutas – MEL 2026 | Crédito: Daniela Valenga/Portal Catarinas.

A força do coletivo

Apesar das trajetórias diversas, muitas dessas mulheres apontam um elemento comum para explicar a permanência na luta: a força construída coletivamente. Famílias engajadas, amizades, movimentos sociais e organizações feministas aparecem como redes de apoio que sustentam décadas de militância.

Márcia Nova, 67 anos, participou das Diretas Já ainda na universidade. Desde então, seguiu envolvida em diferentes mobilizações populares.

“As Diretas foram um movimento muito marcante pra mim. Participar da Marcha das Margaridas em Brasília também foi super emocionante. Foi aí que eu me despertei para essa questão da mulher 60+, porque tinha muitas delas. E hoje participar do MEL também tem sido muito emocionante. Muito marcante, muito fortalecedor”, descreve.

Quando questionada sobre a origem da força para seguir lutando após tantos anos, ela responde que vem das pessoas que estão ao seu redor. “Em primeiro lugar, vem da minha mãe, uma mulher de 97 anos, uma guerreira, apesar de eu não gostar muito desse termo hoje em dia, ela é um exemplo para a minha vida. Também o meu pai, que era um servidor público, mas que sempre militou, sempre esteve do lado da esquerda, sempre me deu força. E depois da universidade e das amigas”, cita Márcia.

Márcia Nova no Festival Mulheres em Lutas – MEL 2026 | Crédito: Daniela Valenga/Portal Catarinas.

A trajetória de Soeli Catarina de Carvalho, que completou 65 anos em 13 de junho, também começou na organização comunitária. Ainda jovem, participou das mobilizações pelo acesso à água encanada em Nova Iguaçu (RJ) e, posteriormente, integrou o movimento de mulheres da região.

“Um dos momentos mais marcantes para mim foi a participação das mulheres na mobilização pela volta da democracia no país. Na Constituição de 1988, elas fizeram uma grande mobilização pelo Brasil todo para pautar aquilo que era de nosso interesse, dos direitos que a gente ainda não havia conquistado e garantimos muita coisa”, destaca.

Ela cita o Lobby do Batom, uma aliança suprapartidária que conquistou, na Constituinte de 1988, a igualdade jurídica entre homens e mulheres, a ampliação dos direitos civis, sociais e econômicos das mulheres, a igualdade de direitos e responsabilidades na família, a definição do princípio da não discriminação por sexo e raça-etnia, a proibição da discriminação da mulher no mercado de trabalho e o estabelecimento de direitos no campo da reprodução.

Para Soeli, a força para lutar também vêm do coletivo: “Das próprias mulheres, das que vieram antes de nós, que abriram o caminho para a gente, e para aquelas que estão na juventude e levam esse legado para frente”.

A arte se tornou uma ferramenta de mobilização para Rosimeire Macedo, 66 anos. Integrante de um grupo de mulheres 60+, ela participa de ações que utilizam a linguagem artística para promover conscientização e reflexão social.

“Hoje, a gente faz alguns movimentos e apresentações para conscientizar as pessoas através da arte”, relata. No MEL, a Roda de Mulheres Núcleo de Criação ZAP 18 apresentou a Cena-performance: “Você Precisa Saber”.

Rosimeire Macedo no Festival Mulheres em Lutas – MEL 2026 | Crédito: Daniela Valenga/Portal Catarinas.

O encontro com as lutas

Magaly Goes, 64 anos, começou a se envolver com os movimentos das mulheres entre 45 e 50 anos, ao integrar uma campanha política. Hoje participa da organização do 8M em Sergipe, além da Marcha das Margaridas. “Depois que meus filhos cresceram, eu passei a ter mais tempo. Depois que eu me separei, passei a ter mais liberdade e poder de decidir sobre o que eu quero fazer e o que eu acho que é importante para o mundo”, conta.

Em um contexto de fortalecimento de discursos conservadores que questionam a autonomia das mulheres, Magaly afirma que a liberdade conquistada é parte fundamental de sua trajetória.

“Ter a liberdade de dizer eu vou fazer porque é importante para mim, porque eu quero, porque eu posso e porque eu também banco financeiramente isso. Eu tenho a autonomia e a independência de decidir sobre minha vida, sobre o meu corpo e sobre meus caminhos, minhas trilhas, de marchar por onde eu acho que é importante marchar”.

Maria Orlene de Oliveira, 60 anos, foi convidada pela filha de 25 anos para participar do MEL 2026. Essa foi a primeira vez que participou de um movimento desse tipo.

“Eu participei da conversa das mulheres 60+, que tratou sobre muitas coisas que a gente vivencia. E está sendo muito bom estar num evento como esse, construído por mulheres. A gente acaba se sentindo importante nesse espaço. Está sendo muito gratificante, pretendo vir em outros”, garante.

Maria Orlene de Oliveira no Festival Mulheres em Lutas – MEL 2026 | Crédito: Daniela Valenga/Portal Catarinas.

Denise Coimbrã, também de 60 anos, começou a atuar em grupos de mulheres da periferia há cerca de duas décadas e atualmente integra um coletivo feminista. Para ela, a questão do etarismo precisa ser melhor debatida na sociedade brasileira. “É um preconceito que precisamos acabar logo”, ressalta.

Denise Coimbrã no Festival Mulheres em Lutas – MEL 2026 | Crédito: Daniela Valenga/Portal Catarinas.

O Brasil envelhece no feminino

Na segunda edição do Festival Mulheres em Lutas – MEL, a roda de conversa “Mulheres 60+: condição de vida e etarismo” reuniu reflexões sobre esses desafios e sobre as formas de resistência construídas coletivamente pelas mulheres mais velhas. Entre os temas discutidos estiveram a solidão, a sobrecarga do cuidado, a violência patrimonial e psicológica, além das dificuldades para acessar redes de proteção e reconhecimento social.

Segundo o Instituto Maria da Penha, mulheres idosas costumam enfrentar diferentes tipos de violência de acordo com o contexto social em que vivem. Em áreas mais privilegiadas, são mais frequentes os casos de violência psicológica e abuso patrimonial. Já nos territórios mais vulnerabilizados, predominam situações de negligência e abandono. Em comum, aparecem o isolamento e as relações de dependência emocional ou financeira.

“Quando estamos em um grupo como o Mel 60 +, a gente se dá a mão e descobre que às vezes é a companheira que está do nosso lado, que nos escuta, que ajuda, que cuida muito mais de nós, porque tem mais tempo, tem mais disponibilidade também nessa luta conjunta” colocou Delma Silveira Do Nascimento, psicanalista clínica.

Delma Silveira Do Nascimento | Crédito: Juliana Yamamoto.

Ao mesmo tempo em que reivindicam autonomia e participação política, as mulheres idosas também chamam atenção para a necessidade de políticas públicas voltadas ao cuidado, porque envelhecer com dignidade exige condições materiais, acesso à saúde, convivência comunitária e redes de apoio.

“Sabemos o que queremos, podemos transformar o país, podemos colaborar, mas precisamos de alguns cuidados, porque a fisiologia, a biologia prova que nós estamos com mais idade”, afirmou Delma.

A professora aposentada, feminista e ecossocialista Genilda Alves de Souza descreve o etarismo como uma experiência cotidiana de apagamento. Para ela, a discriminação muitas vezes se manifesta em situações aparentemente banais, mas reveladoras da forma como a sociedade trata os corpos envelhecidos.

“A pessoa literalmente não me vê, porque na cabeça dela eu nem devia estar mais existindo. E esbarra. Eu falo assim, ‘ei, aqui tem uma pessoa viva’. E aí o sujeito ou a sujeita olha para mim assim espantado, ‘vixe, tinha um corpo na minha frente que eu não vi’. Isso tem a ver particularmente com o envelhecimento”.

Genilda Alves de Souza | Crédito: Juliana Yamamoto.

“O Brasil envelhece no feminino, mas ainda cuida muito mal das suas mulheres idosas, com mais de 60 anos”, ressaltou a psicanalista. Entre as pessoas idosas no Brasil, 55% são mulheres, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Quem cuida de quem cuida?

A invisibilização das mulheres idosas contrasta com o papel central que elas desempenham em suas famílias e comunidades. Muitas seguem sustentando lares, cuidando de filhos, netos e outros familiares, mesmo após a aposentadoria. Historicamente, o trabalho do cuidado foi atribuído às mulheres e permanece sendo exercido de forma desproporcional por elas, frequentemente sem reconhecimento social ou remuneração adequada.

“Por que tantas mulheres passam a vida inteira cuidando de todos e, quando envelhecem, não se sentem cuidadas?”, questionou Delma.

Segundo ela, muitas mulheres chegam à velhice cercadas por vínculos afetivos, mas convivendo com a distância física de familiares ou com a sensação de que já não ocupam um lugar central nas relações de cuidado. O resultado é uma experiência marcada pela insegurança sobre quem estará presente quando elas próprias precisarem de apoio.

“Muitas mulheres aprenderam que amar é servir. Por isso, muitas não descansam, não colocam limites, não desfrutam da aposentadoria, não investem em prazer, sentem culpa ao pensar em si. Muitas dessas mulheres chegam aos 60 anos livres financeiramente, mas emocionalmente aprisionadas”, exemplificou Delma. 

Além das reivindicações por direitos e reconhecimento, as mulheres 60+ presentes no encontro apontaram a necessidade de construir novas formas de envelhecer, que incluam autonomia, prazer, participação política e convivência comunitária, rompendo com a ideia de que a velhice representa apenas dependência ou encerramento de ciclos.

As trajetórias reunidas ao longo desta reportagem mostram justamente o contrário. Das mobilizações pela redemocratização às lutas feministas contemporâneas, essas mulheres seguem produzindo mudanças, transmitindo experiências entre gerações e reivindicando espaço em uma sociedade que insiste em torná-las invisíveis. Como afirmam, não se trata apenas de reconhecer o passado que ajudaram a construir, mas de afirmar que continuam presentes, organizadas e em lutas.

Magaly Goes deixa um recado para as gerações mais novas: “Se não estão na luta, entrem. Se estão, permaneçam. Só a luta muda a vida e só juntas, juntos e juntes, podemos construir um outro mundo”.

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  • Daniela Valenga

    Jornalista dedicada à cobertura de gênero. Mestranda em Comunicação na UFPR. Atuou como Visitante Voluntária no Institut...

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