No universo do esporte, a busca por performance muitas vezes ofusca um dos principais benefícios da atividade física: a saúde e o bem-estar. Para nós mulheres, essa distorção pode ser ainda mais perigosa, transformando a prática esportiva em mais uma armadilha na longa lista de exigências impostas aos nossos corpos. Compreender como o esporte é apresentado e vivenciado, especialmente por meninas e mulheres, nos ajuda a fazer dele um aliado na construção de uma relação saudável com o corpo, em vez de mais uma fonte de pressão e insatisfação.

Um estudo recente, Mulheres no Futebol, organizado pela Centauro e pelo Grupo Consumoteca, revela essa complexidade: enquanto 24% dos homens se identificam com um “corpo de atleta”, apenas 7% das mulheres compartilham dessa percepção. Essa disparidade não é coincidência. Ela reflete uma cultura que condiciona a presença feminina no esporte à adequação a um padrão estético restrito e excludente.

Para Elânia Francisca, psicóloga, psicanalista, sexóloga especialista em gênero e sexualidade e colaboradora do projeto Pé de Moleca, essa lógica é construída desde cedo. Como explicou em conversa comigo, já na escola, as meninas são pressionadas a performar, no esporte e na vida.

Não há espaço para ser iniciante. Isso afeta a autoestima, a possibilidade de gostar de si e de enxergar a atividade física como uma forma de conhecer o próprio corpo e não como uma vitrine para atender ao olhar do outro.

O estudo, que citei acima, também aponta os principais obstáculos enfrentados pelas mulheres no esporte: a hiperssexualização e o assédio. Cerca de 50% da população acredita que no esporte as mulheres são mais valorizadas por seus “corpos bonitos” do que por suas habilidades. Essa visão distorcida reforça o corpo feminino como objeto de consumo visual, ignorando sua potência, resistência e complexidade.

É inaceitável que, em pleno século 21, atletas sejam mais reconhecidas por sua aparência do que por suas conquistas. Notícias (ou podemos chamar de fofoca?) sobre o corpo, roupas e vida pessoal das jogadoras seguem tendo destaque em detrimento de rotinas de treino, estatísticas e resultados profissionais.

Esse tipo de pressão estética e simbólica tem consequências graves. Para Elânia, a exigência de um ‘corpo ideal’ não começa na idade adulta. Desde a infância, é dito às meninas que seus corpos precisam se adequar. Isso fragiliza a autoestima e gera estresse, ansiedade, e até transtornos alimentares. A dor que essas meninas sentem também é sintoma de uma estrutura machista.

O esporte como liberdade, não como autoexigência 

Apesar disso, o esporte segue sendo um caminho de desconstrução dessa mentalidade. O mesmo levantamento que trouxe dados preocupantes aponta que 84% das mulheres praticam esportes para cuidar da saúde mental e 79% o fazem para se sentir bem. Esses números mostram que, mesmo em meio às pressões estéticas, o esporte consegue ser um território de prazer, fortalecimento e liberdade.

“O esporte é uma prática terapêutica e revolucionária, capaz de promover consciência corporal e autonomia, ensinando sobre coletividade, companheirismo e a potência de ser quem se é. É, sim, uma ferramenta feminista, opina Elânia.

Além do nosso papel individual de estimular as meninas ao nosso redor a, desde cedo, encontrarem o prazer em movimentar seus corpos, é fundamental compartilharmos essas conclusões com marcas e veículos que atuam diretamente na visibilidade do esporte em todas as suas esferas para que a narrativa seja transformada de forma massiva.

Valorizemos nossas conquistas, respeitemos nossos corpos, e promovamos ambientes acolhedores e libertadores. Que o esporte deixe de ser um campo de exigências estéticas e se firme como um território de saúde, prazer e pertencimento.

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  • Júlia-Vergueiro

    Sócia fundadora da Nossa Arena e fundadora do Instituto Nossa Arena. Seu trabalho é voltado para dar visibilidade e opor...

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