Márcia Mura, doutora em História Social pela USP, falou sobre a resistência indígena diante dos discursos recolonizadores/Foto: Jacy Santos @ondejacyviu

“O atual governo atualiza um discurso racista do século 19”, diz Márcia Mura

Postado em 16/10/2019, 21:38

Há semanas vimos diferentes biomas, conjuntos de ecossistemas, serem queimados no Brasil e em outros países da América Latina em um levante criminoso contra as populações que vivem em áreas de floresta. Além da Mata Atlântica no Parque Estadual da Serra do Tabuleiro em Santa Catarina, áreas de Reservas Ecológicas, Comunidades Ribeirinhas e Terras Indígenas no Cerrado e na Amazônia foram profundamente afetadas.

A doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Márcia Nunes Maciel, conhecida no Movimento Indígena como Márcia Mura por integrar o Povo Mura da região Amazônica em Rondônia, faz uma análise histórica para contextualizar o processo de colonização, desmatamento, queimadas, do seringal e da dinâmica cultural vivida na atualidade entre os grupos indígenas e não indígenas.

Em entrevista ao Catarinas, Márcia Mura revela aspectos históricos pouco conhecidos no sul do Brasil com relação ao processo de enfrentamento e resistência dos grupos indígenas na Amazônia.

 

CATARINAS – Márcia, você poderia fazer uma análise histórica sobre a Amazônia na perspectiva indígena?
Márcia Mura – Essa atualização de discurso hoje no atual governo que vem provocando todas essas ações destruidoras. A Amazônia sempre foi vista como se fosse um espaço vazio, um espaço que precisava ser ocupado e nunca foram considerados, desde a colonização até os dias atuais, os povos indígenas e, posteriormente, povos indígenas e populações tradicionais. Ainda na colonização, houveram tentativas de fazer com que as pessoas que eram enviadas de Portugal para viverem nas vilas, colonos entre outros colonizadores que eram incentivados a virem para o Brasil como um todo, mas aqui inserindo Amazônia, vieram a ocupar esse espaço como se ninguém habitasse. Os colonos pobres que não tinham terra para plantar e que eram mandados para o Brasil para formarem as vilas no intuito de avanço e domínio do território pela coroa portuguesa. Os principais chefes indígenas eram contactados pelos colonizadores e convidados a levarem seu povo às vilas para facilitar na colonização, alguns aceitavam outros não. As negociações prometendo benefícios ao povo desses principais, visando um tratamento deste como soberano, porém só com intuito de convencê-los a tirar seu povo do interior da floresta e levá-los para as vilas. Nunca se respeitou a soberania dos chefes indígenas e dos povos indígenas. Então, sempre teve essa intenção de fazer com que os povos originários fossem levados para essas vilas e passassem por um processo de “civilização” na percepção do colonizador. Muitos foram se desterritorializando nesse processo.

Na Amazônia, esse processo levou à formação de vilas que depois se tornaram cidades e, aos poucos, uma grande parte desses povos indígenas foram perdendo a especificidade diante dos não indígenas, sendo introduzidos na sociedade nacional. Enquanto projeto de embranquecimento, onde houve esses enfrentamentos. Os povos indígenas sempre resistiram, apesar de tudo, e mesmo os povos indígenas que perderam sua língua materna, que foram retirados os seus territórios, mantiveram-se resistentes. Aqui na Amazônia também tem povos que são considerados como se não  existissem mais, como se já tivessem sido dizimados, como no caso do povo indígena Mura no Rio Madeira, no Rio Autazes, Careiro da Várzea, em vários outros municípios do Estado do Amazonas que estão ali presentes fazendo sua retomada. Desde a colonização, esse propósito de dominar, de ocupar o espaço como se as pessoas que vivem aqui não tivessem nenhuma importância, no caso dos povos indígenas tratados como selvagens e que precisavam ser civilizados. Com esse processo de introdução do indígena à sociedade nacional e de intervenção dos espaços de seringais que vai se dar dentro dos territórios indígenas, fazendo com que houvesse esse confronto entre os seringalistas que mandavam os seringueiros para territórios indígenas e os indígenas que ocupavam aquele espaço. Esses seringueiros eram pessoas que já tinham sido desterritorializadas dos seus contextos territoriais indígenas, tanto aqui na Amazônia como também os que vieram de outras regiões do Brasil. Eu sempre falo quando as pessoas dizem “meus avós são do Ceará e aí eu tive uma bisavó que era indígena que é daqui da Amazônia”, mas a gente esquece de que lá no Ceará, lá no nordeste, também houve esse processo de colonização, de introdução desses indígenas de lá na sociedade nacional e quando eles vêm para Amazônia no período do seringal, período da borracha, eles vem com essa interioridade aí que está relacionada às suas origens indígenas e se depara com uma floresta, se depara com povos originários e eles acionam então todo esse modo de fazer tradicional. Por mais que tenha tido toda uma política de embranquecimento vão se criando resistências e mesmo hoje, por exemplo, nas comunidades ribeirinhas eles se denominam enquanto ribeirinhos, mas os modos de ser são modos de ser indígena porque a relação com a natureza se mantém, a relação com a floresta, a relação as águas, os modos de vida são modos de ser indígena, que é o que meu trabalho aqui na comunidade e especificamente na escola com os alunos.

Foto: Vanessa Generoso Paes

CATARINAS – Como o desmatamento está ligado ao processo desenvolvimentista?
Márcia Mura – Então nesse processo de ocupação da Amazônia, de domínio de território, pulando aí para década de 1970 houve toda uma política de ocupar o espaço vazio, “ocupar para não entregar” que era o lema militarista do presidente Figueiredo. E aí é aonde vai se fazer essa campanha para vinda de pessoas de outros estados brasileiros para a Amazônia e se dá continuidade à criação de fortes. Durante a colonização os fortes foram criados para proteger as fronteiras na disputa territorial entre portugueses e espanhóis, utilizando a própria mão de obra indígena para isso. Também depois da década de 1970 esses fortes voltam a cumprir essa função de proteger fronteiras.

Com esse lema “ocupar para não entregar” fez-se toda uma campanha para a vinda de pessoas de outras regiões do Brasil para a Amazônia. É mais uma leva de ocupação e nesse contexto vem a percepção de que tem que derrubar as árvores, aí vem a questão dos desmatamentos, as rodovias, entra a questão da Transamazônica que passa por cima de vários povos indígenas e, antes disso, vem essa ideia de “progresso”, de Revolução Industrial lá no século 19. Na época ainda havia essa questão de que uma parte do nosso estado de Rondônia era de Mato Grosso e outra do Amazonas. Tirando uma parte de cada estado se cria Rondônia, mas ainda em 1912 com a construção das linhas telegráficas e as estradas de ferro eles vão passar por cima de todos os territórios indígenas, vão desfacelar esses povos na parte que vem de Mato Grosso até atual Rondônia. Lévi-Strauss (antropólogo e filósofo francês), por exemplo, descreve que ele chega a fazer esse percurso de Mato Grosso até o atual estado de Rondônia, de onde ele vai chegar até os Nambiquara. Ele vai falar que encontra “restos de gente” e essa descrição não é etnocêntrica, porque de fato esses povos foram desfacelados. Hoje, os povos que conseguiram se reconstituir tiveram que fazer relação de intercasamento entre povos diferentes, de um povo com outro que antes era inimigo. Muitos que, durante o Serviço de Proteção ao Índio (SPI) no século 19 também passando para o século 20, foram retirados dos territórios e colocados em áreas que eram verdadeiros campos de concentração, eram obrigados a desenvolver trabalhos que não faziam parte de suas culturas, de suas tradições. Antes do SPI havia o Serviço de Localização de Trabalhadores Rurais. Esses indígenas eram retirados dos seus territórios e levados para uma área onde eles tinham que aprender o serviço de marcenaria e de construções, quem não fizesse apanhava e era castigado.  

Quando eu fiz o meu trabalho com o povo indígena Cassupá, as narrativas das pessoas traziam presente essa situação. Voltando para a década de 1970, assim como lá no século 19 foram feitas as rodovias passando por cima dos povos indígenas todos. Na década de 1970 são construídas as rodovias, como a Transamazônica, que vão passar por cima dos povos Tenharim, principalmente, e matar milhares. O ato de desmatar e derrubar árvores era um ato de progresso e de desenvolvimento incentivado por aquele governo lá militarista. Então, vem essa fase do desmatamento e até hoje tem essa visão de que a Amazônia é vazia, de que na Amazônia há grandes distâncias de deslocamentos entre um povoado e outro, e ainda não se considera as populações, os povos que vivem lá.

CATARINAS – Como você viu essa relação colonial nas notícias e na mídia?
Márcia Mura – Uma questão que me preocupou muito nas reportagens que foram feitas neste período das queimadas é que algumas categorias, algumas definições que já estavam resolvidas voltaram à tona. Muitas matérias importantes sim, necessárias, porém com umas chamadas que reforçam estereótipos sobre os povos indígenas, tipo “tribo da Amazônia”, “índios da Amazônia”, termos que já estavam em desuso, principalmente “tribo”, e que não cabem para a definição dos povos indígenas. Outra questão que me preocupou também nas visões de algumas notícias de jornais é de que… é como se as pessoas que vivem na Amazônia não soubessem cuidar da Amazônia e isso me preocupou porque voltou à discussão a questão da internacionalização da Amazônia, como se nós não tivéssemos capacidade de cuidar da Amazônia. E isso não é verdade porque só aqui no Rio Madeira, por exemplo, vários povos viveram aqui às margens desse rio, há mais de cinco mil anos, há pesquisas arqueológicas que comprovam isso, que o Rio Madeira foi uma região riquíssima de culturas e essa Floresta aqui foi deixada por eles. Aqui na Amazônia, desses povos que antecederam a nós. Ou seja, sempre teve gente, sempre viveram pessoas aqui na Amazônia e a gente sempre plantou, a gente sempre construiu, a gente sempre produziu e a gente manteve Floresta.

Mura na conferência de abertura do “I Seminário de História e Resistência Indígena na Amazônia: múltiplos olhares e múltiplas facetas” – “Nós indígenas existimos e resistimos: os Mura e a resistência indígena”/Foto: Jacy Santos @ondejacyviu

CATARINAS – Você poderia falar sobre essa onda de queimadas ou “dia do fogo”?
Márcia Mura – Infelizmente hoje muitas pessoas desligadas das práticas tradicionais acabam não tomando muito cuidado ao fazer uma queima para fazer um roçado, não faz bem o aceiro. Pelo menos o que eu vivencio, eu vejo que as populações tradicionais se preocupam com isso e mantém o seu modo o tradicional de plantar fazendo seus roçados e precisam queimar um pedaço, mas os que mantém suas tradições fazem nos aceiro para que esse fogo não se alastre. A gente viu que realmente houve um planejamento das pessoas do agronegócio para que Unidades de Conservação e Territórios Indígenas fossem incendiados criminalmente. Eu mesma, junto com o Coletivo Mura, nós estivemos na comunidade Maravilha que fica aqui do lado do rio de Porto Velho, no Rio Madeira, onde a gente presenciou que foi colocado fogo justamente numa área de Reserva Ecológica. Então, a gente vê que houve sim e que não é coincidência que esses fogos tenham acontecido justamente nas proximidades ou mesmo nas áreas de Unidade de Conservação e nos Territórios Indígenas.

Isso é uma ação direta de ataques a povos indígenas e populações tradicionais e o que me preocupa muito nesse governo atual é, justamente, essa atualização de discursos lá do século 19, de que ‘o indígena tem mesmo é que ser introduzido na sociedade nacional e deixar de ser indígena’. Atualmente, nós, povos indígenas, estamos recebendo ataques de todos os lados, são queimadas, invasões, assassinatos, mas a gente se mantém firme e forte. Gostaríamos que as pessoas não indígenas pudessem enxergar tudo isso que está acontecendo e não compactuar com esse tipo de visão preconceituosa, etnocêntrica, não apoiar esse tipo de ação que nos ataca, que viola os nossos direitos e que ameaça as nossas vidas.

CATARINAS – Há uma campanha por parte do governo pela mineração em Terras Indígenas (TI). Como você vê essa situação?
Márcia Mura – Sobre a questão da legalização da mineração nas terras indígenas, quando ele (Bolsonaro) diz que está querendo tornar o indígena independente para que ele possa explorar suas riquezas, na verdade esse governo quer mesmo é proporcionar que empresas façam esse tipo de exploração e o lucro todo vá para essas empresas, não não os povos indígenas que vão gerenciar e que vão manter esse recurso para a comunidade. O que a gente já vê acontecer em Terras Indígenas, onde tem a exploração de minério de forma ilegal, é o empobrecimento das comunidades, invasão, violação das mulheres indígenas, a gente vê só a desestruturação mesmo da comunidade. Essa imposição sobre a exploração de minérios infelizmente tem causado muita polêmica porque, como em todo povo, há sempre algum indivíduo que quer tomar atitudes individualistas. O fato de um indivíduo de algum povo ter interesse em explorar minério não representa a vontade do povo. Aqui mesmo em Rondônia, em Porto Velho, foi feita uma chamada para uma mesa redonda, no Instituto Federal de Rondônia (IFRO), sobre mineração com empresários e políticos locais e já começaram a chamar de audiência pública. Os indígenas se mobilizaram, foram mesmo não sendo convidados e fizeram suas contestações. Infelizmente tinha um indígena de Rondônia junto com eles, mas esse indígena não nos representa. Os povos indígenas não querem mineração, eles querem demarcação de seus territórios.

CATARINAS – Por que você escolheu morar em Narazé (RO)?
Márcia Mura – Nazaré faz parte de Porto Velho, é um distrito, é uma Comunidade Ribeirinha. Eu decidi morar aqui porque faz parte da trajetória da minha família, a maioria dos mais velhos que mora aqui veio de um lugar chamado Uruapiara que fica no estado do Amazonas, é um lago onde a ocupação originária é do Povo Mura, e depois dos Parintintim e dos Mura-Pirahã. Os Mura, originárinários da região de Uruapiara, acabaram se introduzindo dentro do espaço do seringal e se mantiveram os Parintintim e os Mura-Pirahã. Os Parintintim se mantém em seus territórios demarcados e os Mura-Pirahã são nômades e perambulam naquela região. Em Nazaré, existem várias famílias de diferentes povos indígenas que vivem aqui enquanto ribeirinhos. Para a minha tese de doutorado “Tecendo Tradições Indígenas” trabalhei aqui com a Comunidade de Nazaré, Humaitá, com Uruapiara de onde veio a minha avó, com uma outra comunidade que foi seringal também no mesmo período de Uruapiara, mas que hoje passou a ser Terra Indígena Mura demarcada, eles fizeram a retomada, e também a Terra Indígena Itaparanã na estrada que vai para a Lábrea. Fiz entrevistas e a partir dessas entrevistas construí narrativas para mostrar que, a minha tese era de que, esses espaços de antigo seringal em comunidades ribeirinhas eles mantém o seu modo de ser indígena, por isso o tema da tese é “Tecendo Tradições Indígenas”, que você pode inclusive achar no banco de teses da USP

No processo de construção de minha tese fui tecendo essas tradições indígenas e até explico isso, mas fui me aproximando de um grupo familiar que havia na cidade de Humaitá e propus a eles esse trabalho de reconstrução de memória da presença Mura no Rio Madeira; propus construir isso junto. Aos poucos nesse processo de construção de narrativas, de ouvir, de transcrever, de voltar, de ler, de reescrever, isso tudo foi também nos constituindo e, aos poucos, fui me tornando parte dessa comunidade também. Esse grupo familiar vivia na cidade e, hoje, mora dentro do território, e a gente luta junto para demarcação do território lá no Itaparanã. Esse território é minha base, não só minha, mas da minha família, meus filhos, meu companheiro, a nossa base cultural, nossa paz espiritual, nós damos suporte, apoio e fortalecimento político, acabamos de construir juntos o Protocolo de Consulta Livre e a gente está sempre buscando formas de contribuir para o fortalecimento político da comunidade. Também tenho a minha relação com os Mura de Autazes, Careiro da Várzea. Em 2018 e 2019 eu saí daqui de Porto Velho no mês de janeiro e fiz todo o percurso de barco, que é o percurso ancestral Mura para ir ao encontro que eles fazem lá só dos Mura. Fui muito bem recebida por eles e reconhecida, eles também reconhecem o nosso Coletivo Mura em Porto Velho, e também lá na época do doutorado cheguei a colocar essa experiência vivenciada na minha tese. Montei esse vínculo tanto nas Terras Indígenas Mura como também nas Comunidades Ribeirinhas aqui do Madeira, Amazônia. Costumo dizer que onde tem uma Terra Indígena Mura e onde tem uma Comunidade Ribeirinha é minha casa e meu território.

CATARINAS – Qual a relação que existia entre a mulher indígena e o seringal?
Márcia Mura – O seringal ou os seringais se constituíram na Amazônia inteira e eles foram constituídos em cima dos territórios indígenas, é onde se dá esse período da correria, ou seja, é quando os seringueiros a mando dos seringalistas saem em busca de capturar as mulheres indígenas para serem utilizadas como mulheres, como suas mulheres no espaço de seringal. Esses espaços se deram utilizando a mão de obra indígena não só Mura, mas também de vários outros povos indígenas da Amazônia.

Você já ouviu falar que é sempre aquela história: a minha avó foi pega à laço. Foi pega no dente do cachorro. Elas eram caçadas e capturadas.

Por exemplo, depois do processo de desterritorialização no Pará tanto indígenas desterritorializados como escravos negros serviam à população branca do Pará. A minha tataravó trabalhou para um patrão português e desse patrão português ela teve vários filhos, só que ela não pode criar nenhum desses filhos, foram criados por uma mulher portuguesa, tanto que a referência que a minha vó tem de avó é uma mulher portuguesa e a imagem da avó indígena foi totalmente apagada. Só foi possível reconstruir as memórias dela porque vou trabalhar com a história oral.

Quando eu vou para academia e eu utilizo então a academia como uma ferramenta para fazer essa reconstrução de memória.

CATARINAS – Qual a relação do Povo Mura com o seu território?
Márcia Mura – O enfrentamento dos Mura no Rio Madeira se deu desde o século 17 e 18, onde teve esse enfrentamento por 100 anos. Depois, com o avanço dessa colonização os Mura vão recuando mais para o estado do Amazonas e saindo daqui dessa parte que hoje é Rondônia. Porto Velho, por exemplo, é território ancestral Mura, inclusive, o Coletivo Mura do qual eu faço parte, a gente tem como reivindicação que o Estado reconheça Porto Velho como território ancestral Mura. A gente até conseguiu pautar isso, agora, na oficina do Plano Diretor. Depois desse período em que os Mura foram massacrados pelos colonizadores após resistir por 100 anos, os que escaparam desse massacre vão adentrar nos igapós, porque os Mura vivem navegando nas canoas.

Alguns estudiosos atribuem isso à perda da língua materna que se deu ainda no século 18. Os Mura se mantém dentro dos seus territórios vão falar o nheengatu, mas daí o processo de introdução na cidade é tão forte que, até essa língua eles deixaram de falar, embora em Autazes os Mura falem nheengatu. O imaginário social sobre os Mura é muito negativo e ainda pesa sobre nós, hoje, como se fossemos os piores dos piores. Uma das estratégias que os meus ancestrais utilizavam era destruir todas as plantações feitas pelos colonos portugueses para se estabelecer nas vilas. Então, como uma estratégia para que essas vilas não avançassem em suas vidas, colonizadores destruíram as plantações. Existem cartas por parte dos governantes à coroa portuguesa dizendo que enquanto houvesse Mura não haveria nenhuma plantação, nenhuma agricultura, nenhuma vila, nenhuma cidade, nenhuma civilização. Isso justificava, então, a guerra justa contra os Mura, e aí começa os massacres. E quando vai se introduzir esses Mura na sociedade dentro dos espaços seringais eles já desterritorializados e vão se silenciar porque essa identificação étnica não é mais passada para outras gerações, em um período em que era totalmente negativo ser indígena e principalmente ser Mura. Por isso que vai se criando esse estereótipo que se mantém ainda nos dias de hoje.

CATARINAS – Onde você estava no “dia do fogo”?
Márcia Mura – No “dia do fogo” eu não estava na Amazônia, por coincidência eu estava em São Paulo, porque eu havia ido para a Marcha das Mulheres Indígenas, em Brasília, e de lá eu peguei carona com as mulheres indígenas de São Paulo para participar de  algumas ações indígenas lá. No dia em que houve aquele fenômeno, quando escureceu o céu de São Paulo e todo mundo ficou desesperado, eu estava lá em uma atividade com o Levante Indígena da USP, que é um coletivo que eu contribuí na formação enquanto fazia o doutorado. Pelo menos uma vez ao ano, quando é possível, eu vou para a gente conversar e eu poder dar algum suporte para o grupo. Nesse dia estava numa roda de conversa e também articulando várias coisas durante o dia todo na USP. A partir das três horas da tarde realmente anoiteceu mais rápido e esfriou demais. As pessoas começaram a dizer que a fumaça tinha vindo de Rondônia. Fiquei desesperada porque eu estava longe, eu queria estar perto dos meus filhos, da minha família queria saber o que estava acontecendo, tentei falar com algumas pessoas, mas não consegui, consegui falar só no outro dia e aí fiquei sabendo de tudo que estava acontecendo. Assim que eu cheguei em Porto Velho fui direto lá na comunidade de Maravilha para fazer os registros do fogo que foi colocado na Reserva Ecológica. A gente está até fazendo um vídeo para poder colocar na mídia, na internet.

Com certeza essa estratégia das pessoas do agronegócio é, sim, uma afronta, é uma ação que é motivada por esses discursos do atual governo, um discurso que atualiza os discursos racistas lá do século 19, de que é preciso mesmo introduzir indígenas sociedade nacional, é preciso fazer com que haja exploração das riquezas de seus territórios, que não é mais para demarcar terra.

Era a frente capitalista que, tendo uma visão mais ampla desse agronegócio, vendo a frente capitalista que está ligada a questão da construção das hidrelétricas, a construção das rodovias,que está extremamente ligada ao agronegócio. As hidroelétricas além de exportar energia também forma os corredores de exportação da soja por meio das formações de hidrovias. Está tudo interligado, a soja com as hidrovias e as rodovias. Enfim, é uma frente capitalista dentro dessa configuração dos ruralistas do agronegócio querendo forçar a ampliação de suas áreas. O povo indígena Karitiana e Karipuna foram bastante afetados pelas queimadas, mas antes disso já vinham enfrentando ataques e invasões com ameaças de morte das lideranças. Outro povo bastante afetado por queimadas foi o Uru Eu Au Au, mas já vinham também enfrentando invasões em seus territórios. 

O Estado é cúmplice de tudo isso. As imposições do tal “desenvolvimento” só tem nos causado mortes, destruições do nosso mundo cultural e físico. Não é de hoje.

Márcia Mura na 1ª Marcha das Mulheres Indígenas em Brasília neste ano/ Foto: Zoroastra Infinita

CATARINAS – Você poderia falar sobre a representatividade do Cacique Raoni x youtuber Ysany Kalapalo?
Márcia Mura – Sobre a Ysany Kalapalo eu penso que ela saiu muito jovem do seu território e acabou adentrando nessa sociedade não indígena. Inicialmente ela se tornou conhecida por mobilizar milhares de pessoas na luta contra Belo Monte. Ela foi experimentando fama, poderes, talvez dinheiro, não sei, enfim, foi se corrompendo aos poucos, mas acredito também que a própria sociedade não indígena devorou ela enquanto uma menina indígena que sai do seu território e vai para cidade. Acabou sendo engolida por esse monstro que é a sociedade não indígena, na forma de capitalismo e todas as outras coisas na sociedade não indígena. Acredito que ela deve acreditar realmente nas coisas que ela fala, nas convicções que ela foi criando. Foi indo por esse rumo e acreditando nelas. Eu conheço outros indígenas que defendem, por exemplo, militares que são lá do Xingu porque eles têm uma relação próxima com militares, por esses levarem saúde, alimentos quando é necessário, enfim eles vêm os militares como aliados no Xingu. Eu tenho aversão a militares, representam tudo de ruim. Já para alguns lá do Xingu, eles já não tem essa mesma representação. Há um texto de Alcida Rita Ramos que traz uma reflexão sobre o índio hiper-real, li quando tinha 18 anos e lembro ainda hoje.

Essa questão de hiper-idealização do indígena, é como se ele tivesse que ser perfeito e quando não corresponde a essas expectativas se torna “o mau indígena”, ou seja, não é mais o bom selvagem.

Então, eu acredito que existem indivíduos que têm as suas opiniões que não representam os povos, é o caso dela que ainda muito jovem saiu do seu território para ir para cidade, uma grande capital, e foi engolida por esse capitalismo, caiu nessa tendência partidária que não corresponde à luta do povo. Não caiu num processo de formação que pudesse contribuir para ter essa visão. Eu cheguei a conhecer pessoalmente a Ysany Kalapalo, quando ela fez uma fala denunciando os interesses das empresas em relação aos minérios e sobre os impactos de Belo Monte. De repente, veio esse processo, mas acredito que é um contexto de toda a nossa situação que infelizmente acaba… acho que ela deve acreditar nas suas convicções para estar defendendo, mas está sendo manipulada, sendo usada, infelizmente. Vi alguns vídeos da Ysany, vejo que ela fala de questões que, digamos assim, não são mentiras, mas de uma forma descontextualizada e intencional que desvirtua a questão e favorece o discurso do governo Bolsonaro. Algumas coisas que ela fala sobre a cultura indígena, tipo ela pega uma informação que é correta e desvirtua, descontextualiza, e faz uso para fortalecer aquilo que o governo Bolsonaro defende. Assim também, como a Sílvia Walãpi, e todos os homens indígenas que defendem mineração e venda de madeira, não representam nós, mulheres indígenas.

Sobre o Raoni, acompanho a luta dele também, porque aqui no Rio Madeira a gente luta contra a hidrelétrica assim como ele sempre lutou desde novo. Quando tenho oportunidade de falar com ele no período do Acampamento Terra Livre eu falo, nessa última vez conversei com ele e me apresentei novamente, falei que admirava a luta dele, que a gente também tem essa luta no Rio Madeira. Ele me ouviu e falou que eu tinha tinha que continuar essa luta por ser muito importante. Ele é o cacique dos caciques.

Na Rio + 20 todos os outros caciques o chamaram de “cacique dos caciques”, é uma grande liderança sim. Esse Prêmio Nobel da Paz seria muito importante para a luta indígena, para a luta dos povos indígenas, por que ele representa justamente essa resistência ao capitalismo, a toda forma de cooptação da sociedade não indígena.

CATARINAS – Você se considera uma mulher indígena feminista? Como você relaciona ou interliga essas questões?
Márcia Mura – Em Rondônia, a Associação das Guerreiras Indígenas de Rondônia (AGIR) questiona a concentração de tomada de decisão na mão dos homens e se articula politicamente em defesa de seus territórios. Essa perspectiva também se dá nacionalmente. Me identifico com o feminismo comunitário defendido pelas hermanas bolivianas, tendo como referência Julieta Paredes (ativista feminista crítica à colonização). Para o feminismo comunitário é preciso haver respeito entre pessoas e das pessoas com a natureza. Julieta Paredes fala do patriarcado pré-colonial, colonial e pós-colonial. Fico preocupada com a incorporação de discursos feministas não indígenas pelas mulheres indígenas, por que não são da nossa perspectiva. Claro que estou falando do feminismo ocidental. Conheço a história de lutas das mulheres não indígenas, mas são outros contextos. Mesmo que problemas da sociedade não indígena nos afete, é preciso termos nossas próprias maneiras de pensar e se organizar.

As mulheres indígenas, à medida que passam a ocupar espaços nas frentes de luta em suas bases, na academia, na literatura e outros espaços, estão se apropriando das ferramentas não indígenas a favor de seus fortalecimentos, já estão desconstruindo estereótipos.

Kwekatu reté. Muito obrigada.

 

Notas da redação:

*Os povos indígenas são originários. Os povos tradicionais são ribeirinhos, quebradeiras de coco, dos seringais, dos faxinais, pescadores, uma população que se originou dos caboclos a partir da colonização.

**O direito à Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI)  é um instrumento contido na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) estratégico para a garantia de direitos de indígenas e de povos tradicionais.

***Silvia Nobre Waiãpi, assumiu a Secretaria de Saúde Indígena (SESAI) no atual governo. O Movimento Indígena criou #ForaSilvia por desaprovar a indicação.

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