Leio, estupefata, sua entrevista à revista Veja. Você, como bem afirmou, nasceu e cresceu em meio aos livros, à música, num ambiente rico em capital cultural. Contudo, embora tenha tido acesso ao letramento de gênero, parece nada ter aproveitado deste privilégio, muito menos compreendido a condição das mulheres e os recortes de classe e raça em seu próprio país.

Mais grave ainda: não se atentou para o crescimento da violência, o aumento dos feminicídios, dos estupros e do discurso de ódio contra estes corpos, construídos como inferiores ao seu, branco, masculino.

O primeiro ponto de ignorância é a tentativa de salvar a “masculinidade”, separando-a em “velha” e “nova”, na qual você acredita estar inserido. O problema, como já apontou a grande antropóloga Rita Segato, está justamente na ideia de masculinidade — um conceito ultrapassado, carregado de poder e que exerce forte coerção sobre o comportamento dos homens, levando-os a violentar mulheres.

Repare no que diz Segato: “a agressão contra os corpos das mulheres é uma declaração de masculinidade diante do mundo; uma forma expressiva, não instrumental, de violência”. Logo, não existe “nova masculinidade”, como você supõe, quando o problema é a própria noção do termo.

Arrisco dizer, ao ler o trecho “A nova masculinidade permite que o homem tenha acesso a esse inconsciente social e que tenha a chance de se conhecer”, que você não lê autoras feministas, negras e indígenas. Do contrário, não afirmaria que é a “nova masculinidade”, com um ego renovado, que dá acesso a esse inconsciente social.

Quanto ao inconsciente, deixo-o às  psicanalistas; quanto ao social, você está profundamente equivocado. Mulheres como Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Neusa Souza, Grada Kilomba, Roxane Gay e Patricia Hill Collins abririam sua perspectiva, disso não tenho dúvida.

Mas a parte mais tragicômica da sua fala é: “As mulheres ficam chateadas comigo quando digo que deveria haver um ajuste no discurso feminista, que deveria enfatizar uma agenda positiva para os homens, em vez de ficar insistindo em uma estigmatização, uma criminalização e um rebaixamento sistemático dos homens. Há uma confusão sistemática entre a crítica ao machismo, que é pertinente e necessária, e a crítica ontológica aos homens”.

Sublinhei a parte mais absurda, escrita por um homem que se diz intelectual e bem informado sobre os temas da atualidade. Como assim, Francisco? As feministas deveriam enfatizar uma agenda positiva para os homens?

Isso equivale, no âmbito doméstico, a pedir às mulheres que cuidem da casa, da comida, dos filhos e até coloquem os chinelos nos pés do marido para criar-lhe um ambiente agradável. Assim, este homem pode viver em paz e conseguir trabalhar, trabalho este remunerado, diga-se de passagem.

Na esfera pública, você afirma que seria tarefa das feministas criar uma agenda positiva para os homens, para que possam viver bem e felizes em um mundo feito por eles, para eles e com eles.

Não é — e não será — essa a agenda feminista: tornar mais fácil a vida dos homens. Sabe por quê? Porque esta sociedade patriarcal faz da vida das mulheres um inferno. São quatro feminicídios por dia, caro Francisco. São milhares de mulheres criando filhos sozinhas, milhares ganhando metade do seu salário, muitas, inclusive, com maior competência.

São assédios, estupros, agressões, pernas amputadas, mulheres queimadas — fumaça que os homens inalam sem mexer um dedo. E você vem dizer que as feministas estão estigmatizando os homens e rebaixando-os? O rebaixamento moral e civilizatório não vem das mulheres que lutam contra isso tudo, mas dos próprios homens.

Sabe por quê? Homens ejaculam em mulheres publicamente, passam a mão, violentam à luz do dia, desferem sessenta socos no rosto, amordaçam e violentam filhas, netas, sobrinhas. E qual a idade ideal para não sofrer violência? Nenhuma. Uma idosa de 71 anos, turista no Rio, foi violentada. No Amazonas, um homem estuprou um bebê recém-nascido.

Você lê as notícias sobre violência contra mulheres e crianças, ou apenas o que reforça sua “nova masculinidade”?

E, pensando que as barbaridades haviam acabado, você declara: “Isso é um erro tremendo e produz muitas injustiças com jovens meninos, que crescem em meio a esse discurso e são culpabilizados antes mesmo que produzam atos pelos quais, e só pelos quais, poderiam ser culpabilizados.”

Não, Francisco. A grande injustiça contra os meninos não vem das feministas, vem dos homens que os levam, ainda adolescentes, a prostíbulos; que lhes mostram filmes pornográficos, fazendo-os acreditar que é assim que se relaciona com mulheres; que matam as mães na frente deles; que as espancam.

A injustiça é deformar o caráter dos meninos nas rodas masculinas, onde o linguajar sobre o corpo das mulheres você conhece bem. É a objetificação na televisão, na propaganda. É esse mundo viril, em que para provar que se é homem é preciso humilhar, violentar, debochar, “pegar” e “comer” mulheres.

É a cultura da “novinha”, em que meninas que acabam de menstruar já são perseguidas por velhos calhordas, dentro de casa ou na rua. É quando esses meninos veem cantadas baratas, travestidas de sedução.

É o seu texto distorcendo os feminismos, ignorando a luta das mães que tentam criar filhos dignos para um mundo que os devorará mais adiante — justamente pela ideia de masculinidade que ri do menino afeminado, de blusa rosa, que prefere andar com as meninas para proteger-se dessa violência toda.

Ah, caro Francisco, embora tenha crescido cercado de livros e possibilidades, você nada entendeu. Está longe de algo novo.

É o velho machismo revertendo a situação para culpabilizar mulheres que estão apenas tentando viver e sobreviver.

Não estamos ofendidas, imagine! Quem mata um leão por dia não se ofende tão facilmente. Estamos com raiva, estamos cansadas, estamos com pena de homens como você. 

A roupa pode ser nova, mas debaixo dela há um machista bem treinado que finge não ser.

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  • Fabiane-Albuquerque

    Feminista negra, escritora e doutora em sociologia. Autora dos livros Cartas a um homem negro que amei (Editora Malê) e...

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