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Foto: arquivo pessoal

“Tem que respeitar a vontade do corpo”, afirma cacica trans

Postado em 14/10/2021, 12:18

A ancestralidade “Imedu Aredu” se revela na vivência trans de Majur do Povo Boe Bororo (MT).

ERRATA: Erramos ao traduzir como “trans lésbica” a expressão “Imedu Aredu” e “Aredu Imedu”, sendo a tradução correta para pessoas trans como ”Imedu Aredu” e para pessoas lésbicas como “Aredu Imedu” da Língua Boe Bororo para a Língua Portuguesa. Ressaltamos que a equipe do Portal Catarinas se posiciona contra a transfobia.

A primeira cacica trans que se tem registro na atualidade, Majur Harachell Traytowu, 30 anos, do Povo Boe Bororo, assumiu o cacicado neste ano, quando o seu pai, Raimundo Itogoga, de 79 anos, sofreu um pico de pressão arterial após o canto no ritual de batismo das crianças, o tradicional “Boe eiedodu”. Itogoga foi medicado e passa bem.

O território indígena do Povo Boe Bororo é composto atualmente por dez aldeias, com aproximadamente 900 pessoas. Majur vive com a família na aldeia Apido Paru, na Terra Indígena Tadarimana, no município de Rondonópolis (MT). Mora com o pai e a mãe, Jurema Adugo Oro Kujagureudo, de 66 anos, além de outras familiares em uma aldeia com 70 pessoas que formam 14 famílias. Na Região Centro-Oeste do Brasil, integram o bioma Cerrado e falam fluentemente em seu cotidiano a Língua Boe Bororo, do tronco Macro-Jê. A família, no entanto, vai além da aldeia, já que são 15 irmãs e irmãos do mesmo pai que teve vários casamentos.

Segundo o Instituto Socioambiental (ISA) o termo “Bororo” significa “pátio da aldeia”, nome pelo qual, atualmente, o povo é reconhecido, ainda que autodenominem como “Boe”. A cultura e a autonomia política do povo têm atuado como armas contra os efeitos predatórios do contato com a população colonizadora que se estende há pelo menos 300 anos. De acordo com dados pesquisados pelo ISA, o povo habita a região há mais de sete mil anos.

Majur, na língua do Povo Boe Bororo se autodenomida como “Imedu Aredu” que, para os não indígenas, pode ser traduzido como uma mulher trans. Além de atuar como agente de saúde, passa seus dias a organizar a aldeia, faz a gestão administrativa, contribui nas rezas tradicionais e na continuidade da cultura de seu povo. Pela memória ancestral guia seu caminho entre a tradição e as decisões que precisa tomar diante da sociedade não indígena que impacta em seu território. Em entrevista ao Portal Catarinas Majur se coloca como resistência aos processos de colonialidades dos corpos.

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Foto: arquivo pessoal

CATARINAS – Como foram construídas as responsabilidades do cacicado que você assumiu de uma semana para a outra? Você acompanhou sua família nas decisões da comunidade? Como foi esse processo?

Majur: Eu fui preparada, mas a minha família nunca liderou uma comunidade, liderou na parte cultural porque o meu pai é Chefe de Cultura. Então, ele sempre está lá no meio do povo, nas decisões, porque o Chefe de Cultura tem um grande peso nas decisões. O meu pai foi ensinado desde pequeno para poder executar as ações. Ele é considerado um dos únicos Boe Bororo Chefe de Cultura. Os pais e os tios dele repassaram os conhecimentos. Não foi cacique. Ele já liderou, mas eu nem tinha nascido ainda. Ele conta a história que a liderança dele foi muito boa, mas foi em outra região, na aldeia Garça, no Ribeirão Carneiro, Barro do Gato. 

Depois eu cresci e fui no acompanhamento dele na cultura. Acompanhei vários momentos fúnebres, outros de alegria também, de nominação, até mesmo apresentação na cidade, isso acrescentou conhecimento sobre como liderar. Eu sei que é um peso grande para o meu povo, uma responsabilidade grande para a comunidade.

CATARINAS – E qual seria o motivo do deslocamento para outra região dentro do território?

Majur: Meu pai perdeu a primeira esposa e a tristeza foi tão grande que ele foi obrigado a sair da aldeia Garça. Ela machucou a perna, não teve como curar e faleceu. Faz uns três, quatro anos que a aldeia foi reaberta. Antes de voltarmos aqui na nossa aldeia, que estamos atualmente, a gente já havia morado aqui. Meu avô faleceu, foi um grande pajé, faleceu aqui e minha mãe não queria mais ficar e tivemos que ir para a aldeia central pelo próprio procedimento funeral. E depois a minha mãe não quis voltar para ficar. 

Já moramos em várias aldeias dos Bororo, mas sempre pensávamos em voltar para a Terra Indígena Tadarimana. Em 2017, ela quis vir para a aldeia, sempre com o sonho de vir para morar e construir. Foi graças aos esforços dela e do meu pai que deu certo e a gente está aqui hoje.

Não temos retomadas porque a nossa terra já é homologada e demarcada. A gente não tem problemas com esses negócios de ter que retomar a terra.

Meu pai casou com a primeira mulher que era filha do pajé, e passado um tempo ele ficou com a minha mãe. 

CATARINAS – Desde a infância você veio construindo pouco a pouco esse caminho na cultura. Com relação a pajelança do seu avô, a sua mãe teve algum aprendizado que você também aprendeu?

Majur: A minha mãe faz as preces na cultura e eu sempre a acompanhei. Eu também já presenciei o meu pai, o meu avô evocando. Eu vou levar para sempre esse aprendizado, esse conhecimento. Até quando minha mãe faz a prece com o meu pai, porque ele também faz, tem conhecimento, tem remédio, tem raiz, para cada prece, para o momento. Desde pequena eu já aprendi a usar, a fazer. Para mim não há problema. Os familiares confiam muito no que a gente faz.

Foto: arquivo pessoal

CATARINAS – Os remédios da cidade também são utilizados?

Majur: A gente faz o acompanhamento dos dois, mas eu prefiro mil vezes o remédio da mata.

CATARINAS – E desde que você assumiu o cacicado ficou também responsável pelas atividades culturais? O que vocês estão fazendo desde então?

Majur: Eu fiquei mais com a parte do cacicado mesmo, da administração. Eu tenho que fazer acompanhamento da cultura também, dos dois, porque eu vivo com eles (os pais).

A gente conseguiu vários postes, a gente já tem energia (elétrica), neste ano. O meu pai não fala muito o “português”, eu falo, e conseguimos dois poços artesianos para termos água, caixa d’água, já está tudo funcionando. Nós temos planos. Nossa comunidade tem roçado de mandioca, banana, tudo o que a gente planta aqui a comunidade por inteiro consome, todo mundo junto. O rio corta bem próximo daqui, é bom para banhar. A gente usa bastante.

Eu acompanho tudo. Antes eu estava trabalhando com outras comunidades aqui da aldeia. Fui promovida para ocupar o cargo de agente de saúde, depois veio esse cacicado. Estou bem feliz.

Eu não quero ser nem melhor nem pior. Eu quero apenas ser diferente de tudo e de todos. Geralmente o pessoal não gosta, fala que a gente está se achando. A única coisa que eu quero é a melhoria para a minha comunidade.

Desde 1500 para cá a gente vem sofrendo bastante. Já sofreu e sofre ainda. A gente teve que se adaptar para o mundo não indígena e também para sermos responsáveis pelo nosso mundo mesmo. Então, quero melhorias para sermos protetores na nossa comunidade. Eu quero fazer o bem para todo mundo. Quem sabe, futuramente, eu possa ajudar outras comunidades.

Conseguimos cestas básicas até o fim da pandemia. Estamos recebendo já faz seis meses. Até durar essa pandemia a comunidade, a família, irá receber. Estamos ajudando a aldeia central, fizemos uma vaquinha para arrecadar dinheiro para contribuir na construção de casas, puxar lenha.

Na minha comunidade são casas tradicionais de palha, cada casa tem um espaço para fazer a comida. Em alguns lugares, atualmente, já há famílias que têm casas de alvenaria.

Foto: arquivo pessoal

CATARINAS – Você comentou que estão sofrendo desde 1500. Você poderia contar um pouco da história do teu povo pra gente?

Majur: Sofremos muita ameaça, perseguição, massacre, muitos problemas aconteceram com o Povo Bororo.

CATARINAS – Majur, porque você usa esse nome? Deram a você ou você que escolheu?

Majur: Foi uma brincadeira. Eu organizei uma festinha para a minha sobrinha de um ano, na outra aldeia ainda, onde eu morei. Foram os meninos que vieram com esse nome e ficou. Majur é um nome não indígena. Foi desde 2015, por aí.

CATARINAS – Majur, como é esta questão, não sei como você define se é trans, pessoa não binária, LGBT, como fica essa questão se a gente for falar da ancestralidade desses corpos? Como você pode explicar pra gente?

Majur: Segundo a minha mãe, os relatos dela, porque ela já viveu bastante, existiam as pessoas com outro sexo. Até ela viu, esteve junto. Então, isso já vem dos antepassados mesmo. Para nós não é novidade. Com o passar dos anos foi passada essa ideia dos não indígenas, há um pensamento negativo sobre isso. Mas, segundo os meus pais, isso vem desde sempre. Minha mãe falou que já teve um tio avô, ele fazia todas as coisas que se referem a uma mulher, com compromissos, e era homem também. Não era da minha família. Porque a gente vive em clã, pertenço ao Ecerae. Era de outro clã.

CATARINAS – Como você vê a questão desse corpo perante a sociedade não indígena? Tem alguma diferença?

Majur: Na nossa cultura é totalmente diferente, de nós para os não indígenas. Então, eu acho que tem diferença mesmo. A gente tem uma característica de vestir, de pintar, de pintura facial e corporal. Então, eu acho que é desse jeito. Chamamos para trans ”Imedu Aredu” e para lésbica “Aredu imedu”. Na análise que eu fiz tem vários significados.

CATARINAS – Você passa pela educação feminina e masculina? Ou você transita por todas?

Majur: Eu tive que ir para essas duas regras, vamos dizer, mas eu fico mais para o lado feminino mesmo. No masculino eu não vou muito. Com o tempo eu fui aprendendo a lidar com a minha situação. Eu fui me aperfeiçoando. E cheguei em uma conclusão que eu sou desse jeito que eu sou.

Tenho a comunidade em geral, os Bororo que apoiam. Não são contra. O que eu recebo é conselho sobre o dia a dia mesmo, sobre as coisas boas, as coisas ruins. O preconceito não vem da gente. Com o passar do tempo, na nossa comunidade, algumas famílias sofreram preconceito devido à essa influência do não indígena.

Cada pessoa vive do jeito que quer, tem que respeitar a vontade do corpo. Eu, como uma pessoa da sociedade brasileira, eu recebo preconceito duplo, por ser indígena, e na visão do não indígena, por ser trans.

Eu acho que cada um tem que viver a sua vida. Respeitar o outro porque do jeito que está o nosso mundo com essas coisas ruins tem gente que defende o mal da nossa sociedade.

CATARINAS – Você prefere ser chamada no feminino, no masculino ou prefere a linguagem neutra?

Majur: Eu prefiro a linguagem neutra, ou o feminino em relação ao masculino.

CATARINAS – Vamos falar sobre sexualidade? Você é trans e se relaciona com meninos? Como você descobriu sua sexualidade e optou por se relacionar com meninos? Você tem algum relacionamento no momento?

Majur: Sim, sou trans e me relaciono 100 % com meninos. Descobri creio que com uns 12 a 13 anos que gosto de meninos e a partir disso eu fui me auto descobrindo e passei a conhecer mais a minha pessoa. Relacionamento sério no momento não tenho.

CATARINAS – Vimos no seu Instagram que você foi ao médico e disse que está passando por um momento de transformação no corpo. Como está sendo esse processo?

Majur: Então, sobre isso eu já fui ao endocrinologista e já estou usando o Natifa (medicamento) e daqui uns três meses volto ao médico novamente. São hormônios femininos. O médico me indicou os comprimidos que é mais fácil de acompanhar no meu sangue o desenvolvimento do medicamento, se vai trocar ou vai ficar só nele mesmo.

CATARINAS – E como foi essa decisão para você? Já havia pensado sobre isso antes, na adolescência, ou foi depois do nome Majur?

Majur: Já pensava antes só que pra mim. Naquela época era muito difícil e também tinha que pagar pra fazer e comprar os medicamentos. E também não tinha condições financeiras para custear todo esse tratamento. Mas como hoje tenho, decidi fazer o tratamento e já estou muito feliz por isso tudo.

A minha mudança está começando pelo tratamento de hormônio e depois, mais futuramente, pensar em alguma coisa maior tipo cirurgia algo assim.

CATARINAS – Você foi eleita a Conselheira de Jovens Indígenas Boe Bororo. Você poderia nos dizer quais são as perspectivas em assumir mais esse cargo? Quais os planos do Coletivo Majur? Como vocês pretendem trabalhar?  

Majur: Desde o mês passado a gente estava conversando sobre o Conselho da Juventude. Eu recebi a informação que a gente teria uma cadeira exclusiva para um indígena. Logo o pessoal entrou em contato comigo e me passaram as informações necessárias para poder concorrer também. Como não tinha concorrência, logo de cara a vaga estava garantida para mim. O rapaz que está organizando falou também “a gente quer você. A gente entrou em contato porque a gente sabe como você é e como é a sua luta”. Então isso me motivou mais também por ser reconhecida.

Antes disso, montamos um grupo do Coletivo Majur para que possa ter uma interação com os jovens daqui da aldeia com outras aldeias. Conversar um pouco sobre bebidas, drogas e passar a visão para eles de como são as coisas. Porque eu vejo que muitos dos jovens têm depressão, eles têm uma vida bem depressiva e isso pra mim tem sido bem preocupante. Eu não sei o porquê dessa depressão. Para isso tenho que conversar com eles e ver qual o motivo, mas creio que seja uma briga de família ou algo assim.

A gente quer fazer palestras, conversas, fazer excursões para outras aldeias para ver a realidade de outro povo. É desse jeito que a gente quer trabalhar. A gente está conversando como vai ser e montar um cronograma para concretizar o coletivo.

Agora referente ao Conselho da Juventude, as reuniões serão feitas, as coisas vão passar por mim, eu vou fazer os documentos para encaminhar para as entidades e cobrar os projetos. Eu estou animada para poder começar.

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