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Coluna da Joanna Burigo

Pílulas de discernimento: influencers

Postado em 10/11/2021, 12:02

Cultura influencer

A cultura influencer é feita de retórica inflamada para falar com autoindulgência sobre coisas mundanas de forma rasa. O influencer, inclusive a influencer feminista, ganha adesão de público não pelo que fala ou pensa, mas pelos afetos que consegue mobilizar para si, publicamente.

O negócio (literalmente) é ser amada ou odiada, ou rechaçada ou celebrada, por gerar conteúdo que gera comoção. “Educação” e “comunicação”, para o influencer, são meras linguagens-caminho para fazer o que está sendo pago para fazer, que é: entretenimento. Patrocinador, afinal, gosta de audiência, não de subversão de hegemonia. Haja discernimento.

Vem Kafka comigo

Tendo dito o que acabei de dizer sobre a cultura influencer e as confluências que ela reforça entre educação e entretenimento, reforço também que essa confluência tampouco é nova, nem exatamente totalmente detrimental. Por exemplo, aprendi que existia um Kafka por causa da barata da banda Inimigos do Rei, famosa na minha infância.

Eu, com 10 anos, adorava a música e entendi rapidinho que era uma piada chique. Sem Google, fui perguntar pra minha avó Cicy do que se tratava aquilo. Só li o texto mesmo depois de crescida, quando me dei conta de que sou lida – e ao mesmo tempo – como as baratas do Kafka e a do hit de 1989, infelizmente com muito menos pudim. E, vejam: ao fazer esse comentário, faço exatamente aquilo que critiquei na cultura influencer. A vida, como o ponto que ofereço nesta nota, é complexa.

Delírios da fama

Em ocasiões separadas por dois anos, e já há anos, conheci duas moças muito jovens e bem sucedidas, cujos trabalhos causaram impacto e tiveram influência positiva e feminista na cultura e na sociedade. As duas são sujeitas universais: cis e brancas e sem nenhuma deficiência aparente, e não revelo quem são porque isso realmente importa pouco para o argumento que viso fazer.

Conto isso porque venho enquadrando a cultura influencer de forma bastante crítica, e estas interações ajudam a ilustrar um elemento relativamente delirante do sucesso. Quando as conheci, as duas me trataram como se eu estivesse pedindo conselhos. Abordei ambas para parabenizá-las por seus trabalhos, e sem que eu pedisse, as duas passaram a me dar dicas do que fazer com os meus projetos feministas. Seria esse mau hábito de confundir sucesso de público com eficácia feminista consequência da cultura da fama, manifesta na era das redes sociais também como cultura influencer?

Cancelada?

“Cancelamento” é paranoia millennial. Non ecziste na realidade concreta. O que existe na realidade concreta é violência e morte. Assim, a ideia de “cultura do cancelamento”, e toda a produção adjacente a este conceito falacioso, são exatamente o tipo de ar quente, fumaça e palavredo opinativo que frequentemente digo sair diretamente da cultura influencer para encher o debate público de distração, ou seja, de entretenimento. “Cancelamento” não é nem um conceito; é um drama individual que só foi tornado coletivo pela reverberação que encontrou na internet.

Fragmentada

Se engana quem pensa ser estratégia minha escrever em fragmentos. Isso acontece, acredito, por efeito da própria fragmentação da expressão, tão característica das redes sociais. De todas as redes sociais. Registro o pensamento em fragmentos, a medida em que ele me ocorre em fragmentos, por via das interações igualmente fragmentadas que temos nas redes.

(Paranoias que entretenho: a autoindulgência de pensar se pensam sobre o que escrevo, e a McLuhaniana de sempre: se me expresso e confesso até pensar em fragmentos, é por conta da fragmentação da expressão facilitada pela forma das plataformas das redes sociais, que consolidam o meio, afinal, como mensagem?)

Lembrete: não atirar no mensageiro

Na esteira de uma bela frase do Diogo Marciano (“Quem se apaixona pelas armas no fundo não quer que a guerra acabe.”), e voltando a falar em estratégias de escrita, a minha há anos é revelar a palhaçada, e não expor o palhaço. Já fui enquadrada até como covarde por causa disso, o que me faz rir, pois essa minha decisão profissional vem do meu conhecimento formal sobre, e experiência prática com comunicação social. É estupidez atirar no mensageiro, e inimigo online é como bolo: quanto mais bate mais cresce.

Não me interessa implicar com alguém a ponto de escrever ou falar sobre alguém pois meu enfoque analítico-crítico é direcionado a fenômenos, especialmente os que ilustram repetições sistemáticas de preconceitos pautados no corpo, particularmente os de gênero, sexualidade, raça e nacionalidade. A internet gosta mais de performance guerreira do que de parcimônia pedagógica, mas sigo satisfeita com meu trabalho feito à base de observações da materialidade concreta do real,  diálogo e produção coletiva, e o discernimento que vem na sequência destas escolhas.

Ninguém é mais nem menos mulher…

…por consequência do interesse sexual que recebe ou não de homens cis. Insistir nesta premissa, além de ilógico, só contribui com a manutenção da centralidade da perspectiva do homem cis como definidora do que é ou não mulher. É também bastante ingênuo e juvenil pensar que homens cis, como grupo, se ocupam de refletir acerca de questões de gênero a partir de outra coisa que não o próprio desejo.

…por consequência do volume de significantes de feminilidade que emprega ou emana. Insistir nesta premissa, além de ilógico, só contribui com a manutenção da centralidade da perspectiva da feminilidade como definidora do que é ou não mulher. É também violento e juvenil pensar que as pessoas que se ocupam de refletir acerca das suas questões de gênero só o fazem a partir do próprio desejo.

Agora o identitarismo foi longe demais

O recente vídeo da #ONU, em antecipação ao #COP26Glasgow, no qual um dinossauro dá lição de moral na humanidade a partir da própria experiência de extinção, consolida a instituição como:

(a) moderna e alinhada com a cultura influencer;

(b) ultrapassada, cringe e prestes a ser cancelada;

(c) satírica do vazio crítico chamado “identitarismo”;

(d) todas as anteriores;

(e) nenhuma das anteriores.

Conservadorismo patriarcal feminista?

As feministas “críticas de gênero” sabem que estão fazendo a mesma “crítica” que os setores mais conservadores e patriarcais da sociedade? Aqui no Brasil, por exemplo, elas estão discursivamente alinhadas com fundamentalistas cristãos e bolsonaristas. Não é a Butler quem diz isso: basta prestar atenção nos decretos e leis de controle da linguagem se multiplicando país adentro, ou, desde essa semana, no Diário Oficial da União

Ataque dos clichês de Hollywood

No especial “Attack of the Hollywood clichés” disponível na Netflix, os clichês e tropos da indústria do cinema são muito bem compilados, apresentados, ilustrados, avaliados e comentados. Embora o texto e a apresentação de Rob Lowe tenham mirado em woke e acertado em cringe, e apesar de o especial ter entrevistado o homem que desvelou o tropo da “manic pixie dream girl” sem ter sequer mencionado Anita Sarkeesian ao revelar o mesmo princípio Smurfette que ela articulou, vale assistir. (Alunas da Escola Feminista Antirracista Emancipa Mulher, da qual sou professora, vão reconhecer várias referências feitas em aula!)

Paciência e sapiência

Paciência e sapiência é o que desejo para mim mesma e todos nós, não exatamente o que tenho de sobra para oferecer. Discernimento, gente!




Joanna Burigo trabalha com comunicação e educação feminista sobre gênero. Atuou no mercado de publicidade e marketing, e também como professora, no Brasil e no Reino Unido. Cofundadora do Guerreiras Project e Gender Hub e fundadora da Casa da Mãe Joanna, é MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. É conselheira do Portal Catarinas, coordenadora da Emancipa Mulher e curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk. Seus textos podem ser encontrados em Carta Capital, The Intercept Brasil, Geledés e outras publicações.
Veja a coluna da Joanna Burigo