8 de março em Uberlânddia/MG. Foto: Beatriz Ortiz | Portal Catarinas

8M em Uberlândia reivindica direito à vida das mulheres

Postado em 11/03/2018, 17:35

Por Ana Cristina Spannenberg, Anna Vitória Rocha, Beatriz Ortiz e Raíssa Dantas*

Luta contra feminícidio e violência de gênero marcam os protestos na cidade mineira

Em Minas Gerais, estado com maior número de casos de feminicídios registrados no Brasil pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), a segunda cidade mais populosa fez dos atos do 8M um protesto contra a violência e o assassinato de mulheres. Cerca de 200 pessoas reuniram-se na praça central de Uberlândia, na tarde do 8 de março, onde participaram com cantos, encenações, homenagens e, depois, seguiram em marcha pelas ruas do centro. As principais pautas foram “pela vida das mulheres, nenhum direito a menos, não à violência contra a mulher, mulheres na política, saúde e educação para todas”.

A 9ª Região Integrada de Segurança Pública (Risp) registra altos índices de violência contra a mulher, tanto em Uberlândia quanto nas outras 17 cidades que a compõem. Em 2014 foram 31 assassinatos, 28 em 2015 e 20 em 2016. Em 2017, mais de uma dezena de casos foram contabilizados. E, em 2018, já há pelo menos um caso de assassinato em Uberlândia. Na maioria das ocorrências, os crimes são cometidos pelos companheiros das vítimas.

Durante o ato do 8M, estavam também sendo recolhidas assinaturas para a abertura de uma ação popular a favor da mudança do nome da praça, que atualmente leva o nome de um antigo político local que assassinou sua esposa grávida, em 1926. Na época, Tubal Vilela matou sua esposa Rosalina Buccironi, de 19 anos, e foi absolvido por legítima defesa da honra. Neiva Flávia de Oliveira, professora do curso de Direito da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), é uma das pessoas a frente do movimento: “Hoje estamos aqui pra dizer que não aceitamos um feminicida como nome da principal praça da cidade.”

Minas Gerais é estado com maior número de casos de feminicídios registrados pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Foto: Beatriz Ortiz | Portal Catarinas

A petição pede que o nome seja trocado para o de Ismene Mendes, advogada da causa dos trabalhadores rurais e morta na ditadura militar. “Eles assassinaram Ismene Mendes e fizeram constar nos registros que ela tinha se suicidado e se auto-estuprado. O que a gente diz hoje é que ela não se suicidou, não se auto-estuprou, ela foi assassinada por lutar pelos direitos dos trabalhadores”, explica Neiva. O abaixo-assinado já conta com mais de 1300 assinaturas e está disponível no link: http://chn.ge/2COzdxX

Mulheres de luta
“Acho que é um dia importante pra gente ir pra rua e mostrar que a gente tem que se unir, deixar de ficar em casa. Não é um dia das mulheres para ganhar florzinha, é para mostrar que a gente quer botar a cara na rua mesmo.”.A dentista Maria Amélia Penteado Augusto, de 55 anos frequenta manifestações desde 2013. “Acho que tem muita coisa pra acontecer, mas já vejo mudanças.”

A juventude também esteve presente. Clara Emilly, 13 anos, estudante, é filha de militantes pela reforma agrária. Ela resume sua motivação: “Hoje vim representar a luta do feminismo, esse dia maravilhoso, representar as lutadoras do mundo que sofreram para que a gente estivesse aqui hoje. O dia da mulher representa luta, muito sangue escorrido, é isso. Luta pra conseguir votar, impor nossa presença, nosso caráter, impor que a gente é mulher”.

Mulheres de todas as idades organizaram o 8M Uberlândia. Foto: Beatriz Ortiz | Portal Catarinas

Estudantes que tiveram contato com o feminismo e a luta das mulheres através da internet também estavam presentes. Maria Eduarda Carvalho, 16 anos, explica seu contato com o feminismo: “Meus primeiros contatos foram quando eu entrei no ensino médio porque comecei a ter essa influência tanto pelos meus professores como pelos meus colegas de classe. Comecei a pesquisar sobre o movimento feminista, partidos que trazem a pauta feminista.”. A estudante Luciana Kássia, 17 anos, acompanha a colega e resume sua motivação em participar do ato: “Acho que a gente tem que mostrar pra cidade a nossa revolta com o elevado número de violência, mostrar que a gente não quer ficar calada diante de tudo que tá acontecendo.”

A universitária Manuela Oliveira Rocha e Sousa, 24 anos, estudante de Sistemas de Informação estava na praça com sua bebê. “Como mãe, principalmente mãe de menina, vejo que a gente já teve muitos avanços, mas a sociedade tem muito o que avançar, é urgente e necessário. Falta espaço para mães dentro do movimento, seria bom pra incluir cada vez mais facilidades para mães, como apoio para trocar fralda, espaço para deixar as crianças no chão, brinquedos e algumas coisas assim seriam bacanas e atrairiam cada vez mais mães.”

*Jornalistas

Fotos: Beatriz Ortiz

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