Mapa mundial da Covid-19 em tempo real/Imagem: reprodução gisanddata.maps.arcgis.com

Ciência valorizada e comunidade consciente salvam vidas

Postado em 26/05/2020, 13:44

     O Brasil é o único país que possui proporções continentais e que não apresenta plano de ação, com base científica, no enfrentamento do coronavírus.

Em 26 de maio de 2020, já são cerca de 5,5 milhões de infectados pelo Coronavírus no mundo, e mais de 370 mil infectados somente no Brasil. Cerca de 24 mil brasileiros estão mortos devido a doença COVID-19, provocada pela infecção do coronavírus (SARS-Cov2). Muitos casos ainda não foram contabilizados por conta da subnotificação natural em casos pandêmicos. Este cenário caótico poderia ser pior, caso não houvesse o Sistema Único de Saúde (SUS), que é reconhecido internacionalmente por ser descentralizado e gratuito. Obviamente, o governo federal deve investir muito mais neste momento de pandemia, e se existir pressão popular para a valorização do SUS, a situação pode melhorar e salvar muitas vidas.

O projeto para virar lei sobre auxílio para os dependentes dos profissionais de saúde que venham a falecer de Covid-19 segue para o Senado, e Davi Alcolumbre, presidente da casa, precisa colocar o projeto em votação. Esta ação somente foi possível devido à pressão popular através da iniciativa #MaisdoQuePalmas (promovido pelo programa de TV Greg News, HBO), após 160 mil assinaturas e mais de 60 mil emails de pressão. Infelizmente, os casos de profissionais mortos e afastados por conta da doença Covid-19 não param de aumentar: pelo menos 98 óbitos e 10.000 casos de afastamentos já foram contabilizados. Esta ação é um exemplo da reflexão sobre a valorização do SUS e seus funcionários públicos dedicados em salvar vidas. Do mesmo modo, deve-se valorizar os esforços de todas as Universidades, os Institutos e cientistas envolvidos em pesquisa com o Coronavírus e a doença Covid-19.

A maior parte desta crise sanitária e humanitária no Brasil acontece através de uma agenda de governo que nega a ciência, e assim que isto ocorre, consequências sérias permeiam a realidade brasileira. Negar o rigor científico, o conteúdo dos estudos, a seriedade das instituições internacionalmente reconhecidas é, literalmente, desvalorizar e desacreditar descobertas e avanços conquistados até o momento, pelas cientistas e pelos cientistas no Brasil e no mundo, ao longo da história da humanidade.

Assim que o negacionismo da ciência ressurge (às vezes, parece que estamos na Idade Média com credos de Terraplanismo, por exemplo), dá-se margem a diversos desfechos importantes e significativos para o povo brasileiro. Se o chefe de Estado não valida a Ciência, não haverá plano de governo competente para lidar com a pior crise sanitária da história mundial, e vale lembrar que o Brasil é o único país que possui proporções continentais e que não apresenta plano de ação, com base científica, no enfrentamento do coronavírus e isto é inadmissível.

Este comportamento presidencial legitima e revalida ações violentas contra qualquer cidadão que discorde do mesmo e desta agenda genocida. Semana passada, infelizmente, vários pesquisadores do IBOPE foram presos por participar da pesquisa científica EPICOVID19-BR. Esta pesquisa é coordenada pelo epidemiologista e reitor, Professor Pedro Hallal da Universidade de Pelotas (UFPel). O Centro de Pesquisas Epidemiológicas da UFPel realiza estudos epidemiológicos em Pelotas, no Rio Grande do Sul, no Brasil e no mundo há cerca de 40 anos. O estudo EPICOVID-BR que apresenta número de processo na Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) – CAEE 30721520.7.1001.5313 foi aprovado em 28 de abril de 2020 e apresenta como objetivos: estimar o percentual de indivíduos com anticorpos para o vírus SARS-coV2; determinar o percentual de infecções assintomáticas ou subclínicas; avaliar a velocidade de expansão de infecção ao longo do tempo e obter dados precisos da letalidade do vírus.

Segundo, Pedro Hallal em nota oficial, “Infelizmente, desde o início do trabalho de campo no dia 14 de maio, as equipes da pesquisa vêm passando por diversas situações constrangedoras. Nas situações mais graves, os entrevistadores do IBOPE (contratados pelo projeto) foram detidos, com uso de força policial, tendo sido tratados como criminosos. Trata-se de cerca de 2.000 brasileiros e brasileiras, que estão trabalhando para sustentar suas famílias, numa pesquisa que pode salvar milhares de vidas, e que mereciam proteção das forças de segurança e uma salva de aplausos por parte de toda a população. Ao contrário, as forças de segurança, que deveriam proteger os entrevistadores, foram responsáveis por cenas lamentáveis e ações truculentas, algumas delas felizmente registradas.”

Além destas prisões, segundo os pesquisadores, cerca de 800 testes foram apreendidos, abertos ou destruídos, ou seja, verba pública desperdiçada, haja vista que esta pesquisa está sendo custeada com recursos públicos. Manaus foi a cidade exemplar na participação do projeto, mesmo sendo a cidade mais afetada pela pandemia e ainda sim foi primeira cidade a finalizar a coleta de dados. O Ministério da Saúde comunicou os 133 municípios participantes do estudo, via documento oficial, e mesmo assim houve atos violentos em cerca de 40 cidades brasileiras.

Esta não é a primeira vez que pesquisadores são violentados durante a pandemia.

Em abril de 2020, um grupo de pesquisadores que participam do estudo CloroCovid-19 (CONEP – CAAE 30504220.5.0000.0005) sofreram ameaças após divulgação de resultados preocupantes. Onze pacientes morreram após receberem a dose mais alta de Cloroquina e assim, com este dado preliminar, esta dose foi excluída do estudo. A análise contou com 81 indivíduos internados no Hospital Delphina Aziz, referência para Covid-19 no Amazonas. A pesquisa é conduzida pela Universidade do Estado do Amazonas, a Universidade de São Paulo e a Fiocruz. Pesquisadores sofreram ataques pelas redes sociais, sendo considerados irresponsáveis por utilizaram “cobaias humanas” no estudo. O pesquisador Marcus Lacerda, médico infectologista da Fiocruz-AM foi ameaçado de morte e a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas em conjunto com a Polícia Civil investigam o caso.

Esta situação preocupa a comunidade científica pois neste cenário pandêmico, há pesquisas que serão bem sucedidas, e outras não. A situação é complexa para todos os pesquisadores do mundo, que estão sendo incentivados, monitorados, avaliados, pressionados e julgados em todo o contexto da pesquisa com o coronavírus ou a doença Covid-19. No mês passado, ainda não havia estudos multicêntricos com número de pacientes e metodologias suficientes para concluir algo em relação ao tratamento da cloroquina ou hidroxicloroquina.

Entretanto, recentemente, em 22 de maio, umas das maiores revistas científicas do mundo The Lancet, publicou um estudo multinacional sobre possíveis tratamentos para a doença Covid-19 envolvendo cloroquina, hidroxicloroquina em associação ou não a macrolídios (grupo de antibióticos). Esta pesquisa contou com a participação de 671 hospitais em 6 continentes, mais de 90 mil pacientes foram avaliados e tratados ou não (grupo controle) nas primeiras 48 horas, após o resultado positivo para SARS-coV2. Trata-se do maior estudo no mundo até o momento sobre tratamento com os fármacos polêmicos cloroquina e hidroxicloroquina.

Neste estudo ficou evidente que os tratamentos aumentaram a frequência de arritmias cardíacas, e ainda foi associado a um aumento de risco de morte no hospital pela Covid-19.

Os autores concluem que os achados sugerem que estes tratamentos não devem ser utilizados como protocolo padrão, pois os resultados não apresentam evidência de benefício à saúde dos pacientes infectados.

Ontem (25), dirigentes da Organização Mundial de Saúde (OMS) emitiram nota sobre realizar uma pausa no andamento com o tratamento cloroquina e hidroxicloroquina, no estudo Solidariedade (Solidarity Trial) organizado pela própria OMS (com participação de 35 países, em mais de 400 hospitais). A exclusão se deve ao risco de grave efeitos colaterais e aumento de risco de morte destes fármacos, mostrado no estudo publicado na sexta-feira passada pela The Lancet. Demais tratamentos como remdesivir e demais anti-virais utilizados no tratamento do HIV, ainda permanecem no estudo Solidariedade, o qual, no Brasil é liderado pela Fiocruz.

Diante desta informação recente, séria e muito relevante do meio científico internacional, espera-se que o Ministério da Saúde, Governadores e Prefeitos do Brasil não aceitem qualquer plano de tratamento com algum destes medicamentos. As publicações científicas servem para aumentar a comunicação entre cientistas, e também alertar e atualizar a sociedade, principalmente, durante a pandemia. Além das pesquisas relacionadas à produção de vacinas, outros projetos relacionados à redirecionamento de fármacos também estão sendo estudados, como por exemplo o Remdesivir (anti-viral desenvolvido para Ébola) que parece diminuir o tempo de internação na UTI (cerca de 2 dias), mas ainda necessita maiores estudos para ser protocolado como tratamento.

Embora toda esta situação seja nova e até mesmo desesperadora, cientistas não podem ser ameaçados, perseguidos, violentados por estarem trabalhando em uma pesquisa que busca solucionar problemas que a sociedade possui, e que neste momento, é a pandemia. No Brasil, as pesquisas realizadas em seres humanos são avaliadas minuciosamente e mais criteriosamente, do que qualquer outro tipo de pesquisa. Sendo assim, é importante esclarecer que a responsabilidade e violência recebida se direciona à todos os envolvidos no processo científico, incluindo a CONEP, que aprova os estudos científicos. A situação brasileira é preocupante e por esta razão, cientistas necessitam de mais apoio, investimento e credibilidade, por parte do governo e sociedade civil. Mas se algum cidadão testemunhar alguma irregularidade em algum estudo específico, nada o impede de registrar uma denúncia no site do Conselho Nacional de Saúde.

Mesmo antes da pandemia, cientistas já estavam sendo desrespeitados no Brasil, via corte de verbas (recursos para pesquisa para insumos, equipamentos e bolsas de estudo) pelo governo, ou por falácias através de fake news (governo e população), que muitas vezes prejudicam o trabalho científico. É importante esclarecer que a fabricação e veiculação de fake news é crime. Disseminar fake news durante a pandemia pode configurar o Art. 340 do Código Penal Brasileiro: provocar a ação de autoridade, comunicando-lhe a ocorrência de crime ou de contravenção que sabe não se ter verificado. A pena para o crime é detenção de um a seis meses, ou multa.

A notícia falsa na área da saúde durante a pandemia é um dos maiores exemplos de desvalorização da ciência atualmente, e precisa ser combatida pelos cientistas e comunidade que resistem a estas ofensivas.

Ações irresponsáveis como estas citadas, contribuem para consequências futuras no âmbito da saúde pública, pesquisas relacionadas à doença Covid-19 (promovidas por Universidades e Institutos de Pesquisa), comunicação social e credibilidade política-econômica do Brasil no exterior. Países que fazem fronteira com o Brasil já estão preparados para impedir fluxo de brasileiros para seus países, medida preventiva resultante da ausência de plano de ação na luta contra a pandemia pelo governo federal brasileiro. Esta situação pode piorar, segundo cientistas políticos, caso não exista políticas públicas verdadeiras nas próximas semanas que direcionem o Brasil para solucionar o caos na saúde.

Há uma série de particularidades deste vírus e doença em si que não podem ser comparado às demais pandemias sofridas pela humanidade. Além das particularidades biológicas que este vírus possui, como alta taxa de transmissão mesmo em pacientes assintomáticos, o mundo nunca foi tão globalizado e conectado, explorado e destruído, invadido e mal-cuidado. Todas essas variáveis, associada à desigualdade social no Brasil tornam a pandemia única e perigosa, e por esta razão, cientistas precisam ser ouvidos e respeitados.

A OMS que ouve e trabalha com cientistas ao redor do mundo, repete e reafirma que o melhor a ser feito hoje, ainda é promover o isolamento social horizontal da população, nos países que estão no aumento da curva de casos, como o Brasil. Políticas públicas para o combate à transmissão do coronavírus no Brasil são urgentes para garantia do artigo quinto da constituição brasileira de 1988 – “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

Assim, a pasta da saúde deste governo precisa se dedicar mais ao combate à pandemia, insistir no isolamento social, desmentir fake news sobre tratamento com cloroquina ou qualquer outro tratamento sem validação científica.

O Ministério da Sáude é responsável por dispor de condições para a proteção e recuperação da vida da população, controlar as doenças endêmicas ou pandêmicas e melhorar a vigilância à saúde para garantir melhor qualidade de vida aos cidadãos. O representante desta pasta do governo é responsável por organizar e promover ações com base científica que garantam o que é de direito do povo brasileiro, a vida. O atual ministro Eduardo Pazuello formou-se na Academia Militar das Agulhas Negras, não é médico, profissional da saúde ou cientista, é general. Segundo Wanderson Oliveira, que irá deixar o cargo de secretário de vigilância da saúde, o atual ministro nomeou mais de 15 militares para postos-chave (em entrevista para a revista Veja, na edição de 24 de maio de 2020).

Qual é o plano do general paraquedista Eduardo Pazuello para a crise sanitária do Brasil? Como tantos militares nomeados interinamente podem contribuir para combater a pandemia?

Cidadãs e cidadãos brasileiros possuem a oportunidade de cobrar tais respostas do próprio General Ministro da Saúde @EdPazuello no twitter (principal meio de comunicação do governo), além de valorizar e defender mais a ciência realizada no país e ficar em casa (se possível). Segue alguns canais de comunicação, nos quais a população pode se manter atualizada sobre o número de casos Covid-19, no brasil e no mundo.

*Muryel de Carvalho Gonçalves é bióloga, doutora em Farmacologia pela UFSC. É ativista em prol da ciência, educação e igualdade social. Coordena o Coletivo de comunicação científica Ciência da Ciência – Berthinha Lutz (@cienciadaciencia). É Conselheira estadual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Regional SC (SBPC-SC), e também atua no grupo de trabalho de divulgação científica, promovendo ações que visam popularizar a ciência catarinense.