“Francisco Bosco: ‘Há uma confusão entre a crítica ao machismo e a crítica aos homens’” é o título da entrevista que o apresentador da GNT e intelectual Francisco Bosco concedeu à jornalista Laura Pereira Lima, da “Vejinha”, publicada no dia 5 deste mês. 

Se o leitor se contentar apenas com a chamada, como muitas vezes acontece, poderá acreditar que se trata de uma discussão bastante ponderada sobre feminismo. Bosco está a salvo e a cabeça da jornalista também. Mas, se a leitura for além disso, certamente perceberá que outras questões, além dessa frase comezinha sobre feminismo, vêm à tona, as quais não são tão secundárias quanto podem parecer num primeiro momento.  

Bosco tem formação e carreira bastante sólidas. Publicou uma série de livros, dos quais a entrevista destaca apenas dois, ambos publicados por grandes editoras. Aliás, a jornalista poderia ter citado também um terceiro título, A vítima tem sempre razão?, que fala de vitimismo e dialoga estreitamente com as ideias sobre feminismo expressas por Bosco na conversa

Mas, antes de irmos para o tema principal, vejamos os secundários. 

A jornalista inicia seu diálogo indagando se “existe um certo preconceito com intelectuais com maior presença midiática”. O também comunicador é categórico ao afirmar que “existe”. Nem mesmo lhe passa pela cabeça que alguns intelectuais, principalmente do grupo “hiperletrado”, ao qual ele se refere posteriormente, sequer conhecem determinadas figuras midiáticas. 

Bosco, portanto, não relativiza. A dúvida, importante para a formação do pensamento, não é a protagonista nas suas respostas. Descartada a dúvida, ele cita duas razões, e apenas duas, para esse preconceito na academia contra intelectuais midiáticos: uma pertinente e outra não. 

A razão pertinente, segundo o filho de João Bosco, é que “quando se é um intelectual público, que busca alcançar um grande público, é praticamente inevitável que você tenha que vulgarizar bastante seu discurso, já que vivemos em uma sociedade pouco letrada”.  

Pois bem, será que, quando um intelectual vulgariza “bastante” o seu discurso para falar com quem quer que seja, ele segue no papel de intelectual? Não estaria, nesse caso, assumindo outro papel? Talvez o de um animador de auditório que se propõe a diluir ideias para torná-las digeríveis? 

A propósito, causa um certo incômodo quando, de antemão, Bosco afirma que é preciso vulgarizar o discurso para conversar com seus interlocutores, pois parece que ele parte do princípio de que seus interlocutores são incapazes de acompanhar o seu raciocínio.

Abrimos um parágrafo para citar um livro incontornável — para usar a palavra da moda entre amigos que resenham livros de amigos, embora, neste caso, o livro seja realmente incontornável — O Mestre Ignorante, de Jacques Rancière. Nele, o autor descreve que uma relação passa a ser emancipadora quando o “mestre”, que é um “intelectual”, não parte de uma desigualdade entre inteligências, mas acredita na potência de seu interlocutor. 

“Bastaria aprender a ser homens iguais em uma sociedade desigual – é isto que emancipar significa. Esta coisa tão simples é, no entanto, a mais difícil de compreender, sobretudo desde que a nova explicação – o progresso – misturou, de forma inextricável, a igualdade ao seu contrário”.

Dito isso, vejamos agora a razão “impertinente” para o preconceito dos intelectuais contra as celebridades, segundo Bosco. Desta vez, tentando relativizar um pouco, ele afirma: 

“Muita gente que pertence a esse nicho acadêmico hiperletrado estabelece uma rivalidade com quem vai para a televisão, porque lá tem mais fama e dinheiro. É como se dissessem: ‘Não posso aceitar que, além de gozar de um maior reconhecimento público e ganhos financeiros, essa pessoa ainda goza do prestígio intelectual’. Essa reação é meramente rivalitária”.

Não concordamos integralmente com essa posição, embora seja compreensível que alguns a endossem. Certos intelectuais podem, de fato, reagir conforme a suposição de Bosco. Outros, ao contrário, tendem a se perguntar: como pode alguém desfrutar de prestígio intelectual se vulgariza o próprio discurso para ampliar público e acumular likes? 

Talvez ele conquiste prestígio como comunicador. Contudo, quando um intelectual vulgariza o seu pensamento, acaba por esvaziar o próprio conceito de “intelectualidade” e comprometer sua função social mais relevante, especialmente em uma sociedade que insiste em retroceder.

Quanto aos chamados “ganhos financeiros”, é possível que alguns pensem: como seria desejável que minha profissão fosse valorizada e melhor remunerada; se eu ganhasse mais, talvez fosse mais respeitado.

No que diz respeito à dimensão financeira, Bosco adota um discurso distinto do de Tati Bernardi, outra celebridade, que afirmou não compreender por que pessoas com bibliotecas em casa não gostam de dinheiro. Apesar dessa diferença, há uma convergência clara entre ambos os discursos: o dinheiro ocupa o centro da argumentação. Afinal, ele é central, sobretudo na sociedade contemporânea, à medida que se tornou sinônimo de prestígio.

Quanto à pergunta que se refere especificamente ao programa Papo de Segunda, optamos por não abordá-la, uma vez que não assistimos ao programa, que, pelo que se observa, é composto majoritariamente por pessoas de origem privilegiada e, portanto , sem preocupações para garantir o “brioche de cada dia”.

O fato é que, nessa conversa breve, cujo objetivo era promover uma palestra sobre o amor que Bosco daria (e deu) no dia 13 de dezembro, em São Paulo, o feminismo acabou sendo colocado em xeque.

A jornalista afirma que Bosco “não concorda com o movimento feminista incondicionalmente”. O entrevistado não a contradiz; ao contrário, reforça a ideia ao declarar: “As mulheres ficam chateadas comigo quando digo que deveria haver um ajuste no discurso feminista, que deveria enfatizar uma agenda positiva para os homens, em vez de insistir em uma estigmatização, uma criminalização e um rebaixamento sistemático dos homens”.

Trata-se de uma afirmação, no mínimo, precipitada, simplista e equivocada. Além disso, vinda de alguém reconhecido como intelectual, suscita a impressão de certa má-fé, pois um enunciado dessa natureza pode facilmente confundir o público, lançar dúvidas sobre o movimento feminista e, consequentemente, enfraquecê-lo.

O movimento feminista não se fundamenta na “estigmatização”, na “criminalização” nem no “rebaixamento” dos homens.  

Talvez fosse pertinente que Bosco (re)lesse O feminismo é para todo mundo, de bell hooks (Rosa dos Ventos, 2018, trad. Ana Luiza Libânio). Ao contrário do senso comum que associa o feminismo à hostilidade em relação aos homens, hooks demonstra que os Estudos Feministas nunca se estruturaram a partir do menosprezo ao trabalho masculino. A crítica feminista, segundo a autora, intervém em pensamentos sexistas justamente para evidenciar que a produção intelectual de mulheres é frequentemente tão relevante e sofisticada quanto a de homens — e não para hierarquizá-la negativamente.

Quando obras consagradas, produzidas majoritariamente por homens, são submetidas à crítica feminista, o objetivo não é desqualificá-las em si, mas expor os preconceitos de gênero embutidos nos critérios que definem valor estético e legitimidade acadêmica. 

hooks é enfática ao afirmar que a revisão de cânones masculinos não implicou, nem implica, a marginalização do trabalho dos homens nos espaços de ensino e pesquisa.

Ao contrário, esse movimento foi fundamental para revelar vieses históricos, recuperar produções femininas sistematicamente invisibilizadas e criar condições para a produção contemporânea de novos trabalhos por e sobre mulheres.

Dessa forma, a crítica feminista não se orienta pela estigmatização ou pelo rebaixamento dos homens, mas pela desarticulação de estruturas de exclusão que naturalizaram, por séculos, a centralidade masculina no campo intelectual, além de todos os demais, como sabemos.

Portanto, não somos nós que devemos enfatizar uma “agenda positiva” para os homens. São os próprios homens que devem fazer seu dever de casa — o qual Bosco parece não ter feito — e enfatizar as agendas positivas do movimento feminista.

Bosco leva adiante a sua argumentação enviesada na sua resposta à jornalista afirmando que “há uma confusão sistemática entre a crítica ao machismo, que é pertinente e necessária, e a crítica ontológica aos homens. Isso é um erro tremendo e produz muitas injustiças com jovens meninos (…)”. 

Erro é achar que o feminismo propõe uma crítica “ontológica aos homens”, já que não é a essência do homem que está em questão nesse movimento. 

Não bastassem esses comentários irrefletidos , ele diz que “é preciso entender que os homens estão passando por uma crise e que ajudá-los a atravessar essa crise não significa minimamente relativizar a força do discurso feminista”. 

As mulheres atravessam uma crise desde tempos imemoriais. Para alguns, ela remonta à narrativa bíblica de Adão e Eva; sob uma perspectiva mais histórica, teria início em períodos muito remotos da evolução humana, como sugerem as pistas de organização patriarcal reveladas pela Australopithecus Lucy — provavelmente até antes. 

Paleontológica, histórica ou mítica, a culpa nos acompanha com notável eficiência pedagógica: por que a saia curta? Por que a palavra fora de lugar? Por que não o silêncio obediente? Por quê? Por que, afinal, não fomos (e somos) menos mulheres? 

A nosso ver, já passou da hora de os homens compreenderem essa engrenagem moral e assumirem alguma corresponsabilidade por sua manutenção. O convite de Chimamanda Ngozi Adichie permanece atual e, ao que tudo indica, ainda perturbador para muitos: “Sejamos todos feministas!”.

Por fim, a jornalista pergunta a Bosco como ele lida com as críticas feitas por mulheres. Ele responde que “infelizmente muitos intelectuais hoje aderem à pressão da lógica de grupos nos meios digitais, e a vontade de pertencimento é tão grande que boa parte deles abre mão de seu compromisso fundamental com a verdade”.

Mas de que verdade se trata? Talvez a verdade seja o fato de que algumas pessoas, blindadas por pertencerem a famílias poderosas, por ocuparem espaços privilegiados na mídia e por disporem de ampla voz pública, possam dizer o que quiserem, confiantes de que pouco ou nada lhes acontecerá. 

Sabem, ademais, que argumentos contrários dificilmente ganharão a mesma ressonância, sobretudo quando partem de quem não dispõe da mesma inserção nos meios de comunicação.

Talvez, para aparar as arestas e corrigir falsas concepções, um papo de primeira com as mulheres seja interessante.

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