Quando o Instituto Marielle Franco nasceu, em 2019, ele foi mais do que uma resposta ao brutal assassinato de Marielle e Anderson. Foi, em verdade, um compromisso coletivo de transformar o luto em luta, de manter viva a memória de Marielle e seguir ecoando suas causas, vozes e projetos interrompidos pela violência. Desde então, nossa caminhada tem sido marcada por coragem, resistência e pela certeza de que nós – mulheres negras comprometidas com um senso de construção coletiva – não soltamos a mão de ninguém.

Nos últimos dois anos, vivemos, juntas, alguns dos momentos mais desafiadores e marcantes da história do Instituto. Fomos testemunhas do histórico julgamento dos executores e da prisão preventiva dos mandantes dos assassinatos de Marielle e Anderson, fizemos ecoar ainda mais o legado de Marielle pelo mundo afora, fortalecemos a consolidação da Bancada Marielle Franco junto às suas sementes na política, celebramos avanços importantes na luta contra violência política de gênero e raça no Brasil, e enfrentamos – como sempre e com coragem – os ataques de quem se incomoda com mulheres negras, faveladas, LGBTQIA+ e ativistas de direitos humanos ocupando espaços de poder.

Durante esse período, Lígia esteve à frente da direção executiva da organização, encarando a difícil e honrosa tarefa de liderar o Instituto em um dos contextos mais complexos do país. Em meio a retrocessos democráticos, violências políticas de gênero e raça e desafios institucionais, sua condução foi fundamental para fortalecer o Instituto, aprofundar estratégias e manter viva, no cotidiano, a presença política de Marielle.

Ao mesmo tempo, Luyara se aproximava ainda mais dessa trajetória. Como filha de Marielle e integrante da equipe do Instituto, viveu intensamente o atravessamento entre o pessoal e o político, compreendendo, de forma coletiva, que cuidar da memória da mãe é também assumir um compromisso público com todas as pessoas que ela representava.

Foi desse encontro, de nossas histórias e escutas compartilhadas, que sentimos, com muita conversa e afeto, que era chegada a hora de uma mudança. E, para nós, em uma organização negra, periférica e liderada por mulheres, transições não podem ser apenas processos administrativos — precisam ser construídas com cuidado, planejamento, afeto e compromisso político.

Esse processo se dará às vésperas do ano de 2026, politicamente simbólico em muitos sentidos. Uma década desde a eleição de Marielle Franco para a vereança da cidade do Rio de Janeiro. Uma década desde o golpe contra a ex-presidente da República, Dilma Rousseff, e de todos os seus ataques à democracia brasileira nos anos que se seguiram. Uma década desde a primeira eleição de Donald Trump à presidência, de uma guinada da extrema direita nos Estados Unidos e que se seguiu em várias partes da América Latina e da Europa. E dez anos de luta para que mais pessoas como Marielle pudessem seguir desafiando aqueles que não nos enxergam, que não defendem uma agenda de direitos para todos e que não tem qualquer compromisso com a luta pela garantia de bem-viver para toda a sociedade.

Nesse tempo, pouco a pouco fomos repaginando estratégias para desafiar a lógica tradicional das estruturas de poder e ampliar presença em espaços historicamente hostis para pessoas como nós. 2026 será um marco para o Instituto e para o Brasil, com mais um ciclo de eleições gerais que se avizinha. Dessa vez, seguimos atentas à continuidade da força política do fundamentalismo religioso, da questão climática e da disputa por terras (capitaneada pelos chefões do agronegócio) e pela agenda lucrativa da violência armada. No ano que vem, a disputa sobre o projeto de país que queremos construir estará mais forte do que nunca e por isso seguiremos lutando para disputar quem poderá se sentar à mesa para fazer deste um projeto popular e coletivo, que represente verdadeiramente os interesses do povo brasileiro.

E se um dia Marielle questionou sua solidão enquanto mulher negra no política, hoje levantamos nossas vozes para defender que esse projeto de país deve não só ser liderado pelas mulheres, mas também radicalizar uma agenda inegociavelmente feminista, anti-racista, em defesa da luta trabalhadora e daqueles que sempre são ainda empurrados para as margens do poder. E quem

deverá seguir ainda mais na linha de frente são todas aquelas pessoas que tiveram as suas vidas atravessadas por essas desigualdades.

É nesse contexto que, com muito orgulho e compromisso, a partir de agosto de 2025, Luyara Franco assume a direção executiva do Instituto Marielle Franco.

Para mim, assumir essa posição é um marco que carrega muitas camadas: ser filha de Marielle, ser uma mulher negra e favelada ocupando um lugar de liderança institucional, e, acima de tudo, entender que esse espaço é coletivo. Ele pertence a todas as pessoas que vêm construindo e sustentando o Instituto desde o primeiro dia.”

 Essa transição simboliza mais do que uma mudança de liderança. Trata-se da reafirmação de que o Instituto Marielle Franco é construído a partir de muitas mãos, muitas vozes, muitas histórias. E que a continuidade desse projeto só é possível quando respeitamos os tempos — os institucionais e os pessoais —, cuidamos umas das outras e garantimos que nenhuma memória se perca no caminho.

Hoje seguimos juntas. Aos poucos passando a caminhar por trilhas diferentes, mas profundamente alinhadas ao mesmo compromisso de sempre: manter as ideias de Marielle vivas. Porque, para nós, memória é ato político. E cuidar dela, construir continuidade e preparar novas lideranças é a forma que encontramos de garantir que Marielle Franco continue lutando por todas nós.

Por Lígia Batista e Luyara Franco

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  • Lígia Batista

    Lígia Batista é diretora executiva do Instituto Marielle Franco. Formada em Direito, pesquisa sobre representação políti...

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