Em um momento de avanço do conservadorismo e aumento dos casos de violências contra as mulheres em diferentes países, o “Manifesto Internacional Mulheres contra o Fascismo” convoca a construção de uma ampla frente feminista internacional, suprapartidária, enraizada nos movimentos sociais e comprometida com a democracia, para enfrentar o fascismo em todas as suas formas.

Assine o manifesto.

O documento denuncia o agravamento da crise do capitalismo, associada a guerras, emergência climática, desigualdades e ataques a direitos. Nesse contexto, o fascismo contemporâneo se expressa por meio do racismo, da misoginia, da LGBTfobia, do fundamentalismo religioso e da articulação entre forças políticas autoritárias e grandes plataformas digitais, promovendo retrocessos democráticos e restrições aos direitos humanos.

Inspirado em um feminismo internacionalista, popular e antirracista, o manifesto convoca mulheres, trabalhadoras e movimentos sociais a fortalecer redes de solidariedade e resistência, com o objetivo de barrar o avanço do autoritarismo, defender a democracia e proteger direitos. O manifesto destaca a atuação das mulheres na linha de frente de mobilizações em diferentes países, citando movimentos como Marcha Mundial das Mulheres, Ele Não, Ni Una a Menos, Marcha das Mulheres Negras, Marcha das Mulheres Indígenas e protestos contra governos e reformas autoritárias em diversas partes do mundo.

A partir dessas experiências de resistência, o documento defende a construção de alianças feministas transnacionais para enfrentar o avanço do fascismo em diferentes territórios e reafirma que a participação das mulheres é condição fundamental para a democracia.

O manifesto foi lançado durante a segunda edição do Festival Nacional MEL – Mulheres em Lutas, que ocorreu entre 29 e 31 de maio em São Paulo (SP). Com o tema “Cuidar da Vida, Transformar o Mundo: Mulheres Contra o Colapso”, o festival reuniu mais de quatro mil mulheres ativistas, parlamentares, artistas e pesquisadoras.

Leia o manifesto:

Festival MEL – Mulheres em Luta – São Paulo, 31 de maio de 2026

Hoje, desde o chão vivo do Festival MEL – Mulheres em Lutas, em maio de 2026, erguemos uma voz coletiva que atravessa fronteiras, idiomas e territórios. Somos muitas. Somos diversas. E unidas, somos uma força histórica em movimento. 

Desde esse encontro sediado no Brasil, onde acabamos de viver o trimestre mais feminicida do século 21, nos levantamos!

Nos levantamos pois nas palavras do imperialismo norte americano as “brasileiras são programadas para criar confusão”. E assim, chamamos as mulheres de todo o mundo, trabalhadoras, de todos os povos explorados e oprimidos, de todas identidades de gênero, sexualidades e de todas as idades, a se reconhecerem como aquilo que verdadeiramente somos na prática: um cordão sanitário global contra o fascismo.

Estamos vivendo uma nova etapa da crise global do capitalismo. Depois da pandemia, em meio a guerras, do aprofundamento da emergência climática e da explosão das desigualdades, o sistema tenta reorganizar sua dominação através do autoritarismo, do militarismo, do racismo, da misoginia e da exploração extrema da vida e da natureza.

O fascismo não é apenas uma memória do passado. Ele se reorganiza no presente. Avança por meio de projetos autoritários explícitos, mas também se infiltra nas instituições democráticas, capturando o voto, manipulando o medo e promovendo políticas de ódio em aliança e articulação corporativa com os donos das big techs. 

O fascismo do nosso tempo alimenta-se do negacionismo científico, do racismo, da misoginia, da violência de gênero, da LGBTfobia, do fundamentalismo religioso, da destruição dos direitos sociais e do planeta. É o projeto do ódio, das guerras e da morte.

Cresce em uma ofensiva global contra os direitos sexuais e reprodutivos, contra a autonomia dos nossos corpos-território e contra as políticas de igualdade de gênero e sexualidade. Tenta impor um retrocesso civilizatório, buscando nos empurrar ao silêncio e à submissão. Questionam, agora, até o nosso direito ao voto. 

Mas nós não aceitaremos. Responderemos com organização, com solidariedade internacional e com luta!

No mundo todo mulheres têm sido linha de frente das resistências, demonstrando que a mobilização feminista é capaz de alterar os rumos da história.  Desde a “Women’s March”, “Ele Não”, “Non Una Meno”, quase uma década depois, em 2026, os protestos “No Kings” nos EUA mostram a resistência dos trabalhadores contra Trump. No Brasil, sob o mote da “Marcha das Mulheres Negras, por reparação e bem-viver”, “Marcha das Mulheres Indígenas” e “Levante Mulheres Vivas”, milhares denunciaram o aumento da violência contra mulher e os discursos misóginos.

Da resistência Palestina, de mães contra o genocídio de suas crianças e famílias. Da voz do Congo, onde mulheres seguem tendo seus corpos violados em meio aos conflitos. Em Cuba, onde a solidariedade internacional denuncia o bloqueio econômico. Da Argentina, onde a repressão atinge os protestos de rua contra reformas autoritárias. Nos ensinam: quando as mulheres e a classe trabalhadora se levantam, o fascismo recua.

Inspiradas por um feminismo internacionalista, popular, antirracista, e democrático, como afirmam os movimentos globais que articulam a luta contra as violências, as desigualdades e a exploração, declaramos:

Não aceitaremos que o medo governe nossas vidas.
Não aceitaremos que nossos corpos sejam territórios de controle.
Não aceitaremos que a democracia seja capturada para destruir direitos.

Assumimos, portanto, uma tarefa histórica:

Ser o muro que impede o avanço do autoritarismo.
Ser a rede que protege a vida.
Ser a força que reorganiza a esperança.

Convocamos a construção de uma ampla frente feminista internacional, suprapartidária, enraizada nos movimentos sociais, articulada aos encontros e redes históricas de cada região e comprometida com a democracia, para enfrentar o fascismo em todas as suas formas: nas ruas, nas redes, nas instituições e nos territórios.

Que cada país levante suas mulheres.
Que cada território construa sua resistência.
Que cada luta local se reconheça como parte de uma batalha global.

Porque somos nós que sustentamos a vida.
E será com a nossa força organizada que derrotaremos o fascismo.

Sem as mulheres não há Democracia!

Rumo ao Festival Internacional Feminista em 2027!

São Paulo, 31 de maio de 2026.

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