“Eu estava voltando da natação, caminhando, quando percebi que um carro reduziu a velocidade e começou a me acompanhar. Até que alguém baixou o vidro e se achou no direito de me invadir, perguntando se eu acreditava em Jesus e dizendo que ele ia me curar. Ou seja: ofereceu cura religiosa para algo que não é doença”, relata o doutorando André Duarte, que é uma pessoa com deficiência física.

Não são raras as vezes em que pessoas com deficiência vivenciam esse tipo de situação. Embora o entendimento sobre essa temática tenha evoluído, sobretudo nas últimas décadas a partir de uma intensa mobilização acadêmica e social das próprias pessoas com essa condição, persiste na sociedade este tipo de abordagem:

capacitismo disfarçado de altruísmo, sustentado na ideia excludente do corpo sem deficiência como norma, provocando indignação, tristeza e sofrimento.

A deficiência é uma condição corporal que pode assumir diferentes formas e características e evidencia a diversidade da humanidade. A pluralidade das existências – legítimas – é fator de enriquecimento das experiências individuais e coletivas e demanda que a sociedade crie meios acessíveis para que todas as pessoas vivenciem em paz as relações sociais, com os espaços, as organizações e as instituições, usufruindo de reconhecimento e respeito coletivo. Oferecer cura para algo que não é doença é um modo de invadir, desrespeitar, deslegitimar e ferir.

Ofensivas capacitistas e neoliberalismo

Embora seja frequente, o capacitismo religioso é mais uma das “ofensivas capacitistas”, como definem as professoras Marivete Gesser e Marcia Oliveira Moraes. Segundo elas, são práticas que reiteram o capacitismo historicamente vivenciado pelas pessoas com deficiência e ameaçam os direitos por elas conquistados.

Tais ofensivas estão profundamente relacionadas ao neoliberalismo – sustentado, por um lado, no encolhimento do Estado e, consequentemente, de políticas públicas para redução das desigualdades; e, por outro, na responsabilização das famílias, que devem, em uma lógica privada e muitas vezes solitária, prover bens e serviços, como o trabalho de cuidado, historicamente relegado às mulheres. 

O contexto neoliberal também atravessa crenças e práticas religiosas, afinal, elementos como sucesso individual, meritocracia e prosperidade, sob esse entendimento, resultam da bênção de Deus, da fé que “move montanhas” e “cura” corpos considerados defeituosos, incompletos e até amaldiçoados.

Dá margem, ainda, a discursos irresponsáveis e eugenistas, como o proferido recentemente pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que relacionou, sem qualquer base científica, o autismo em crianças ao uso de paracetamol durante a gravidez. A comunidade científica e a Organização Mundial da Saúde (OMS) rebateram imediatamente as afirmações.

Em vídeo publicado nas redes sociais, a doutoranda em Educação na Universidade de São Paulo (USP) e fundadora do Instituto Caue, Mariana Rosa, afirma que a fala irresponsável de Trump mobiliza discursos eugênicos, segundo os quais a tragédia é a própria pessoa autista e não a falta de condições de suporte, as desigualdades no acesso ao cuidado, aos direitos e às condições de moradia.

“O contexto de precariedade de políticas públicas e da ideia de que o sujeito tem que ser empreendedor de si mesmo aciona a crença de que o autismo é um risco ao progresso individual e social. É uma crise, uma epidemia que precisa ser controlada com medidas drásticas. Assim, a gente naturaliza um projeto político eugenista. E é dessa forma que o capacitismo se entrelaça com o conservadorismo, o neoliberalismo e o fascismo”, ressaltou Mariana.

“A gente vai ter que contestar e disputar politicamente as bases da sociedade em que a gente quer viver”, completou.

Por isso, o jornalismo, enquanto produtor de sentido e como instituição que participa ativamente da construção da realidade social, ao lado de outros atores, precisa estar atento a esses discursos excludentes e desumanizadores. É preciso rebater de pronto afirmativas que hierarquizam e deslegitimam determinadas existências, como a de pessoas com deficiência. 

Além disso, diante do papel histórico na defesa dos direitos humanos e da cidadania que justifica sua relevância social, é urgente que o jornalismo construa discursos e práticas que fortaleçam a dignidade dessas pessoas e o seu direito de existir em plenitude. Dessa forma, contribui para que ninguém se sinta autorizado, tanto na esfera privada quanto na pública, a invadir o corpo alheio, oferecendo cura religiosa ou de qualquer outro tipo para algo que não é doença.

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    Jornalista, mestra e doutoranda em Jornalismo (UFSC), pesquisadora nos grupos Transverso e DhJor (Jornalismo e Direitos...

  • Luiz Henrique Zart

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