Imagem do filme “As Fantásticas Aventuras do Barão” (1988), referência à obra “O Nascimento de Vênus” (1486), de Sandro Botticelli.

Coluna da Joanna Burigo

Pílulas de Discernimento: linguagens (d)e gênero

Postado em 20/10/2021, 15:59

Introdução…

Na segunda-feira 18 de outubro vi no Instagram um cartum do Alan Sieber que dizia assim: “Todes ficaram burres”. Isso me levantou duas perguntas. A primeira, se quem fala esse tipo de coisa acredita mesmo ser o que sobrou da inteligência.

A segunda, o que acomete sujeitos para que determinem a inteligência alheia ao mesmo tempo em que não enxergam o furo no próprio conhecimento? Ignorância? Má-fé? Soberba? Leviandade? Privilégio? Nenhuma destas? Todas as anteriores? Não sei. 

Estas angústias, é claro, na hora em que me atravessaram, não se manifestaram em mim sob a forma eloquente e levemente debochada das perguntas que compuseram o parágrafo acima, mas como irritação. A retórica que acabei de usar já veio de uma Joanna que processou os sentimentos causados por esse tipo de asserção leviana e oriunda de pânico social atrelado a novas linguagens de gênero. 

A exasperação do momento me pôs a escrever quase que compulsivamente a respeito disso, puxando um ponto que faço com frequência: a masculinidade, a cisgeneridade e a branquitude são marcadores de identidade que parecem fazer com que sujeitos lidem muito mal com questões e tensões de gênero e raça. 

As notas abaixo foram sendo adicionadas no meu Facebook no intervalo de tempo entre ter visto esse cartum e a publicação desta coluna. Foram três dias. E, nestes três dias, além do já mencionado cartunista, outros dois homens cis brancos, bem colocados e respeitados em suas áreas de atuação profisional, porém visivelmente sem nenhum ou com parco conhecimento sobre a literatura, autoras/es e debates teóricos da área de gênero, se manifestaram publicamente contra, e cada um à sua maneira, a “linguagem neutra de gênero”.

Todos sendo levianos ao criar polêmicas desnecessárias (e duríssimas de desfazer!) sobre uma pauta importante, a partir de premissas e analogias falsas sobre estudos de gênero, e sendo soberbos ao qualificar as tensões e novas relações entre gênero e linguagem como boçalidade ou delírio.  

Nas notas abaixo, levemente editadas dos meus posts do Facebook para o formato desta coluna, como é costumeiro aqui, expando mais estes pontos, e dou nome aos bois.

Esquadrão Drag

Ninguém está sugerindo que vamos entrar nas escolas e empresas em drag de armas fake em punho gritando “mãos ax altx, isso é uma assalta à gramática assassinate de lógique, ninguém se salva por ser hétero y ninguém sai vivo, nem os binário!”, e bam pow boom, sai fazendo espacate e jogando bombas de purpurina. (Mas se alguém for fazer isso, por gentileza registre nas redes sociais? Grata.)

Você pode substituir a ansiedade que escrever “bem-vindes” causa com dar “boas-vindas”, por exemplo. O propósito de pensar em gênero e linguagem é incluir as pessoas. Todas as pessoas. Ou, como a gente também diz, todes. Há novas falas e estudos sobre novos usos de gênero na linguagem, reconhecer isso não é exatamente a mesma coisa que fazer perseguição policialesca das falas das pessoas, sim? Discernimento, gente.

Problemas de gênero

Gente, entendam: os novos termos de gênero que são utilizados pela população e analisados posteriormente por estudos formais, ou mesmo os que surgem da formalidade dos estudos e depois são incorporados no debate público, eles não existem para significar ou dar significado para o que as pessoas tenham ou não que ser ou sentir ser ou dizer sentir ser rígida e intransponivelmente.

Termos, tais quais “cis”, “trans”, “não-binário”, “intersexo” e tantos outros mais, são vocábulos, palavras necessárias para dar conta da complexidade e amplitude das manifestações de gênero que, de fato, e x i s t e m.

Todo mundo tem uma opinião sobre gênero, mas nem todo mundo tem a dimensão da complexidade e amplitude da área, e tende a dar opinião furada, pois só enxerga gênero a partir da sua própria perspectiva costumeira.

E há feministas que se dedicam a gênero como área de estudos. Eu sou uma delas.

Concorda?

Outra coisa que tenho notado, e acho importante registrar.

Em discussões sobre conceitos que dão nome a fenômenos que existem, e práticas desenvolvidas por especialistas para lidar com eles, concordar ou discordar com o que diz o especialista não é exatamente relevante.

O especialista raramente fala do tema em que se especializa a partir de suas vontades e desejos. Isso quem faz é o charlatão. O especialista fala a partir da profundidade dos estudos que o tornam… especialista. O especialista considera sempre as possibilidades, análises e críticas já existentes ao oferecer um parecer.

Acordos e desacordos com o ponto em questão são questões que o especialista levou em consideração antes de oferecer o parecer. Esse é o papel do especialista.

Além disso, concordar ou discordar das coisas é bastante subjetivo, e nem sempre adequado. Podemos concordar ou discordar se o sorvete sabor morango é melhor do que chocolate, mas não que a composição da água é H2O. Certas coisas não cabem no nosso afã de acordo. Elas são, e o que é preciso é compreendê-las, e seus contextos, e não contestar suas existências.

Muitos problemas de gênero

Um dos maiores problemas de gênero é que muita gente dá pareceres sobre teoria e estudos de gênero não a partir das teorias e estudos de gênero, mas sim partir de seu campo teórico de estudos, na direção de gênero, e muito da crítica e comentário acaba sendo “””informado””” por impressões de quem conhece pouco ou nada da teoria que, de fato, circula nos estudos de gênero.

É vergonhoso, e bem visível principalmente quando as comparações que empreendem não têm pé nem cabeça, são analogias entre semelhanças sem equivalência. Mas quando a gente que conhece a teoria e os conceitos aponta isso, tem quem não queira enxergar, e, por conseguinte, que não vendo que acaba se angustiando com, e debatendo questões falaciosas, pois partidas de premissas falsas.

Quem entende os conceitos e a amplitude e contradições do debate teórico não se emociona nem se abala com qualquer pilantra opinativo. Gênero é uma área gigantesca de estudos.

Nomes aos bois

Também na segunda-feira me foi enviado um texto em que o jurista e homem cis branco Lênio Streck endossa um texto cuja manchete dizia que falar “corpos com vagina” é coisa de boçais, perguntando “qual é a próxima, ‘corpos com testículos’?”.

Não é “a próxima”. Já falamos assim.

E boçais são eles, que falam “com” propriedade e autoridade sobre um tema que visivelmente não entendem.

Me pergunto por que será que descrever as coisas pelo que elas são — como aliás Tolstói recomendava — incomoda tanto algumas pessoas.

Mentira, não “fico me perguntando”, não. Vou lá e pá: estudo.

Que desrespeitoso é esse mau hábito de interpelar constantemente os estudos de gênero com textos e entrevistas de ar quente e opinião furada.

Modinha?

Como podem pensar que a realidade da diversidade não binária da *fisiologia* humana é MODA? Realmente, o pessoal não sabe nem enquadrar a crítica. Fazem ataques com falácias a partir de premissas falsas. Haja paciência.

Desabafo

Eu oscilo entre odiar as redes sociais e prometer para mim mesma que não vou mais escrever aqui, e continuar odiando as redes sociais mas imediatamente escrever aqui quase que compulsivamente em resposta a bobagens que circulam sobre gênero.

É assombroso que sujeitos ainda estejam disputando se novos palavreados sobre sujeitos que existem devem ou não existir, e explicando, sem fundamentação além do próprio desconhecimento de causa, que somos tão piores do que todo mundo por querermos reconhecer que vocabulários adequados com que compreender os sujeitos significa a possibilidade de coisas como políticas públicas para estas pessoas.

Juristas e sociólogos, como feministas, deveriam contemplar a dimensão da linguagem para a constituição legal, social e psíquica dos sujeitos com seriedade, afinal as leis e a medicina e a educação precisam contemplar todo mundo, e não há só dois jeitos de ser humano na imensa variedade de humanidade que existe. O binário vem da linguagem, não da realidade concreta dos corpos humanos.

E não é apenas que pessoas intersexo, trans, e também outras pessoas que usam outras palavras e outras marcações não contempladas pelo binário macho/homem – fêmea/mulher existem. É que estas pessoas existem e elas mesmas produzem cultura e conhecimento, e teorias. Sobre si e sobre várias outras coisas também.

Boçal mesmo é dizer para as pessoas que elas, eles são boçais por insistirem na própria autodeterminação.

Rosa Luxemburgo intensifica.

Mulher cis e a política sexual das palavras

Ser mulher cis não é ser menos nem mais mulher. Reconhecer-se mulher cis é reconhecer ser mulher e, ao mesmo tempo, também ser pessoa cis.

Alguns homens menstruam. Assim, falar “pessoas que menstruam” não é deturpar o significado de mulher, nem o de homem. É amplificar o vocabulário para reconhecer que não são apenas mulheres cis que menstruam.

E é sempre bom lembrar: nem toda mulher cis menstrua.

Lutar pelo direito de autodeterminação dos sujeitos significa entender as limitações dos vocabulários da nossa própria autodeterminação.

Metrossexual

A pesquisadora Beatriz Pagliarini Bagagli comentou, sobre uma entrevista em que o sociólogo Richard Miskolci oferece pareceres de gênero sem pé nem cabeça, e que esteve também circulando nas redes esta semana:

Um detalhe curioso” da entrevista de Miskolci, em que ele traça uma analogia entre metrossexual e não binário – para sugerir que não binário pode ser uma “moda” passageira como metrossexual. É muito simples apontar porque a analogia é equivocada: o termo metrossexual nunca foi alvo da auto-reivindicação por qualquer grupo que seja para ter acesso a direitos. Simples assim, metrossexual foi/é um termo usado para descrever supostamente certos comportamentos de homens que não correspondem a uma masculinidade padrão. Em nenhum momento existiu um grupo de pessoas metrossexuais reivindicando esse termo para si, ao contrário das pessoas não binárias. Eu desconheço qualquer tipo de demanda política que justificaria a identidade política “metrossexual” – a menos, claro, que alguém venha aqui me provar o contrário.”

Imagina quando Miskolci ficar sabendo que “metrossexual” foi uma palavra inventada para descrever o David Beckham pelo autor de masculinidades Mike Simpson. 

Recorte de gênero

E venho escrevendo meus últimos posts num mix de afã esclarecedor e frustração intensa com, como a criminologista Aline Passos lembrou, quem ainda pensa em gênero como alguma espécie de recorte. Entendo que conseguir enxergar questões de gênero a partir de um recorte no que você está acostumada a ver seja mais fácil.

Mas a interdisciplinaridade é característica dos estudos de gênero, justamente porque gênero não é um recorte, e sim o nome que se dá a algumas das formas com que se estruturam sociedades. Recorte de gênero é o que se faz dentro de outras áreas para inserir, nelas, a ideia de gênero – que, em si, já é bastante ampla e contestada.

Tudo isso é válido, mas os estudos de gênero não são meramente uma tesoura, a gente não existe apenas para fazer estes recortes. Na nossa práxis existe método, rigor, teleologia, cânone. Há mais do que opiniões e experiências. 

Todo mundo tem uma opinião sobre gênero, pois todo mundo tem uma experiência com gênero. Mas todos nós também temos experiências com comida ou gravidade, e isso não nos torna todos nutricionistas, nem astrofísicos. Não é difícil entender isso. 

Olimpíadas da Opressão

Nenhuma luta para inclusão de sujeitos marginalizados é menor.

Usar termos descritivos, como “pessoa que menstrua” ou “corpos com testículos”, não é reduzir as pessoas a estes marcadores, mas sim amplificar entendimentos – nestes casos, de que não são apenas mulheres que menstruam ou homens que têm testículos, mas termos como “pessoa não binária” e “pessoas cis” cumprem uma função parecida, ainda que em outros contextos, que é: escapar da naturalização normativa do binarismo de gênero.

Eu não entendo por que fazem tanta polêmica e confusão a respeito de prerrogativas tão simples. Ninguém precisa abrir não de ser quem é. O que estamos abrindo são possibilidades para que todos sejam quem genuinamente são apesar da rigidez do binário.

Discernimento, gente!




Joanna Burigo trabalha com comunicação e educação feminista sobre gênero. Atuou no mercado de publicidade e marketing, e também como professora, no Brasil e no Reino Unido. Cofundadora do Guerreiras Project e Gender Hub e fundadora da Casa da Mãe Joanna, é MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. É conselheira do Portal Catarinas, coordenadora da Emancipa Mulher e curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk. Seus textos podem ser encontrados em Carta Capital, The Intercept Brasil, Geledés e outras publicações.
Veja a coluna da Joanna Burigo