Pílulas_de_discernimento_a_sereia_é_uma_imagem
Imagem: Arquivo Pessoal.

Coluna da Joanna Burigo

Pílulas de discernimento: a sereia é uma imagem

Postado em 21/12/2021, 8:55

Em Pílulas de Discernimento, Joanna Burigo, mestra em Gênero Mídia e Cultura (LSE), conselheira editorial do Portal Catarinas e coordenadora Emancipa Mulher, traz pequenas notas informativas e analíticas sobre temas do cotidiano social e político que estão em debate nos fóruns das redes sociais.

Envelhecer naturalmente

Li agora, numa matéria dessas de site de fofoca, sobre as cirurgias plásticas de uma celebridade internacional, que “she’s doing an excellent job at ageing naturally” (“ela está fazendo um excelente trabalho em envelhecer naturalmente”).

Traduzi para trazer para cá sem comentários, interpretação ou análise. 

Divirtam-se, ainda que antes fiquem com raiva (e faz parte, é até saudável).

Dilma sem falogocentrismo

Em 07/09/2013 a Banda do Exército de Brasília tocava uma versão de Show das Poderosas da Anitta enquanto a então presidenta Dilma Rousseff desfilava em carro aberto. O furor dos comentários nas redes agora é a ansiedade por um show do Pabllo Vittar na posse do Lula. Ninguém pode se surpreender com, e menos ainda enquadrar como problemático, qualquer apontamento feminista acerca do retrocesso indicado por este afã progressista falogocentrado, em que o feminino é exaltado como imagem para celebrar um homem que retorna na esteira da ausência de mulheres demovidas do poder por misoginia. (Até que  acabemos com o patriarcado, plus ça change, plus c’est la même chose…)

Miami, bitch

Em Miami, de onde escrevi a maior parte dessa coluna*, é difícil de distinguir gay de hétero e cis de trans, é impossível saber quem usa pouca roupa por piranhagem ou por calor, é complicado reconhecer quem fala inglês ou espanhol, e é irrelevante ter certeza sobre quem usa drogas sintéticas ou vive de smoothie de couve com morango, pois tudo aqui é ostentação e, pobre ou rico, quem não está fazendo alguma forma de cosplay não entendeu a cidade.

John Waters, Divine e os Flamingos, rogay por quem sofre com esse tipo de esculhambação. Eu amo.

*Outras partes desta coluna e da coluna imediatamente anterior a esta foram escritas em Iquitos, no coração da Amazônia Peruana.

Mais sobre cultura influencer

Tem outra coisa que acontece desde antes da cultura influencer, e que foi e é acentuada por ela: a ideia de que o que uma pessoa famosa tem a dizer sobre qualquer assunto é importante.

Até acho que tem quem busque a fama justamente para ser levada a sério sobre qualquer coisa que diga, ainda que irrelevante.

Os músicos e as blogueiras de moda são grandes representantes desse mau hábito, que é feito da combinação de engodo egoico do famoso e fascinação aspiracional da audiência.

Respeita minha retórica!

Boa expressão resulta de prática. Ser sucinta e inteligível sem perder profundidade e latitude, e ainda temperar o texto com humor, exige bastantes rigor e clareza no pensamento, e agilidade e criatividade na escrita. Não ponho tanto esforço no exercício da minha retórica para fingir não ver a confusão que portadores de ignorância soberba fazem entre capacidade de síntese e superficialidade.

Mulheres e a moda em Miami

A moda das ruas em Miami, principalmente em South Beach, é bastante composta por peças  justas, coladas, pequenas, decotadas e transparentes. Na beira da praia, no calçadão de Ocean Drive, pelas avenidas Collins, Washington e Lincoln ou na Española Way, cercados pelos tons neón-pastel que emanam do céu tropical e reverberam nas edificações Art Deco e pós-modernas fazendo a região extrapolar sua condição de bairro para museu de arquitetura e design ao ar livre, abundam shortinhos, decotões, minissaias, crop tops, vestidos e biquínis minúsculos de asa delta e fio dental, tudo no melhor estilo #orgulhopiranha. Me sinto em casa — literalmente: é dos meus pais que herdo o apreço por vestimentas virtualmente inexistentes — e é delicioso ser uma de muitas pessoas que se cobrem com portentosamente pouco pois, se pudessem, viveriam peladas (ao fim e ao cabo, nossa mais profunda e superficial verdade).

Seria certamente a minha gente se não fosse o pânico moral que os acomete nas rápidas e acidentais exposições de mamilos de mulheres, ou o puritanismo patriarcal estadunidense que, hipocritamente, privilegia a submissão pela sensualidade típica de feminilidades que enfatizam a hegemonia da masculinidade em detrimento da veracidade feminista sobre sexualidade.

Igual, alegremente também circulam numa boa por aqui o basic-bitchdom, burcas e hijabis. Totalmente cobertas ou com o mínimo requerido por exigência legal e respeito pelo contrato social, bom mesmo é ver mulheres felizes e se expressando exatamente como querem. 💜

…e agora, uma platitude

Lembrar que a pérola é feita do que, para a ostra, foi um incômodo.

Soberba

A pessoa vir no meu perfil, obviamente sem jamais ter lido uma palavra que escrevi ou um livro que publiquei ou uma aula que dei, e provavelmente baseada apenas na minha imagem, que pode enganar incautos quanto aos meus quase quarenta e três anos de vida, para me chamar de “menina” e “rasa”, é exatamente o tipo de comportamento que faz com que eu enquadre algumas interações sociais, nas redes ou na vida real, como arrogantes e soberbas.

bell hooks TITÃ IMORTAL

REST IN POWER, BELL HOOKS!

Obrigada por tanto, principalmente por ensinar todo mundo que o feminismo é para todo mundo.

Apenas alguns segundos antes de receber a notificação sobre a passagem de bell hooks eu tinha recomendado para alguém a leitura de suas palavras.

Sua morte nos deixa tristes. Mas que nos regozijemos na lembrança de que bell hooks é imortal pela via do conhecimento que, generosa e rigorosamente, partilhou conosco.

Aqui neste plano ficam seus ensinamentos. E, do panteão de deidades feministas, ouço festejos pelo reforço.

VIVA BELL HOOKS, TITÃ IMORTAL!

A sereia é uma imagem

A cineasta Livia Pasqual clareia que “a imagem é uma sereia”, e tanto concordo que adiciono, bem feminista estudiosa de gênero, cultura e linguagem, que “a sereia é uma imagem”. 

(A imagética que ilustra esta coluna resulta do meu imaginário, com imagem do AJ Sanders em fotografia tirada no Filmore Theatre Miami Beach.)

Implicância feminista é patriarcado

“Implicância” de feminista geralmente é incômodo concreto com a realidade material conforme posta pelo patriarcado. Reparem.

Liquidando Bauman

Bauman é bastante conservador, diria até reacionário, e o caráter líquido da construção intelectual dele é, para seguir na sua própria metáfora, raso. 

Qualquer mergulho mais profundo nos seus textos e, pá: você dá com os burros não n’água, mas no patriarcado.   

Digamos que na piscina dele o fundo é de vidro, material sempre muito mais eficientemente quebrantável com feminismo do que sem.

(Adicionei posteriormente, para fins de esclarecimento: a ausência de reconhecimento do caráter patriarcal que fundamenta as relações faz com que a crítica dele tenha centímetros de profundidade. As relações não se tornaram líquidas. As mulheres é que passamos a decidir e poder sair de relações formadas em bases patriarcais. 🤷‍♀️)

Feminilidade enfatizada, I

Quando falo em “feminilidade enfatizada” o faço para tornar óbvio que o termo não significa a mesma coisa que “feminilidade” de forma ampla.

Connell qualifica a “feminilidade” como “enfatizada” justamente para esclarecer que existem diferenças entre a ideia de feminilidade no sentido amplo e a ideia de feminilidade como instrumento de controle patriarcal. 

Cada vez que eu escrevo sobre a feminilidade enfatizada e alguém vem dizer que meu texto “não inclui essa ou aquela mulher”, ou “essa ou aquela manifestação de feminilidade”, ou sugerir que “é colonial enxergar a feminilidade pela lente patriarcal” eu percebo que a pessoa não entende patavina de teorias decolonial, de gênero e de raça, não leu o que eu tinha para dizer, e se apressou no comentário pelo mau hábito, bastante privilegiado pelas redes sociais, de criar caso a partir do emprego de terminologias da moda, no afã pueril e contraproducente (porém apreciado pelo algoritmo), de engendrar discussões rasas pelo prazer egoico de parecer intelectual na internet.

A feminilidade não é uma só, e é tapado e arrogante sugerir que uma autora como eu – que não apenas me dedico a este tema mas sou, eu mesma, extremamente feminina – esteja aglutinando todas em uma só.

Eu aponto o caráter inerentemente submisso da feminilidade que enfatiza a hegemonia da masculinidade justamente para salientar que existem manifestações de feminilidade que enfatizam a hegemonia da masculinidade, o que deve nos ajudar a distinguir a feminilidade enfatizada de outras manifestações menos patriarcais e coloniais da feminilidade, e não burramente aglutiná-las.

Discernimento. Como falta essa habilidade na internet.

Feminilidade enfatizada, II

Há comentaristas de internet que não valem meu stress. Alguns comentários são muito toscos, muito rasos, muito apressados, articulados não como dúvida ou questionamento, mas como provocação barata oriunda do afã de parecer intelectual. Alguns comentaristas de internet não são interlocutores, mas pessoas arrogantes a ponto de não compreenderem que, ao engajarem com meus textos, não estão engajando com a minha opinião, e sim com meus 15 anos de dedicação ao tema sobre o que escrevo. Eu não respondo a muitos comentários porque meu conhecimento é muito caro e raro para entrar no registro do discurso público como resposta a arrogância de jovem na internet. Minhas respostas à soberba de quem se arvora a questionar minhas análises feministas de gênero sem entender gênero tende a se apresentar como trechos das colunas que escrevo no Portal Catarinas como a estudiosa feminista sobre gênero que sou. Faço meu conhecimento bastante público, quem quiser aprender comigo que me leia, que me estude, que debata minhas ideias, ou que venha para minhas aulas. Se quiser me contestar, que estude o que estudei e organize uma crítica minimamente racional. Não tô aqui pra molecagem com gente impetuosa e metida. Eu sei do que estou falando e sei ver imediatamente quem não sabe. Povo precisa segurar a soberba e aprender antes de sair comentando abobrinha em texto de especialistas.

Feminilidade enfatizada, III

E mais: ao falar sobre “feminilidades” não estou falando “sobre mulheres”.

É exatamente para distinguir a categoria analítica “feminilidade” da categoria analítica “feminilidade enfatizada” e das categorias analíticas que se desdobram a partir do termo “mulher” que emprego o termo “feminilidade enfatizada” e não “mulher”.

Eu escrevo para fomentar discernimento naquilo que já está erroneamente aglutinado.

A próxima pessoa que ousar reclamar de ausências nos meus textos sobre feminilidade sugerindo que eles “não incluem essa ou aquela mulher” ou “não contemplam essa ou aquela outra manifestação de feminilidade” vai ganhar o prêmio Parabéns Amada Por Notar o Óbvio seguido da medalha Agora Se Liga: Discernir Uma Coisa da Outra É o Propósito.

Haja paciência.

Guru de bem-estar é engodo

Guru de bem-estar PRECISA criar conteúdo-engodo. 

Práticas indulgentes de autocuidado mantêm as pessoas ocupadas em se anestesiar das dificuldades da realidade. 

Enquanto as gurus de bem-estar oferecem mamão com açúcar existencial, o público segue consumindo suas dicas, e segue, também, ignorante e aflito. 

É assim mesmo que guru de bem-estar enriquece: fomentando as vulnerabilidades de sua audiência ao invés de contribuir para que  se apoderem delas e se empoderem com elas.

A cultura influencer de Instagram pode ser entendida como um enorme desdobramento conceitual de cosplays de Gwyneth Paltrow, seja a influencer branca e cis (como são a maioria das bruxonas de apartamento), ou não.

“Feminismo”, disse a Marie Shear, “é a ideia radical de que mulheres são gente”, e insisto que isso serve para bem ou para mal. Picaretas, como mulheres, também são gente.

Influencer picareta

Uma das práticas picaretas mais bem sucedidas no Instagram é o emprego de termos dos léxicos dos estudos decoloniais de gênero e raça para temperar textos que, essencialmente são de autoajuda, mas que, quando ornamentados pela aplicação de palavras oriundas de reflexões intelectuais, são envernizados para parecerem comungar da mesma seriedade.

O método influencer se escora no desconhecimento que a audiência tem da complexidade das linguagens com que reflexões sérias constroem argumentos sofisticados e verdadeiramente disruptivos, e consiste de oferecer doses de conforto existencial floreadas pelas terminologias dos estudos decoloniais de gênero e raça demovidas da real radicalidade destes estudos. 

Este monte de abobrinha existe não para fomentar a intenção verdadeira e a difícil prática de mover leitores pelo desconforto na direção de mudanças sociais necessárias, mas para seduzir incautos a seguirem consumindo, aumentando assim a audiência e potenciais lucros da escritora.

Influencer que fala em decolonialidade, gênero e raça usando os discursos do mistério e da natureza sem questionar estruturas de poder estão mais para gurus do bem-estar do que para intelectuais comprometidos com políticas revolucionárias. 

Encher as redes sociais de palavredo opinativo sugerindo decolonizar gênero e raça, sem efetivamente colocar enfoque na concretude e materialidade do real social – ou seja, sem consciência de classe – e meramente encorajando sujeitos ao auto-cuidado com práticas indulgentes e tipicamente individuais é ar quente, fumaça feita de opinião furada, individualismo neoliberal regurgitando velhas picaretagens new age.

Recomendar que questões de gênero e raça sejam articuladas pela observação das estrelas ou pelo uso tópico de bálsamos de plantas medicinais é mais parecido com o que faz a Gwyneth Paltrow para ser rica do que com a práxis de Lélia González sobre poder e liberdade.

Na Bíblia chamam esses tipos de “vendilhões do templo”. “Charlatãs” continua sendo um adjetivo adequado. 

Haja paciência e discernimento.

Terminologias

O que na internet brasileira chamam de “feminismo liberal” não é feminismo. É fetiche de feminismo. São mulheres usando o nome “feminismo” para auto-engrandecimento, como Barbara Smith alerta que é possível e fácil de fazer.

Feminismo não é veículo de marketing, sistema de valores, ou estilo de vida. É política de destruição do patriarcado, que ao mesmo tempo incomoda o poder e acomoda marginalizades.

É possível traçar paralelos entre feminismo e liberalismo político e econômico, principalmente em retrospecto histórico (vide Mary Wollstonecraft), mas o emprego do termo na internet não se refere a isso, e sim a oportunismo com o uso da palavra por modismo. 

E já que estamos falando em terminologias, “pós-feminismo” também é um termo mal empregado na internet brasileira por uma juventude ingênua, mal informada, e geralmente apegada a um residual de misogina queer; um rápido raciocínio lógico revela que usar o termo nesse sentido é pura quimera, afinal o pós-feminismo só pode acontecer no pós-patriarcado. O termo é, factualmente, oriundo da crítica feminista à produções culturais, sobretudo audiovisuais e dos anos 1990, que ignoram questões patriarcais não resolvidas no desenvolver de suas narrativas. Pensem na fantasia de igualdade de gênero presente em seriados como Friends e Sex And The City. É a este tipo de construção narrativa que esta definição se refere, e ela foi bem consolidada por Ros Gill, Yvonne Tasker, Diane Negra e outras acadêmicas de mídia e feminismo.




Joanna Burigo trabalha com comunicação e educação feminista sobre gênero. Atuou no mercado de publicidade e marketing, e também como professora, no Brasil e no Reino Unido. Cofundadora do Guerreiras Project e Gender Hub e fundadora da Casa da Mãe Joanna, é MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. É conselheira do Portal Catarinas, coordenadora da Emancipa Mulher e curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk. Seus textos podem ser encontrados em Carta Capital, The Intercept Brasil, Geledés e outras publicações.
Veja a coluna da Joanna Burigo