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O machismo é estrutural e está enraizado no cotidiano da nossa sociedade, independentemente de gênero, etnia ou classe social | Foto: Adriana Pimentel

Por uma sociedade mais tie dye

Postado em 12/10/2020, 15:03

Por Líliam Cunha e Yara Peres, da Eco Nordeste.

O machismo estrutural reduz, objetifica e tira a vida de mulheres sendo, também, a principal causa de agressões aos LGBTQIA+.

Que o machismo é estrutural e está enraizado no cotidiano da nossa sociedade, independentemente de gênero, etnia ou classe social, isso todos nós já sabemos. Entretanto, o seu processo de desconstrução faz-se cada dia mais necessário, tendo em vista estatísticas de casos que comprovam: o machismo mata! Mas você sabe o que é o machismo? Consegue identificar alguma atitude como essa? Você já presenciou ou foi alvo desse tipo de comportamento? Não precisa responder agora. Primeiro vamos, de uma forma bem simples, traçar uma trajetória sobre qual o significado e o que se permeia no conceito de machismo.

Segundo o dicionário Aurélio, o machismo é “A opinião ou atitudes que discriminam ou recusam a ideia de igualdade dos direitos entre homens e mulheres; Característica; Comportamento ou particularidade de macho; Macheza; Demonstração exagerada de valentia”. O significado informal do verbete traz ainda que machismo é o “excesso de orgulho do masculino; expressão intensa de virilidade; macheza”.

Em outras publicações e plataformas on-line de conteúdo, o significado de machismo associa-se à sensação de virilidade masculina exagerada e até mesmo como “responsabilidade de um homem de prover, proteger e defender sua família”. Depois de conhecermos como o machismo vem sendo significado, vamos tentar compreender um pouco desse comportamento historicamente enraizado em nossa cultura. Com a popularização das redes sociais isso tem ganhado notoriedade por meio de postagens com conteúdo agressivo que acabam incentivando agressões físicas e verbais, tanto em mulheres, quanto na população LGBTQIA+.

LGBTQIA+ na mira do machismo

Um dos entrevistados, que não vamos identificar, relata, por meio de capturas de tela, as diversas agressões on-line que vem recebendo por ser homossexual. “Tenho sido uma vítima recorrente disso na internet”. Dentre as postagens, estão imagens de camisetas nas cores do arco-íris, comparadas com as oficiais de times de futebol do Nordeste e os dizeres “orgulho gay x orgulho hétero”. Em outra publicação, são ofertados planos ilusórios a sócios-torcedores LGBTQIA+ de um time da Bahia com categorias denominadas “Plano Sócio Boiola”, “Plano Companheiro Feliz” e “plano arco-íris” divulgadas no Facebook. Tais provocações constrangem o direito de torcedores LGBTQIA+ escolherem seus times.

São atitudes machistas como essas que acabam por interromper projetos de vidas, como resume bem a assistente social e ouvidora-geral da Defensoria Pública do Estado Bahia, Sirlene Assis: “Acompanhei um jovem que sofreu violência física na Avenida Vasco da Gama (uma das principais vias públicas de Salvador), por ser gay. Os agressores bateram nele e disseram que iriam ensiná-lo a ser homem. Esse é o tipo de piada e jargão é inaceitável em nossa sociedade e tem ceifado vidas e sonhos da população LGBTQIA+, que sofre muito com esse machismo, com esse patriarcado”. Ela reitera que esse comportamento nocivo tem contabilizado prejuízos crescentes a essa comunidade. “O machismo vem destruindo vidas e sonhos. Várias mulheres vivem sob o jugo dos vossos companheiros e sob a violência doméstica, ao ponto de muitas delas perderem suas vidas. São vidas ceifadas por homens que deveriam amar e respeitar, isso não é natural e é construído”, completa.

Machismo ‘exposed’

Um grupo de mulheres relatou inúmeras situações de machismo vivenciadas | Foto: Adriana Pimentel

Na sociedade contemporânea, o que observamos é que o machismo, que outrora era bem mais velado, passou a ser, com muito mais frequência, denunciado. E essa coragem das vítimas tem sido reforçada, também, pela exposição on-line de agressores. No Twitter, por exemplo, a hastag “exposed”, que significa exposição, conta com publicações de denúncias, não apenas de atitudes misóginas, como de abuso sexuais sofrido por homens e mulheres.

Seguimos no desafio de fazer entender o que é esse tal machismo. Em um grupo formado apenas por mulheres, numa rede social, perguntamos se alguma delas se disponibilizaria a relatar uma situação machista que as fizeram, de algum modo, se sentirem incomodadas. “Uma situação? Tenho centenas”, respondeu a designer Gilfrance Araújo, 48. “Uma só tá difícil”, concordou a publicitária Paula Dutra, 40.

E as situações são diversas, como nos conta a estudante de jornalismo Beatriz*. Ela aceitou nosso desafio e fez um resumo de algumas das várias situações em que foi vítima de machismo. “Eu tinha 16 anos e trabalhava como jovem aprendiz em uma empresa de nome aqui em Salvador e recebia diversos comentários, como ‘Se você fosse de maior, não me escapava’ (sic), ou ‘ainda bem que minha esposa não trabalha comigo, porque eu trocaria ela fácil, fácil por você”. Beatriz completa que poderia citar muitos outros momentos vexatórios. “No meu antigo relacionamento, a pessoa falava que mulher não deveria receber mais que os homens, já que muitas vezes, eles que bancam elas”, conta.

Para diversas pessoas, entre elas Beatriz, foi em casa o primeiro contato com situações do tipo. “Até mesmo dos meus pais já sofri machismo. Da minha mãe ouvi que eu deveria arranjar um homem rico para me bancar. Eu trabalho, estudo, sempre fiz isso, desde os meus 16 anos, e nunca precisei de ninguém me bancando, a não ser a minha mãe. Meu pai também já rebaixou o meu intelecto falando que eu não deveria estudar, pois era para eu trabalhar, pois mulher não dá futuro estudando”, conta a estudante que discorda quando muitas pessoas associam o estresse exclusivamente a questões hormonais do período de tensão pré-menstrual (TPM).

“Eu estava acompanhando um evento que havia organizado. Ambiente de médicos e profissionais de saúde. Estava conversando com um dos palestrantes e chegou um outro. Começaram a conversar e, em determinado momento, ignoraram minha presença e começaram a fazer piadas machistas com cunho sexual. Me senti extremamente constrangida, não tive reação de falar nada, apenas de sair do local. Essa é a mais recente”, conta a relações públicas Thaiana de Castro, 33.

‘Menino veste azul e menina veste rosa’

Ao assumir o cargo de titular do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, afirmou que “menino veste azul e menina veste rosa”, ao enfatizar que uma “nova era” no País estava começando. Além de discriminatória, a frase da ministra trouxe ao debate a questão da ideologia de gênero tão discutida na primeira infância. Para a assistente social Sirlene, a desconstrução do machismo deve se dar na infância, em paralelo com a construção de uma política antirracista.

“Você deve construir uma política de equidade de gênero, tanto na educação e formação da criança nessa primeira infância, quanto na adolescência, além dos pais também combaterem esses comportamentos machistas que os filhos possam ter no dia a dia. A gente sabe que a formação é social e passa pela família, escola e pela sociedade. A criança vai interagir com outras pessoas e precisa aprender a não reproduzir essa cultura machista do patriarcal que tanto fere, machuca a vida e destrói sonhos”, explica.

Homens héteros contra o machismo

Pouco se fala sobre a desconstrução do machismo entre homens | Foto: Adriana Pimentel

Apesar dessas “tradições” perpetuadas, há homens heterossexuais que buscam desconstruir atitudes machistas entre eles. É o caso do professor Renato Xavier, 40, que prefere ser chamado de “Renato da Iara”, nome de sua esposa, também professora, com quem é casado há 13 anos e tem um filho. Para ele, o assunto era algo desconhecido da infância até meados da adolescência.

“Eu nem sabia se estava sendo machista, ou não, porque eu não tinha a consciência que estava agindo assim com a minha mãe e com amigas. Quando comecei a namorar, eu tive a sorte de ter conhecido mulheres que me abriram os olhos sobre isso. Foi quando eu comecei a perceber o que eu estava fazendo. Daí comecei a dar mais atenção ao que eu lia, ao que eu falava, ao ouvir colegas de trabalho e amigas. Então percebi o quão machista eu era e não me achava tanto assim. Passei a não reproduzir coisas que ouvia”, revela. O professor declara que, sem um referencial masculino de como agir de forma correta, por ter sido criado basicamente por mulheres, teve uma certa vantagem por escutar no dia a dia como deveria agir com elas desde cedo.

Pouco se fala sobre a desconstrução do machismo entre homens. Para Renato, muitas mulheres já vêm ajudando nisso por meio de denúncias mais frequentes. Ainda assim, é preciso muito mais atitude por parte dos homens: “Falta eles perceberem o que estão fazendo e somarem forças às mulheres, levando esse tipo de discussão adiante para rodas de conversas com outros homens. Depois de você despertar para essa questão, que é algo difícil de se desfazer, é importante não ficar calado quando um amigo ou parente toma uma atitude dessa, principalmente com aqueles que você já vê que têm uma inclinação a ser a favor do machismo. Isso faz com que essa discussão cresça e as pessoas escutem, sem achar que é mimimi ou bobagem”.

A educação escolar, bem como em família, Renato acredita que são pontos de partida para o início da mudança de comportamentos machistas: “Como professor, levo isso para sala de aula, apesar de que na minha área de ensino não tenho uma abertura direta para discutir sobre isso de forma estruturada. Mas quando o tema surge em sala de aula, ou qualquer tipo de preconceito que os alunos expõem, me sinto na obrigação de parar a aula para discutir aquilo com eles. Eu me vejo neste papel de lutar contra isso. A qualquer momento tem como desconstruir isso, mas depende da abordagem. Figuras que têm destaque na vida de alguém são para levar disseminar boas ideias. Eu falo com meu filho sobre qualquer sinal que possa aparecer sobre isso. As pessoas aprendem muito mais pelas suas atitudes, do que pelo discurso”.

No âmbito cultural, um espaço de pensamentos e opiniões livres, também é possível identificar contribuições machistas. Na região Nordeste, a figura do homem viril e chefe de família é fortemente chancelada como o modelo ideal para uma família de sucesso. O que, na realidade, é algo bem diferente. De acordo com o último levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as mulheres estão no comando em 45% dos domicílios brasileiros.

Novidade no cordel

A literatura de cordel, um ícone da cultura nordestina, que tem a poesia como base de conteúdo, há cerca de três meses, tem vivenciado um marco histórico, a partir do Movimento de Mulheres Cordelistas Contra o Machismo, segundo a cordelista sergipana Izabel Nascimento. A campanha com a hastag #cordelsemmachismo nasceu logo após mais um episódio dessa natureza dentro do universo do cordel, comenta.

“Em junho deste ano ministrei a primeira palestra do III Encontro de Cordelistas da Paraíba. No evento virtual, dentro do tema ‘O cordel como ferramenta de transformação social’, fiz um recorte histórico para denunciar o traço forte do machismo que também ocorre no cordel, e quis dizer com isso que não podemos vislumbrar uma transformação numa poesia que ainda não reconhece, não valoriza e sequer respeita o papel e o protagonismo da mulher cordelista”, explica Izabel.

Ainda segundo a cordelista, na palestra mesmo, foi possível perceber a resistência em algumas intervenções feitas por quem acompanhava o evento on-line. Entretanto, foi em grupos de Whatsapp e numa publicação postada no Facebook, na semana subsequente à palestra que o machismo se mostrou com mais clareza.

“Um grupo de poetas cordelistas resolveu polemizar o assunto e, não apenas me expor e atacar virtualmente, mas também julgar, questionar e agitar pautas hipotéticas sobre a minha vida, formação e atuação dentro do cordel. Esta não foi a primeira vez em que apresentei o tema numa palestra e isto sempre incomodou muitos homens, especialmente os que praticam atos machistas”, revela.

Ela diz ser essa a primeira vez que um grupo de mulheres se reuniu e resolveu organizar um movimento de denúncia e enfrentamento ao machismo no cordel e de ação em defesa de todas as mulheres cordelistas.

Izabel, lamentavelmente, não foi a primeira e não será a última mulher a ter sua capacidade profissional depreciada em consequência do seu gênero. “É importante mencionar que o machismo no cordel está além do comportamento dos poetas em relação às mulheres. Ele se expressa também na própria literatura, que registra e perpetua esta visão. Os inúmeros textos que desqualificam, xingam, ofendem e envergonham as mulheres e tudo o que faz parte do universo feminino também é uma expressão perversa que muitos poetas insistem em validar”, enfatiza a cordelista.

Outra forma de manifestação do machismo é a redução do poder de fala da mulher | Foto: Adriana Pimentel

Redução do poder de fala

Outra forma de manifestação do machismo é a redução do poder de fala da mulher e isso acontece tanto no ambiente de trabalho, como em casa e até mesmo na roda de amigos. “De uma forma geral, acho que muitas de nós já passamos por diversas situações semelhantes. Por exemplo, você está numa reunião falando alguma coisa e ninguém dá muita atenção. Em seguida um homem fala ou explica o mesmo que você está falando e todo mundo ouve e interage com ele. Ao longo do tempo, passei a me posicionar sobre isso e passei a ser taxada como a feminista”, relata a publicitária Paula Dutra.

“Todas as vezes que ia a botecos eu terminava indo para casa mais cedo porque eu não era ouvida porque ninguém conversava sobre assuntos que eu pudesse comentar. Até que um dia eu quis falar e ninguém me ouvia. Um deles reparou e chamou a atenção dos outros. Era um grupo predominantemente formado por homens. As únicas mulheres eram eu e a namorada de um deles, que também permanecia sempre calada”, conta.

Nos diferentes relatos é perceptível identificar uma mesma característica: o poder de fala da mulher desvalorizado pelo simples fato de ser mulher. Conseguiu se identificar alguma situação? Isso é o machismo. Apesar de não terem seus salários equiparados aos de homens que ocupam a mesma atividade no âmbito corporativo, muitas mulheres têm ocupado mais postos de trabalho em todo o País. E isso já é um grande começo, apesar de o Brasil ainda engatinhar na elaboração de medidas efetivas para a equidade de gênero.

“As políticas, tanto nacional quanto estaduais regulamentadas há alguns anos, foram importantes para a formação de políticas públicas. Mas que houve, nos últimos tempos, um retrocesso, principalmente na política nacional, onde o feminicídio, a homofobia e a transfobia têm aumentado. É preciso promover a igualdade independentemente de raça ou religião. É preciso respeitar a diversidade e que o estado brasileiro reconheça que é racista, machista, homofóbico, trans fóbico e comece a edificar ações mais concretas efetivas na vida da população”, explica a assistente social Sirlene Assis.

Ainda que a desconstrução do machismo nos pareça um pouco turva na contemporaneidade, a esperança se faz presente a partir da mudança na educação de uma nova geração de homens mais sensíveis às questões de gênero. “Acho que as pessoas estão aptas a aprender em qualquer momento da vida e a repensar as ideias que tem. Só não se repensa as ideias que não se tem. As atitudes fazem muito mais do que simplesmente falar. Isso é mais lento e tem abrangência menor, mas é significativo. Você procurar conhecer mais, se remodelar e trazer isso para o cotidiano faz com que as pessoas te enxerguem de forma diferente. Nós, homens, temos que compreender essa situação do machismo de tal forma que vire uma prática não ser machista e tratar as mulheres com a dignidade, respeito e a igualdade, que é merecido por qualquer pessoa”, enfatiza o professor “Renato da Iara”.

* Nome fictício.

A série Um Vírus e Duas Guerras vai monitorar até o final de 2020 os casos de feminicídio e de violência doméstica no período da pandemia. O objetivo é visibilizar esse fenômeno silencioso, fortalecer a rede de apoio e fomentar o debate sobre a criação ou manutenção de políticas públicas de prevenção à violência de gênero no Brasil. Parceria colaborativa entre as mídias independentes Amazônia Real, AzMina, #Colabora, Eco Nordeste, Marco Zero Conteúdo, Portal Catarinas e Ponte Jornalismo.

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