A marcha marca o movimento de luta pelo respeito aos territórios dos grupos indígenas no Brasil e na América Latina e se une ao Ato Nacional pela Educação/ Foto: Paula Guimarães.

1ª Marcha das Mulheres Indígenas: em defesa dos territórios e da educação

Postado em 14/08/2019, 7:38

Cerca de 2 mil mulheres indígenas, de 125 povos de todos do estados marcharam unidas, do acampamento, nas proximidades da Funarte, em Brasília, até a Câmara dos Deputados no Congresso Nacional para marcar o movimento de luta pelo respeito aos territórios dos grupos indígenas no Brasil e na América Latina. 

Sônia Guajajara mediou as falas iniciais e seguiu no carro de som. Às 8h da manhã alguns parlamentares se solidarizaram com o movimento que acontece nesta semana em Brasília. Estavam as deputadas indígenas Joênia Wapichana (Rede/RR), Encarnación Duchi do Equador e Tânia Pariona do Peru, integradas à Articulação Internacional dos parlamentares indígenas, e os deputados Marcelo Freixo (PSOL/RJ), Dionilso Marcon (PT/RS), Célio Moura (PT/TO), Paulo Pimenta (PT/RS) e Airton Faleiro (PT/PA).

As mulheres Guarani e Kaiwoá do Mato Grosso do Sul cantaram e dançaram no ato de abertura da 1ª Marcha das Mulheres Indígenas: “Território: nosso corpo, nosso espírito”. As organizadoras da marcha Sônia Guajajara, Cris Pakararu, Elisa Pakararu coordenadora do departamento de mulheres indígenas da APOINME, Célia Xakriabá (APIB/MG) Anna Patté Xokleng/Laklanõ, Maira Apuí, Tuíra Kayapó entre outras mulheres indígenas que não mediram esforços para marcar na história de brasília a trajetória de luta do Brasil e da América Latina. A marcha se uniu ao Ato Nacional pela Educação e o encontro para a Marcha das Margaridas na Sessão Solene na Câmara dos Deputados. A plenária final do encontro das mulheres indígenas será hoje (14) às 14h.

1ª Marcha das Mulheres Indígenas: “Território: nosso corpo, nosso espírito”/ Foto: Paula Guimarães.

 

Watatakalu Yawalapiti (MT), do grupo Yawalapiti do Xingu, faz parte da coordenação de mulheres da Terra indígena do Xingu (TIX) combatendo práticas e costumes que são contra os direitos femininos. Ela fala sobre os motivos que a levaram à marcha. “Participei da construção da 1ª Marcha das Mulheres Indígenas e a gente resolveu fazer isso porque a gente queria trazer realmente as mulheres. Nos outros movimentos a gente não tem essa oportunidade. Está sendo muito especial porque temos a certeza agora que todas nós, de todo o Brasil, estamos unidas. Não só as indígenas. A gente também vai se unir com as mulheres não indígenas. E essa luta toda é para melhorar esse mundo. Unir os conhecimentos, a cultura de vários povos para trazer a cura para esse planeta que precisa tanto. Precisa respeitar, precisa de adequar à cultura que ele deveria praticar”, lembra Watatakalu.

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Articulação Internacional dos parlamentares indígenas 

A Deputada Encarnación Duchi do Equador @EncaDuchi ressaltou em sua fala que a luta de resistência das mulheres indígenas perpassa gerações em cada território. “Dizemos que aqui estão as filhas da resistência. E nós mulheres vamos levar o nome e a luta de nossos antepassados e de nossas avós porque nosso filhos necessitam. Eles têm direito ao futuro, a viver em um espaço sadio, ter seu próprio território, a ter a nossa própria educação, a ter acesso aos meios de comunicação, a estar presente dinamicamente nos espaços públicos, em todos os espaços públicos que tem o Estado”, comenta. 

Segundo a Duchi os povos de nacionalidades indígenas da América Latina de Abya Yala precisam ocupar os espaços de atuação institucional “No Equador a luta das mulheres é somada às lutas por oportunidade no Estado, no Brasil, que está também apoiando a causa dessa luta das mulheres, sem dúvida, os povos de nacionalidades indígenas da América Latina de Abya Yala tem as mesmas necessidades. Temos os mesmos problemas, portanto, temos que estar organizados como mulheres e como homens dizendo em voz alta: aqui estão os povos de nacionalidade indígenas de Abya Yala para defender nosso território, para defender nossa vida e para assegurar o futuro de nossos filhos. Viva os povos indígenas! Viva o nosso território indígena!”.

Tânia Pariona deputada no Peru @TaniaPariona lembra de Joênia Wapichana, a primeira mulher indígena na Câmara dos Deputados no Brasil. “Depois de quinhentos anos de resistência, de duzentos anos de República, podemos ter uma mulher indígena levantando sua voz por seu povo, por sua cultura, por sua cosmovisão, por seu território. Para nós mulheres indígenas de Abya Yala, de América Latina, isso significa que chegou o tempo das mulheres. E como mulher Quéchua indígena no Peru, é uma fortaleza para a nova geração”, afirma. 

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As deputadas fazem parte da Articulação Internacional dos Parlamentares Indígenas formada por sete países Equador, Bolívia, Chile, Brasil, Guatemala, Equador e Panamá. Pariona faz referência à terra como a coluna vertebral do movimento indígena em todo o mundo. “Estamos respaldando a 1ª Marcha Nacional de Mulheres Indígenas. Sete parlamentares indígenas que teremos enfrentar um conjunto de desafios, inclusive barreiras institucionais, como a discriminação e o racismo estruturado e colonial em nossos países. A terra e o território para nós são coluna vertebral para termos a continuidade histórica de nossa cultura. Essa é uma reivindicação mundial, a defesa do território é uma só em todo o mundo. A terra não se vende, não se explora, não se transfere, não se hipoteca. A terra e o território humano e humana se defende. E como dizem o povo Quéchua, Pachamama, Viva a Mãe Terra!”.

A representante indígena na Câmara dos Deputados no Brasil Joênia Wapichana (Rede/ RR), comenta que irão acontecer outras marchas por todo o território nacional e que a coesão da coletividade é necessária para fortalecer a luta. “Está abrindo uma série de outras marchas para esse ano e é muito importante manter essa coesão, essa união, essa sensatez, essa sensibilidade, esse olhar para a coletividade como as mulheres sempre trazem. Fazemos a diferença. Fazemos a diferença inclusive para ocupar os espaços políticos, ocupar esse Congresso Nacional, outras frentes, o executivo, o judiciário. As mulheres têm capacidade sim. As mulheres têm essa firmeza e nós estamos mostrando isso. Nós viemos para ficar”, enfatiza.

Wapichana denuncia os ataques do governo atual. “Nós viemos aqui hoje justamente para dizer não ao Bolsonaro, não à mineração, não a qualquer retrocesso, e nós vamos mostrar que nós viemos manter essa manifestação. Quero saudar as mulheres pagés lideranças tradicionais são tão importantes e que estão aqui presentes somando. Deixaram as suas famílias e vieram pra cá para mostrar que justamente nós temos um desafio pela frente. E esse desafio a gente não vai conseguir vencer se a gente não estiver unidos. Hoje vai estar em pauta parentes na Comissão de Constituição e Justiça a PEC 187 e nos preocupa muito porque justamente essa PEC abre possibilidade para o arrendamento da terra indígena. É inconstitucional. É tenta mudar o artigo 271. Nós precisamos de apoio”, ressalta Wapichana.

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Sessão Solene na Câmara dos Deputados

Durante a Sessão Solene em homenagem à Marcha das Margaridas no plenário Ulysses Guimarães nesta terça-feira Sônia Guajajara @guajajarasonia inicia sua participação chamando um coro com o tema da marcha “Território: nosso corpo, nosso espírito”. Em seguida faz um canto em sua língua materna e inicia sua fala. “Estamos aqui mulheres indígenas de todo o Brasil. Já somos aqui 113 povos diferentes vindos de todos os estados da federação brasileira. Chegamos em Brasília em marcha para realizar a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas que temos como tema ‘Território: nosso corpo, nosso espírito’. Estamos aqui hoje se juntando nesse lindo, forte e potente encontro com a Marcha das Margaridas. Aqui nós selamos esse pacto”. 

Guajajara conta que a mobilização das mulheres é um contra-ataque às violências do governo. “desde de que Bolsonaro disse que não haveria mais nenhum centímetro de terra demarcada para os povos indígenas nós saímos em marcha porque, com essa afirmação, ele declarou guerra não só para os povos indígenas mas para as mulheres indígenas que não aguentam mais ver a sua mãe sendo explorada. Que não aguenta mais ver sua mãe sendo estuprada. E é por isso que nós marchamos. Para estar aqui somando forças com as mulheres camponesas, as mulheres rurais, as mulheres indígenas, as mulheres urbanas. A terra é mãe de todas nós. É uma de nós. É o que garante a vida”, esclarece. 

A indígena afirma que “hoje o governo Bolsonaro já representa a maior ameaça para nós povos indígenas e nós não estamos aqui para sermos ameaçados.Não estamos aqui para ser violentadas. Nós estamos aqui nesta terra enquanto povos originários para sermos respeitadas. É isso que nós viemos fazer aqui em Brasília, marcando o nosso passo para demarcar os nossos territórios. Porque o território é o nosso corpo, é o nosso espírito. Enquanto ferir a nossa existência seremos resistência”, afirma Sônia.

Veja a sessão completa:

 

Ato pela Educação em Brasília

Regina, vice-presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE) participou do Ato pela Educação. “Estamos em Brasília, hoje é o dia da Tsunami da Educação, com atos por todo o país, e aqui a gente se une a Marcha das Margarinas e Marcha das Mulheres Indígenas para aprender muito da luta e da força delas e trazem aqui para gente como experiência e história de resistência. Hoje a gente está lutando contra os cortes na Educação e contra o projeto Future-se. Os cortes na educação começaram com a emenda constitucional 95 contingenciou grande parte da verba da Educação impedindo que a universidade funcione. O Future-se vem tentar criar uma solução para um problema que eles mesmos criaram”, comenta Regina. 

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