A poesia sempre foi uma forma de expressão e desabafo para Gabriela, Jaquelivre e Soul Dani. Com facilidade para escrever versos sobre temas autobiográficos como identidade, amor e empoderamento, elas começaram a participar de batalhas de poesia falada realizadas em espaços públicos de Curitiba (PR). Ao perceberem a baixa participação de mulheres e pessoas trans nessas competições, decidiram criar um espaço artístico onde essas identidades historicamente silenciadas pudessem se encontrar, se expressar e ser valorizadas. Assim nasceu o Slam das Gurias.

Criado em 2019, o Slam das Gurias se tornou um dos principais coletivos de poesia falada do Paraná, com protagonismo exclusivamente feminino e trans. De lá para cá, já foram realizadas 45 batalhas de poesia, muitas delas em formato itinerante, ocupando espaços públicos e bairros periféricos da capital paranaense. Mais do que competição, se tornou um espaço de escuta ativa, liberdade e aprendizado, principalmente entre jovens e adolescentes, que rimam sobre racismo, identidade, raiva, amor-próprio e até histórias familiares. 

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Da esquerda para a direita: Gabriela, Soul Dani e Jaquelivre | Crédito: reprodução.

No próximo domingo (17), o coletivo realiza sua 46ª batalha, que será a grande final classificatória para o Campeonato Paranaense de Slam, valendo uma vaga na fase estadual do circuito que definirá o representante do Paraná no Slam Brasil, marcado para dezembro, em Brasília (DF). O evento começa às 15h, na Casa de Pandora (Rua Martim Afonso, 524 – São Francisco, Curitiba), com entrada gratuita e classificação livre. 

Em entrevista à jornalista Evelin Moreira, as poetas Gabriela, Jaquelivre e Soul Dani falam sobre o fenômeno slam, a importância da poesia falada como instrumento de expressão individual e o impacto de abrir espaço para narrativas marginalizadas pela sociedade.

O que é o slam? Como funciona, quais são as regras?

Jaquelivre: Slam poesia são encontros de poesia falada e performática, em forma de competição, onde um júri popular, escolhido espontaneamente entre o público, dá notas de 0 a 10 aos slammers [poetas]. Esse tipo de competição foi idealizado nos anos 80 em Chicago, nos Estados Unidos. Roberta Estrela Dalva foi a responsável por trazer esse movimento para o Brasil, que logo se popularizou como um movimento de rua.

As três regras da competição são: as poesias devem ser autorais, recitadas pelo próprio poeta que escreveu; cada poeta tem até três minutos para recitar sua poesia; e é proibido o uso de adereço cênico e acompanhamento musical. Importante também destacar que os jurados não precisam ter experiência com a poesia e são escolhidos na hora do evento.

Neste ano, o Slam das Gurias completou seis anos. Como ele surgiu? Por que vocês decidiram criar um slam com protagonismo exclusivamente feminino e trans?

Jaquelivre: O coletivo Slam das Gurias surgiu em 2019, a partir da vivência de poetas que sentiam a necessidade de criar um espaço seguro, antissexista e antitransfóbico dentro das batalhas de poesia e dos movimentos de rua. Nós já frequentávamos saraus, rodas culturais e eventos de hip-hop em Curitiba, mas sentíamos a ausência de um território que acolhesse e ampliasse a expressão de mulheres e pessoas trans. 

Realizamos a primeira edição no dia 8 de março de 2019, durante a Marcha das Mulheres. A partir desse marco simbólico e político, o coletivo passou a realizar batalhas mensais com microfone aberto, jurados populares e ações formativas. A nossa trajetória foi construída por meio de autogestão, parcerias comunitárias e participações em editais culturais, articulando cultura, educação e mobilização social. 

Com o tempo, ao circular por escolas, universidades, centros culturais, festivais e territórios periféricos, nós três passamos a perceber com mais nitidez as dificuldades enfrentadas por artistas periféricas, negras e trans, muitas vezes submetidas à invisibilização, à informalidade e à precarização de seus trabalhos artísticos.

Diante disso, o Slam das Gurias viu a necessidade de lutar ativamente pela valorização e profissionalização dessas artistas, entendendo que apenas com acesso a recursos, visibilidade e remuneração digna seria possível garantir a continuidade de suas carreiras, o desenvolvimento de suas linguagens e a consolidação de trajetórias sustentáveis. 

Foi nesse contexto que o Slam das Gurias começou a realizar edições especiais, com remuneração de artistas convidadas, feiras de economia criativa, formações pagas e parcerias institucionais voltadas à construção de um ecossistema cultural mais justo e acolhedor. 

Atualmente, com mais de seis anos de atuação ininterrupta, o Slam das Gurias é Ponto de Cultura certificado e promove ações regulares ligadas à literatura marginal, educação popular, cultura de rua, economia solidária e afirmação de identidades, sendo reconhecido como parte fundamental da história do hip hop em Curitiba e no Brasil.

Uma característica marcante da poesia falada é carregar um forte teor autobiográfico. Quais são os temas que mais surgem nas batalhas de poesia do Slam das Gurias?

Soul Dani: Pelas regras da competição não há temas pré-definidos, mas é característico desse movimento a escrita autobiográfica. Nas batalhas, aparecem versos relacionados principalmente a gênero, raça, classe, além das dores e sonhos de mulheres e pessoas trans.

Como a poesia falada subverte o formato tradicional da arte, seja na estrutura ou no conteúdo?

Poeta Gabriela: Somos ensinadas, desde muito cedo, que a arte é um privilégio para poucos.

Algo restrito às grandes galerias dos bairros nobres ou aos museus e teatros a qual uma pequena parcela da população tem acesso. 

A poesia falada vem para subverter essa lógica: é uma produção do povo, para o povo, uma composição que não precisa ser de um especialista em literatura e nem é declamada apenas em espaços acadêmicos ou elitizados. 

Nesse sentido, os slams representam a arte da oralidade que desde a origem da linguagem e da humanidade perpetua a nossa cultura e os nossos costumes, apresentam as demandas de um grupo e a forma como ele pensa. A poesia falada é para toda comunidade e não para uma parcela dela.

Geralmente, os slams são realizados em espaços públicos, de graça e, de certa forma, com integrantes das periferias que disputam esses espaços. Por que vocês acham que o slam não acontece dentro de salas ou auditórios?

Poeta Gabriela: O movimento slam poesia acontece em muitas comunidades ao redor do mundo e cada uma delas apresenta suas particularidades e características. A chegada desse movimento no Brasil e na América Latina caracterizou uma nova fase e uma nova identidade, marcada pelos espaços públicos e abertos ao ar livre, como é o caso de um dos primeiros slams do Brasil, o Slam da Guilhermina, que acontece na praça da estação de metrô da Guilhermina [São Paulo] desde 2012.

Dessa forma, esse movimento literário passou dialogar diretamente com outros movimentos artísticos e de rua, como por exemplo, a cultura hip-hop, e assim, se consolidou como acontecimento público, que ocupa ruas, calçadas e praças.

O que inspira a poesia de vocês?

Poeta Gabriela: A inspiração surge do cotidiano, da realidade e da indignação frente às injustiças da sociedade. Cada uma possui uma forma de compor e expressar sua visão de mundo, mas o ponto em comum em nossas criações é a reflexão e o pensamento crítico que se apresenta em forma de lirismo.

Cada experiência individual e também coletiva se transforma em poesia como uma forma de mediação da dor, do sofrimento, da raiva e, claro, também do amor. Apesar de grande parte das nossas poesias abordarem questões sociais, raciais e de gênero, nós também semeamos o afeto através da palavra.

Vocês já se sentiram excluídas nas batalhas de poesia do circuito de Curitiba?

Soul Dani: Sim, infelizmente nem tudo são flores. Como em muitos espaços majoritariamente masculinos, precisamos “furar a bolha” e enfrentar várias circunstâncias desagradáveis. Muitas vezes, imaginamos que, em espaços segregados, haverá mais acolhimento e não é bem assim. Por isso, como produtoras do coletivo, buscamos criar ambientes diferentes, mais seguros e acolhedores, e fugir das tretas (risos). 

Conflitos sempre vão existir porque no momento em que você se posiciona, vai ser cobrada, julgada ou simplesmente não vão gostar de você e tudo bem, fazer o quê? Acreditamos que, quando a discussão vira pessoal, quem “ganha” é só o ego e quem perde é o movimento como um todo. Então, nosso foco é não alimentar a exclusão e, sim, criar novas formas de inclusão.

Nas batalhas de poesia, o júri é escolhido dentre os próprios membros da plateia. Por que vocês acham que essa forma de organização é importante?

Soul Dani: Acreditamos que todo mundo pode fazer poesia a partir dos seus próprios sentimentos e vivências e por que não ser assim também como júri? No slam, o júri é escolhido na hora para evitar favoritismos e garantir um olhar simbólico, neutro e com uma linguagem acessível.

Apesar de o slam ser um circuito mundial e, como toda competição, ter disputa, a gente sempre diz que quem vence é a poesia. Por isso, incentivamos que os jurados sintam com o coração e não cedam à pressão da torcida. Assim, a nota vem do que realmente importa: a performance e a letra. O movimento slam tem como essência ser democrático e para todos, e essa forma de organização reforça esse princípio.

Quais os principais desafios enfrentados pelo Slam das Gurias para se firmar como uma batalha de poesia com esse recorte de gênero inclusivo?

Soul Dani: São muitos os desafios. Alguns melhoram com o tempo e a maturidade, mas novos sempre surgem. Um dos mais complexos é fazer com que a sociedade reconheça que a poesia marginal, a poesia de rua, é literatura rica e legítima e que temos nosso lugar nela. 

Vivemos em um país que continua sendo um dos mais violentos para mulheres e pessoas trans. Em 2024, foram registrados 1.450 feminicídios no Brasil, uma média de quatro mulheres assassinadas por dia, nesse mesmo ano, 122 pessoas trans e travestis foram brutalmente assassinadas; entre elas, 117 eram travestis ou mulheres trans.

Transcender esse cenário e, ainda assim, conseguir captar recursos para realizar os eventos, cuidar da saúde mental e manter a força para seguir adiante é uma luta diária. Precisamos urgentemente de mais políticas públicas voltadas à cultura com recorte de gênero, e de uma sociedade menos opressora, machista e misógina, que nos permita existir e criar com liberdade.

Para finalizar, quero pedir que deixem uma mensagem para as mulheres e pessoas trans que escrevem versos, mas tem medo de lê-los em voz alta nas batalhas de poesia.

Poeta Gabriela: O medo acompanha a todas nós em alguma medida, a experiência de superar esse desafio e se arriscar, lendo suas próprias composições em voz alta é inesquecível e enriquecedora. Quando nós nos colocamos na posição de verbalizar nossas rimas, pensamentos e composições, é como se conhecêssemos uma nova parte nossa. Uma chance de ressignificar.

Serviço:

Slam das Gurias – Final Classificatória
Data:
Domingo, 17 de agosto
Horário: A partir das 15h
Local: Casa de Pandora – Rua Martim Afonso, 524 – São Francisco, Curitiba/PR
Microfone aberto: Inscrições no local
Premiação: 1º lugar – R$ 400, 2º lugar – R$ 300, 3º lugar – R$ 100 + livros sorteados pela Freguesia dos Livros
Entrada: Gratuita
Classificação indicativa: Livre

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  • Evelin-Moreira

    Jornalista, escritora, agente cultural e servidora pública. Baiana radicada em Curitiba desde 2018, é autora do livro "C...

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