Mulher de origem indígena que sobreviveu à colonização tem sua história contada no palco em forma de ficção pelo Grupo Trama./Foto: Grupo Trama.

“Fanny, a rainha da cidade”: espetáculo retrata a trajetória de Francisca dos Anjos

Postado em 01/08/2019, 19:02

O ambiente do espetáculo passa por diferentes lugares de memória: o contato da mulher indígena com o homem branco, o processo educador para uma nova identidade cultural, a ousadia por assumir decisões próprias, absorção de novos hábitos, o uso do nome Fanny, uma inseparável bicicleta e sua “casa noturna”. Francisca dos Anjos, uma mulher de origem indígena que ficou conhecida como Fanny, viveu no período entre 1900 e 1994.

Quando jovem, casou-se com Eduardo de Lima e Silva Hoerhann do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), sobrinho bisneto do Duque de Caxias. Ele era responsável por pacificar os indígenas no Vale do Itajaí (SC) com o apoio do Estado para a implantação do empreendimento imobiliário de Dr. Blumenau que incentivou a colonização do território pela política de branqueamento da população.

Eduardo de Lima e Silva Hoerhann e Francisca dos Anjos de Lima e Silva Hoerhann/Foto: Enciclopédia Brusque 150 anos.

O violento contato cultural entre brancos e grupos originários fizeram com que Francisca aprendesse línguas como o alemão e o francês, além da língua portuguesa, distanciando-se de seu idioma nativo. Aprendeu a dirigir, atirar e caçar, usar o caiaque no rio, praticar esportes e vestir-se com a moda de Paris. Era elegante e muito educada, mas, com o passar do tempo, as diferenças com seu marido ficaram cada vez maiores e violentas. Fanny, apelido dado por Eduardo, tornou-se prostituta respeitada na cidade de Brusque. A trajetória dessa mulher que povoa o imaginário social da cidade do interior de Santa Catarina é resgatada na peça “Fanny, a rainha da cidade”.

“Com todas as pessoas que a gente fala a gente só ouve história de carinho, de admiração. Por ter essa origem indígena é inegável a gente fazer essa avaliação também de ela ser uma sobrevivente de um processo de onde a população indígena foi tão massacrada, alvo de um genocídio. A Fanny atravessou isso tudo. Ela se adaptou. Ela adotou a cultura do colonizador, mas também para sobreviver. E ela nunca deixou de lado as suas raízes porque ela recebia estudantes na casa dela para falar sobre a cultura indígena, mantinha objetos da cultura indígena em casa. Isso tudo fez com que a gente a admirasse cada vez mais”, explica Talita Garcia uma das escritoras do espetáculo e atriz que interpreta a protagonista.

Na peça há cenas que remetem à história dos indígenas da região, os primeiros contatos com os colonizadores e um canto gravado em língua nativa que representa uma passagem de canoa pelo rio. A escritora conta como foram construídas essas passagens indígenas para a peça. “Visitamos uma reserva indígena Xokleng/Laklanõ, localizada entre Ibirama e José Boiteux. Lá eles nos receberam, nos levaram até as ruínas onde ficava o Posto Indígena Duque de Caxias e a casa do Eduardo e da Fanny. A casa não existia mais, acabou sendo carregada após a construção da barragem, mas do posto indígena ainda tem alguma estrutura de pé. Os índios nos levaram até lá. A canção da cena do remo foi gravada lá por um senhor que nos recebeu”, explica a escritora.

A Barragem Norte foi construída em 1970 para amenizar as cheias no Vale do Itajaí. Uma obra inacabada que está trazendo problemas para a comunidade indígena Xokleng/Laklanõ.

Grupo Trama foi até as ruínas do Posto Indígena Duque de Caxias em Ibirama (SC), território do grupo indígena Xokleng/Laklanõ /Foto: Grupo Trama.

Há relatos que os antepassados de Francisca eram do grupo indígena Xokleng/Laklãnõ, mas na atualidade os membros do grupo não a reconhecem como parente. Alguns membros da comunidade indígena dizem que Eduardo buscou Francisca em Brusque e morou com ela no Posto Indígena Duque de Caxias. Na pesquisa realizada pelo Grupo Trama Francisca nasceu em Vacaria (RS), onde morou até os 15 anos. Depois teria se mudado com os pais para Ibirama (SC), casado nos anos seguintes com Eduardo, saindo de lá em 1939. Ela teria a intenção de se mudar para a Alemanha, mas a eclosão da segunda guerra a fez optar por Brusque. Há dados desconhecidos de parte da história. Na atualidade existe em Ibirama um museu com o nome de Eduardo de Lima e Silva Hoerhann. “Eduardo que era o pacificador, uma pessoa que teve muitos feitos em prol da reserva e contrário à comunidade, chegou a assassinar indígenas. É uma história muito complexa, tentamos trazer um pouco do que conseguimos absorver”, relata a entrevistada.

A obra de ficção é baseada principalmente na literatura e em relatos orais com o propósito de mostrar o símbolo de independência, resistência e empoderamento feminino que Fanny representa. Francisca dos Anjos, conhecida na cidade de Brusque como Fanny ou Dona Fanny, faz parte da memória da atriz por ser uma personagem que é parte do imaginário local.

Garcia nos explicou como foi a construção do papel para poder representar essa mulher nesse contexto. “Para mim foi uma honra. Eu sempre ouvi falar muito da Dona Fanny e ao longo desse processo me perguntei se o que eu estava fazendo estava à altura do que ela foi. Também me perguntei se a gente não estava talvez endeusando demais essa pessoa. Tinha os dois lados. A gente sempre procurava botar na balança. Será que a gente não teria se deslumbrado demais por ela? Ou será que foi muito mais do que isso? Será que a gente está avaliando todos os aspectos que a envolveram, o fato de ser mulher, prostituta, de ter origem indígena, tudo isso em uma Brusque no início do século. Ela ter se separado do marido, ter largado uma vida de luxo. Tudo isso é levado em conta na hora de tentar colocar a personagem no palco”.

Talita Garcia, jornalista e atriz no Grupo Trama /Foto: Arquivo Pessoal Talita Garcia.

A jornalista e atriz Talita Garcia que interpreta a personagem começou a fazer teatro em Brusque (SC) com 13 anos de idade no Colégio Cônsul. Fez uma pausa para estudar jornalismo, sua profissão de formação, e voltou para o teatro no ano de 2012 em Curitiba (PR). Participou da oficina montagem do Grupo Trama no centro empresarial, sendo uma das fundadoras. Ela fala sobre o processo de criação de uma peça com histórias locais. “A ideia da Fanny surgiu após uma apresentação que a gente fez de ‘Ao som dos teares’, nosso primeiro espetáculo. Percebemos que abordar histórias locais dava certo porque a gente conseguia trazer público em uma cidade com pouca oferta de teatro”, revela.

Conta que “Ao som dos teares” era um espetáculo sobre a tragédia da Vila Renaux, na casa da família proprietária de uma fábrica de tecidos na cidade da cidade. Um empresário foi morto em circunstâncias que até hoje não foram bem esclarecidas. “Depois dessa peça uma senhora que estava na plateia começou a conversar com a gente e levantou essa ideia da Fanny. A gente estava já querendo pesquisar outras histórias. Começamos a pesquisar sobre a Fanny e nos apaixonamos. Ela foi muito ousada na década de 1930: deixar o marido, vir para Brusque, assumir o que fazia e se fazer respeitar por isso. Tanto que é respeitada até hoje”.

Francisca dos Anjos, Fanny /Foto: Grupo Trama.

A pesquisa
Integrantes do Grupo Trama recorreram à pesquisa para obterem informações sobre Francisca no livro “Fanny, uma vida em perspectiva” (Grupo Uniasselvi, 2010), o capítulo “A bicicleta da Fanny”, do livro “Pedalando pelo tempo – História da bicicleta em Brusque” (Nova Letra, 2011), de Ricardo José Engel; o capítulo “Quem era Fanny?”, do livro “Histórias e Lendas da Cidade Schneeburg” (S&T Editores, 2009), de Saulo Adami e Tina Rosa; o capítulo “Fanny, a bugra carismática”, do livro “Quando os sinos falavam ao Vale” (Odorizzi, 2009), de Quido Jacob Bauer; o texto “Médico das moças da Fanny”, do livro “Doutor Nica” (DOM, 2012), de Saulo Adami e Jeanine Wandratsch Adami; e trechos do livro “Sentinela do Passado I”, organizado pelo professor Reinaldo Cordeiro, com crônicas de Laércio Knihs (Nova Letra, 2008). Outras fontes de pesquisa foram a reportagem “Francisca dos Anjos, a Fanny, símbolo da independência feminina”, publicada no caderno “Mulheres na História”, do jornal O Município, em 8 de março de 2018; a entrevista “Fanny, uma lenda viva de 90 anos”, publicada pelo mesmo periódico em 13 de julho de 1990; o artigo “No tempo das bicicletas”, publicado pelo jornal A Voz de Brusque em 20 de julho de 2002; a matéria “História de Fanny vira livro”, do blog História de Brusque, de 3 de janeiro de 2011; e a página “Francisca dos Anjos de Lima e Silva”, do site enciclopédia.brusque.sc.gov.br.

“Houve uma certa liderança que não foi só minha, mas também do Everton Girardi que é o diretor e faz o papel do Katangará, mas o grupo já estava em sintonia com essa história. Tudo que a gente pesquisava, livros sobre a Fanny, capítulo de livro, entrevista que ela deu para o jornal, tudo isso a gente trazia e iniciava o grupo com essas informações para que todos se envolvessem […] Foi algo coletivo mesmo, o que a gente fez foi uma criação coletiva”, analisa.

O espetáculo está na oitava sessão, sempre com lotação máxima. A montagem recebeu o patrocínio da Prefeitura de Brusque – através da Fundação Cultural de Brusque, com recursos do Fundo Municipal de Apoio à Cultura (edição 2018) e o apoio do Centro de Treinamento Sorjai, Griô Filmes, Livraria e Papelaria Graf, Raffcom e Renaux View. A realização é do Trama Grupo de Teatro.

#FannyARainhadaCidade faz parte da programação do 10º Festival de Inverno e encerra as festividades do 159ª aniversário de Brusque.

Sinopse
A casa de tolerância da Fanny vai de vento em popa na Santa Terezinha. Tudo o que ela não espera é retornar da lavadeira com uma notícia de tirar o sossego: algum desavisado esqueceu o pijama em meio aos lençóis de suas moças. O pior é que a peça íntima tem as iniciais do dono caprichosamente grafadas. Mas não há tempo para delongas: hoje é dia de receber amigos e clientes para mais uma noite que vai ficar na história da cidade.

Serviço
Fanny, A Rainha da Cidade.
Dia 04 de agosto de 2019.
Domingo às 19h.
Teatro do Centro Empresarial, Social e Cultural de Brusque – Cescb
Rua Pedro Werner, 180, Brusque (SC).
Duração: 1h15min.
Classificação indicativa: 16 anos.
Ingressos: Livraria e Papelaria Graf – R$ 20 (preço único).

Contatos
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