Guernica (1937), uma das obras mais famosas de Pablo Picasso, é um ícone da guerra espanhola e símbolo de luta contra o fascismo.

Os fins e os meios

Postado em 14/05/2020, 10:47

Esse sentimento de ruína que a iniciativa privada está vivendo com o isolamento social por conta da pandemia da Covid-19 é algo muito comum a várias áreas da sociedade brasileira que, por serem minoritárias, nunca tiveram visibilidade o suficiente para causar esta celeuma mundial.

Primeiro é muito importante, acima de qualquer tipo de ideologia política que você professa, atentar para o fato de que são vidas que estão se desfazendo. Vidas inteiras, muitos anos de trabalho, sacrifício e tempo. Obviamente, que, guardadas as proporções sociais, recortes de raça e de gênero, certos sofrimentos seriam incomparáveis. Mas quando ocorre na própria vida, quando acomete o ser específico, aquele que acorda e toma café da manhã todos os dias, cada pessoa tem um tipo de reação e de capacidade física, mental, emocional e psicológica para lidar com estas questões.

Comparar as mortes de CNPJ com as das pessoas é só uma jogadinha esperta para pautar as discussões acaloradas, dar dor de estômago extra a quem já está sem paladar há tempos com a política brasileira. Agora pensar que realmente não existam pessoas tanto por trás das estatísticas da Covid quanto por trás da derrocada econômica que estamos vivendo é um sintoma de nossa política polarizada há anos: é como se ou você fosse a favor de uma coisa ou de outra, sem admitir as complexidades que boiam no meio desse infinito.

Que a sociedade brasileira tem abandonado a capacidade de empatia e do pensamento complexo em detrimento de vomitar frases prontas, isso é claramente observável. Cabe a nós, os seres humanos individuais envolvidos nessa loucura a fazermos um mínimo exercício de ao menos imaginar, por um segundo, que se uma parcela da população sofre, toda a população sofre. Que a miséria não existe impune: o conforto que se vale da miséria alheia é um conforto cheio de medo. Se eu sou capaz de infligir essa violência com o outro para ter minha satisfação, é óbvio que o outro não vai hesitar em me tratar da mesma forma quando alternar os poderes. Por isso, não pode haver alternância de poder em uma sociedade acostumada com a crueldade: porque se você mata para manter o poder, quando ele sair de suas mãos você tem certeza que será morto. E conviver com esse medo diariamente deve mesmo destruir a capacidade de sentir de uma pessoa.

Para os colegas da iniciativa privada, do pequeno negócio do meu bairro, eu vou fazer um relato. Quando a classe artística ocupou prédios públicos pedindo o retorno do Ministério da Cultura, não era porque todos nós éramos esquerdopatas querendo a volta do stalinismo no Brasil.

Era porque milhares e milhares de trabalhadores e trabalhadoras da cultura, que vinham há 12 anos experimentando a possibilidade digna de vivermos de nosso trabalho, assim como você, vimos um movimento político afundar o setor.

Não precisou de pandemia ou isolamento social: vocês próprios viram isso ocorrer e não se compadeceram. Acharam que os artistas não trabalham, são sempre do contra, não têm valor para a sociedade. Acharam que fizemos isso porque “mamávamos nas tetas do governo”.

Pessoas com formações extensas e incríveis em diversas áreas. Fotógrafas, escritoras, atrizes, musicistas, dançarinas. Muitos com formação no exterior e nas melhores universidades públicas no país, com projetos reconhecidos nacional e internacionalmente, com empresas consolidadas (pequenas editoras, pequenos espaços culturais, grupos de teatro, pequenas produtoras) com trabalhos muito sólidos em suas comunidades de origem. Pessoas que tinham conseguido modificar a face de diversas cidades brasileiras, que tinham uma importância em suas comunidades e no cenário nacional. Pessoas geniais, um patrimônio inestimável de um país.

Isso tudo foi ressecado com um canetaço em Brasília. Desde 2016 nosso horizonte só se torna mais estreito e mais desolador. A pandemia não veio jogar uma pá de cal na arte, pois se ela está conosco há milhares e milhares de anos, mesmo sob as condições mais difíceis, ela é algo inextinguível. Mas não se engane, tantas outras coisas a que as pessoas se dedicam o são. Roupinhas para pets, embalagens bonitinhas, hambúrguer artesanal.

A balança do que é essencial vai mudar muito depois desse evento mundial, o maior acontecimento político-social-sanitário desde a 2ª Guerra Mundial.

A arte, os artistas, entenderam um recado em 2016, de que não cairíamos sem resistência, pois partimos de um pensamento mais cooperativo, tentando ser mais coletivos, tentando alertar a sociedade ao redor para o horizonte que se avolumava. Nesse percurso cometemos muitos erros, é claro. Mas agora vemos vocês passarem pelo mesmo processo humano: o de ver perdido o seu esforço, o seu trabalho, as suas perspectivas de vida.

E isso é muito dolorido. Mas não há justificativa possível para que, em ordem do salvamento individual, possamos conscientemente atirar milhares de pessoas à morte. Os fins não justificam os meios, nesse caso.

Ao invés de comemorar que vocês estão vivendo o mesmo que nós, classe das trabalhadoras da cultura, dizendo um grande “eu te avisei”, eu gostaria apenas de dizer que eu compreendo seu medo, que milhares já passaram por ele mesmo recentemente, e que infelizmente você embarcou no mesmo barco que nós, o das náufragas. Basta agora olhar ao redor. Reconhecer realmente quem está por aqui e quem não está, adquirir a capacidade de pensar no furacão da adversidade, desmontar prioridades, sonhar novos modos de vida, de sociedade, de amor, de alimentação, de cuidado. Isso a arte, a cultura e o pensamento científico e intelectual fazem muito bem. Eu diria que são as melhores companhias que uma pessoa à deriva pode encontrar.

Tão importante quanto escolher capitão do barco, é se certificar de que as pessoas ao seu lado possuem valores aos quais você se identifica e acha que vale a pena viver. Não é hora de encontrar uma causa pela qual valha a pena morrer. É hora de vislumbrar a vida em seu estado mais puro, cotidiano e finalmente sem máscaras. E isso pode ser um exercício muito doloroso no Brasil de 2020.




Barbara Biscaro é atriz/cantora e pesquisadora nas áreas do teatro e da música. É Doutora em Teatro pela UDESC e coordena, conjuntamente com outras atrizes, o projeto Vértice Brasil, voltado para a discussão e visibilidade do trabalho de mulheres criadoras no teatro.
Veja a coluna da Barbara Biscaro