Na noite de 28 de outubro de 2025, os complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, foram palco da Operação Contenção, uma megaoperação contra o Comando Vermelho que resultou na ação policial mais letal da história do país:  121 mortos, entre eles jovens negros de favela e também policiais, e 113 detidos. 

As imagens de corpos nas ruas, familiares em desespero e mulheres —  mães, filhas, tias, avós e companheiras —  tentando identificar seus mortos e proteger suas crianças expuseram, mais uma vez, o caráter profundamente racializado e territorializado da política de segurança pública no Brasil, que trata favelas como zonas de guerra e seus moradores como inimigos internos. Soma-se a esse cenário o aumento alarmante de feminicídios, o que exige analisar essas operações também à luz das violências de gênero que atravessam a vida das mulheres brasileiras.

Dias depois, enquanto os mortos eram contabilizados e avançavam as primeiras investigações, mulheres da Rede Amassuru — pesquisadoras, ativistas, jornalistas e defensoras de direitos humanos de vários países — reuniram-se para escutar, debater e disputar narrativas sobre o ocorrido, conectando o episódio a um padrão regional de militarização e “guerra às drogas” que atravessa a América Latina. 

Dessa escuta coletiva nasce este artigo, em formato de perguntas e respostas, com nossos nomes anonimizados por questões de segurança. Escrito a várias mãos e em duas línguas, ele oferece uma leitura feminista e latino-americana da violência armada. Uma leitura que afirma que as mulheres não apenas sofrem os impactos, mas denunciam, sustentam a vida, produzem conhecimento e constroem resistência. As respostas em espanhol foram traduzidas para o português. 

Como vocês viveram o impacto imediato da megaoperação e o que isso revela sobre o contexto atual?

Daniele D (Brasil): A operação foi vivida como uma guerra. Estudantes não saíam de casa e o cotidiano parou. A militarização das favelas, com caveirões e helicópteros, vem acompanhada de um discurso que normaliza exceções e letalidade. Populações negras e periféricas passam a ser tratadas como alvos. Quando alunos faltam e famílias mudam rotinas por causa dos tiros, vemos que não são casos isolados, mas um modo de governo baseado na exceção.

Lisseth L (Equador): Acredito que a operação justificou a repressão contra pessoas pobres e negras. Também preocupa que uma ação tão grande não tenha sido comunicada à polícia federal. Isso mostra que ela respondeu mais ao discurso político do que a critérios técnicos. As narrativas agravam o dano: muitas vítimas não eram criminosas, mas o discurso oficial as apresenta dessa forma e legitima a violência.

O ocorrido no Rio segue um padrão regional, também visível no Equador, onde os Estados usam a segurança pública para justificar violência contra setores empobrecidos e racializados.

Aila S (Colômbia/Brasil): O impacto da operação vai muito além do confronto com supostas organizações criminosas: revela como a lógica conservadora e autoritária da “guerra às drogas” funciona como dispositivo de controle social e racial, legitimando violências de Estado contra pessoas negras e pobres e consolidando desigualdades estruturais, produzindo um “inimigo interno” e reproduzindo o racismo institucional em toda a sociedade.

O que essa operação representa politicamente?

Renata G (Brasil): O que vemos é uma política de segurança baseada na lógica da guerra. A “guerra às drogas” precisa de inimigos, e essa figura foi construída nos corpos de pessoas negras, pobres e periféricas. Segurança pública deveria ser política pública, guiada pela Constituição e pelos direitos humanos. A operação revela o contrário: um projeto militarizado, em desacordo com a ADPF 635, que restringe ações policiais em favelas. Em vez de prevenção, redução de danos e serviços públicos, o que se oferece é letalidade e exceção.

Aila S (Colômbia/Brasil): Politicamente, a operação representa o fortalecimento de um projeto de segurança autoritário, que transforma a letalidade policial em ativo eleitoral.

A retórica de “combater o narcoterrorismo” converte operações massivas em demonstrações de força, ainda que não atinjam os núcleos decisórios e financeiros do crime organizado. Isso desloca o debate público de soluções estruturais (como reforma das polícias, política de drogas e políticas sociais) para uma agenda de confronto permanente. 

Que paralelos podem ser feitos com outros países da região, como Colômbia e Equador?

Katherine A (Colômbia): Deve-se ter cuidado ao usar Medellín — e a operação na Comuna 13 — como modelo exportável. Essa intervenção esteve marcada pelo conflito armado e pela presença paramilitar, um contexto que não existe no Rio. A queda da violência em Medellín respondeu a políticas urbanas e sociais, não a ações militares. Atribuir essa mudança à violência estatal é impreciso e perigoso. Ainda assim, a região insiste em fórmulas rápidas que não enfrentam as causas estruturais e geram graves impactos nos direitos humanos.

Lisseth L / Lorena V (Equador): No Equador, o processo de militarização da segurança está acelerado. A designação de determinadas gangues como organizações terroristas e as reformas voltadas a ampliar o controle armado marcaram um giro em direção a políticas de “mão firme”, cujo impacto recaiu de forma desproporcional sobre mulheres, bem como sobre comunidades negras e indígenas. Apesar de o referendo de 2024 ter aprovado reformas que permitiram a participação complementar das Forças Armadas em funções tradicionalmente atribuídas à Polícia Nacional, as causas estruturais da violência permanecem intactas. Como resultado, em 2025 o país registrou 6.797 mortes violentas até setembro e pode superar 9.000 assassinatos ao final do ano, uma taxa superior a 50 homicídios por 100 mil habitantes.

Aila S (Colômbia/Brasil): Os paralelos entre Brasil e Colômbia são evidentes no uso da “guerra às drogas” como justificativa para práticas militarizadas e seletivas que aprofundam desigualdades raciais e territoriais. Na Colômbia, décadas de políticas antidrogas intensificadas pelo Plan Colômbia produziram deslocamentos forçados, danos socioambientais e fortalecimento de grupos armados, sem reduzir o narcotráfico. No Brasil, operações policiais geram mortes em massa e criminalizam favelas, enquanto as estruturas econômicas do mercado ilegal permanecem intactas. 

Como a polarização afeta o debate sobre segurança?

Lisseth L (Equador):  No Brasil e no Equador, quem critica a violência estatal é tachado como “defensor de bandidos”. No Equador, as manifestações também foram criminalizadas. Nos protestos indígenas de outubro de 2025, o presidente chamou os manifestantes de terroristas, o que justificou uma forte repressão. Segundo o governo, houve mais de 140 detidos, enquanto organizações de direitos humanos contabilizaram mais de 200, além de três pessoas falecidas e atos de violência simbólica, como o corte forçado de cabelo. Nesse contexto, as mulheres enfrentam violências múltiplas, e o medo de se manifestar tornou-se cotidiano, tornando urgente ocupar o espaço público com nossas expressões.

Aila S (Colômbia/Brasil): A polarização transforma a segurança pública em disputa moral e partidária, obscurecendo suas raízes estruturais. Setores de direita defendem endurecimento penal e operações letais, reforçando a divisão entre “cidadão de bem” e “traficante” e legitimando violências em territórios negros e empobrecidos. Parte da esquerda busca discutir desigualdade e direitos humanos, mas é rotulada como “defensora do crime”, o que bloqueia debates baseados em evidências. 

Como a megaoperação no Rio de Janeiro se insere no clima regional de endurecimento e nas narrativas de “guerra ao narcoterrorismo” que vêm ganhando força na América Latina?

Renata G (Brasil): O alinhamento latino-americano com a “guerra às drogas” vem de uma política importada dos EUA nos anos 1970. Essa lógica direciona ações bélicas contra populações específicas, gera alta letalidade e não atinge os verdadeiros centros de lucro do narcotráfico. No Brasil, favelas e periferias são os principais alvos. As narrativas sobre a chacina se dividem entre celebração autoritária e denúncia de sua ineficácia. As experiências da região oferecem memórias de resistência e alternativas para disputar esse campo.

Lisseth L (Equador): Desde Bukele, a América Latina tem normalizado a repressão e a violação de direitos em nome da segurança. Violações à Constituição e ao Estado de Direito tornam-se aceitáveis, e a população é criminalizada. A extrema direita explora essa demanda por respostas rápidas com discursos que afirmam defender a democracia. Mas a democracia não se sustenta destruindo instituições nem serviços públicos. Democracia e liberdade pertencem a toda a cidadania e devem ser defendidas por todas as forças políticas.

Aila S (Colômbia/Brasil): A chacina no Rio segue o clima regional de endurecimento e reutiliza a narrativa do “narcoterrorismo” para justificar militarização e autoritarismo. Esse rótulo oculta quem realmente lucra com o narcotráfico,  redes econômicas e políticas de alto nível, e legitima táticas de guerra contra um inimigo interno. Países como Colômbia, Equador e El Salvador têm usado esse mesmo discurso para direcionar ações bélicas a populações pobres e racializadas. No Brasil, o padrão se repete: a operação não atinge as estruturas financeiras do crime. Em vez disso, produz efeitos simbólicos de força e normaliza práticas de exceção.

Como a militarização aprofunda as violências na vida das mulheres?

Natália P (Brasil): A militarização reforça controles misóginos em territórios dominados por facções e pelo Estado. Mulheres são punidas física e simbolicamente, e seus corpos se tornam alvos de controle. O discurso de “guerra” legitima ocupações violentas e ecoa no medo da população. As mulheres vivem essas camadas de violência sem alternativas reais. É urgente garantir políticas públicas que substituam confronto por cuidado.

Gabrielli T (Brasil): Mais da metade dos tiroteios ocorrem perto de escolas e isso recai diretamente sobre mulheres, que protegem crianças e lidam com o medo diário. Jovens são criminalizados sem considerar o abandono estatal e a falta de oportunidades que também atingem suas mães. A militarização amplia riscos e expõe famílias. Os CACs [Caçadores, Atiradores e Colecionadores de armas de fogo] fortalecem facções e agravam a circulação de armas nos territórios.

Lisseth L (Equador): As mulheres são as mais afetadas porque também são mães, esposas ou filhas daqueles que são criminalizados. Enfrentam pobreza, falta de emprego e precisam acompanhar processos marcados por recrutamento e abandono estatal. Muitos feminicídios no Equador ocorrem em contextos criminais, o que mostra como a violência armada atravessa a vida de mulheres e meninas. São elas que colocam o rosto, buscam justiça e sustentam a vida em meio ao sofrimento. Sua carga emocional e material é enorme e quase nunca reconhecida.

Aila S (Colômbia/Brasil): A militarização intensifica violências físicas, sexuais e psíquicas e recai de forma mais dura sobre mulheres negras. Elas assumem o cuidado em meio a confrontos, luto e medo, gerando sobrecarga e adoecimento. Masculinidades violentas do Estado e do crime ampliam riscos de assédio e violência doméstica. A violência armada reforça estruturas que controlam corpos e territórios. O medo constante reduz a participação política das mulheres e limita sua autonomia.

Alessandra JA (Estados Unidos/Brasil): Faz décadas que as feministas que atuam na segurança pública e também aquelas que pesquisam segurança fazem críticas à militarização e a maneira como a violência estatal tem implicações específicas e profundas para as vidas e corpos das mulheres, meninas e também pessoas LGBTQIA+.

Após um conflito, são as mulheres que cuidam dos sobreviventes e sustentam o luto. Frente à violência policial no Brasil, são as mães, esposas e irmãs que se organizam politicamente para pedir justiça por seus familiares. 

O feminismo antimilitarista tem atuado e buscado respostas contra a violência armada e massacres como o que aconteceu no Brasil em outubro de 2025. Por exemplo, o ativismo de Manka Eileen Epse Akwo aponta para a necessidade de organização coletiva de base que priorize as vozes das mulheres e das comunidades marginalizadas frente à militarização. 

A pesquisa de Izadora Xavier do Monte demonstra como diferentes grupos da sociedade civil brasileira têm nomeado, enfrentado e se organizado contra a militarização contemporânea no país. O feminismo traz a possibilidade de uma resposta prática e política transformadora quando o estado silencia e invisibiliza as vozes, perspectivas e também as vidas das mulheres.

Rose M (Brasil): As mulheres também atendem vítimas como psicólogas, defensoras e assistentes sociais. O sistema de justiça se diz neutro, mas integra a engrenagem que produz violência: o policial atira, o juiz autoriza, o Estado se exime. Elas lidam com as consequências que as instituições não assumem. A sobrecarga é emocional, política e profissional.

O que está acontecendo com as mulheres que pesquisam e falam sobre segurança?

Adriana M (Brasil): Há um padrão crescente de ataques a mulheres acadêmicas. Pesquisadoras sofrem misoginia e violência simbólica, como no caso da professora Jacqueline Muniz. Muitas precisam criar estratégias de proteção ao trabalhar com militarização e violência. Algumas até deixam seus territórios ao lançar um livro. A pesquisa vira também um risco político e pessoal.

Lisseth L (Equador): Acredita-se que as mulheres não podem atuar em temas de segurança, e sua capacidade técnica é desvalorizada. Em Quito, a secretária de Segurança apresenta resultados sólidos, mas ainda assim enfrenta machismo e misoginia institucional. A segurança continua sendo vista como território masculino. As mulheres precisam provar sua competência repetidas vezes. Essa deslegitimação também constitui uma forma de violência.

Aila S (Colômbia/Brasil): As mulheres que estudam segurança enfrentam riscos materiais, emocionais e políticos. Elas desafiam estruturas masculinizadas que tentam decidir quem pode falar sobre violência. Muitas relatam ter de “provar duas vezes”: conhecimento e legitimidade.

A crítica feminina incomoda e é atacada com desqualificação. Por isso, redes como Amassuru são vitais para proteção e fortalecimento.

Alessandra JA (Estados Unidos/Brasil): Amassuru surgiu como uma resposta às violências que pesquisadoras e profissionais  de segurança sofrem na região ao se posicionarem criticamente, ou simplesmente ao fazerem seu trabalho cotidiano. Não por acaso, somos uma rede de mais de 800 mulheres. Somos tantas porque vimos a necessidade de nos juntarmos contra os problemas concretos que vivenciamos: algumas vezes somos excluídas de um espaço de debate teórico, outras vezes sofremos linchamento público, como o que aconteceu com Jacqueline Muniz. Também assustador, há casos de feminicídio contra militares. Amassuru acompanha e se posiciona coletivamente sobre inúmeros casos, como o que ocorreu recentemente no Brasil, contra a cabo Maria de Lourdes Freire Matos, assassinada em um quartel no Distrito Federal.

Que lugar as mulheres ocupam na resistência e na busca por justiça?

Renata G (Brasil): As mulheres recolhem corpos, denunciam violações e exigem justiça. São elas que documentam crimes, reúnem provas e sustentam a vida em meio ao luto. Enfrentam impunidade e violência institucional enquanto protegem suas comunidades. Como pesquisadoras, também resistem ao descrédito e à desqualificação. A força vem da ação coletiva e da memória.

Aila S (Colômbia/Brasil): As mulheres lideram denúncias, movimentos de familiares e redes de cuidado. Documentam violações, pressionam o Estado e transformam dor em ação política. Carregam luto, reconhecem corpos e mantêm a memória das vítimas. Sofrem múltiplas violências, mas ainda assim sustentam resistência e justiça. Sua atuação é central, embora muitas vezes invisibilizada.

A Operação Contenção expôs, mais uma vez, como o modelo de segurança baseado na lógica da guerra produz morte, desigualdade e terror em territórios racializados. A militarização não afeta apenas a letalidade policial: ela atravessa a vida das mulheres como moradoras, mães, cuidadoras, pesquisadoras e defensoras de direitos, intensificando violências físicas, simbólicas e institucionais.

Isso ocorre num momento em que o feminicídio cresce de forma alarmante no Brasil, revelando que as políticas de segurança falham não apenas em conter o crime, mas também em proteger a vida das mulheres, especialmente negras e periféricas, que seguem sendo alvo de violência doméstica, comunitária e estatal.

Nesse cenário, as marchas nacionais de 7 de dezembro, convocadas para denunciar o feminicídio e afirmar o direito das mulheres de viver sem medo, ajudam a construir outra compreensão e possibilidade de segurança pública. Embora não tratem diretamente das dinâmicas de militarização, suas pautas e práticas coletivas apontam para um modo de enfrentar a violência que não depende da força, mas da construção de políticas públicas orientadas por uma ética de cuidado, prevenção e  justiça. 

As manifestações que tomaram as ruas mostram que proteger vidas exige mais do que respostas armadas: exige deslocar o centro da segurança para a dignidade e a preservação da vida. Nesse sentido, as marchas oferecem um caminho possível e valioso para imaginarmos e construirmos um futuro que rompa com a lógica bélica que estrutura o presente.

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