Por muito tempo, setores da esquerda brasileira têm tratado as demandas de mulheres e negros como “pautas identitárias” — como se fossem temas acessórios, secundários, que atrapalham a “luta real” contra o capitalismo. Isso não é só um erro político; é uma forma disfarçada de manter o racismo e o machismo dentro do próprio campo progressista.

A ideia de que falar sobre racismo ou machismo “divide a classe trabalhadora” parte de uma leitura rasa da realidade. Quem, afinal, compõe a base da classe trabalhadora brasileira? São, em grande parte, mulheres negras. Somos maioria nas periferias, nos serviços essenciais, no cuidado, na educação, na informalidade. Somos quem carrega nas costas o sistema — e, ainda assim, somos tratadas como “segmento”, como se fôssemos minoria ou tema secundário.

Reduzir nossas lutas a “identidade” é uma forma elegante de nos silenciar. Quando falamos de segurança pública, falamos do genocídio negro. Quando exigimos mais mulheres negras na política, falamos de democracia real. Quando pedimos creche, saúde, salário digno, não estamos falando de “causas identitárias”. Estamos falando de sobrevivência.

E aqui está o ponto: não é que a esquerda ignore essas pautas. É pior. Ela instrumentaliza. Usa nossas imagens nas campanhas, mas nos apaga das decisões. Nos chama para o palanque, mas não para a direção. Celebra o 20 de Novembro, mas não constrói liderança preta o ano inteiro. Lança candidaturas negras e femininas para cumprir cota informal, mas mantém o poder real concentrado nas mesmas figuras de sempre.

O resultado disso é uma base desmobilizada, cansada e cada vez mais desconfiada. Porque ninguém quer ser lembrado só na hora do voto. Queremos estar na formulação do projeto. Queremos decidir. Queremos liderar.

A esquerda precisa fazer uma escolha urgente: ou rompe com o racismo e o machismo estrutural que ainda carrega, ou seguirá perdendo força — e, mais importante, seguirá sendo incoerente com os valores que diz defender.

Não se trata de dar voz. Temos voz. O que falta é escuta, redistribuição de poder e compromisso real. Sem isso, qualquer projeto de transformação social será, no máximo, uma reforma cosmética do que já está aí.

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  • Bia Vargas

    Catarinense de 38 anos começou a empreender quando foi mãe. Voluntária social desde os 13 anos passando por grupo de jov...

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