Lola Aronovich dá nome à lei que autoriza a PF a investigar misoginia na Internet/Foto: imagem da captação em vídeo

“A gente só é valorizada como mulher se for mãe ou decorativa”

Postado em 31/08/2019, 8:58

Indicada ao Prêmio Liberdade de Imprensa 2019 do Repórteres Sem Fronteiras (RSF), na categoria coragem, Lola Aronovich é uma feminista que tem dedicado seu ativismo a contestar e denunciar o pensamento masculinista, expressado principalmente por grupos de extrema-direita. Há doze anos, a professora de Literatura Inglesa na Universidade Federal do Ceará (UFC) mantém o blog Escreva Lola escreva, onde faz reflexões sobre as desigualdades de gênero. Passou a ser odiada ao cunhar, em 2011, o termo “mascu” para se referir aos supremacistas masculinos que participam de fóruns e organizam redes de misoginia na internet, incentivando práticas violentas como o estupro e feminicídio. Mascu é uma abreviação para masculinistas “que dizem lutar pelos direitos dos homens, mas são apenas grupos de homens frustrados, organizados na sua eterna misoginia”, como explica Lola em um dos seus textos.

“O termo pegou, virou muito pejorativo, aí acabou com o masculinismo no Brasil, porque ninguém queria se chamar mascu”, brincou a blogueira, durante a roda de conversa sobre feminismos em redes sociais na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), realizada na última semana. “Depois eu descobri que eles já me atacavam faziam tempo, eles sabiam da minha existência, muito antes de eu saber da deles. No começo eu levava de brincadeira, porque era uma coisa muito ridícula, imagine um mascu vir no seu blog e querer convencer você e suas leitoras e leitores de que mulher não presta”, relata.

Entre os crimes de ódio contra as mulheres, Aronovich destaca o Massacre de Realengo, em 2011, quando um jovem de 23 anos entrou em uma escola municipal do Rio de Janeiro e matou doze crianças, entre elas dez meninas. Em seu blog, ela questionou a desproporção no gênero das vítimas. “Na época a mídia não soube lidar com isso, não soube explicar porque o Wellington (assassino) matou tantas meninas. Até hoje esse massacre não é classificado como crime de ódio. As justificativas para isso foram ridículas, como ‘as meninas correm menos’ ou ‘são boas alunas, então sentam na frente’, por isso morreram mais. Ele separou meninas e meninos e realmente atirou nas meninas”, pontuou durante a conversa.

Segundo ela, o assassino virou um ícone para a comunidade masculinista. “Wellington era um deles pelo vocabulário dele, pelo manifesto que deixou, ele claramente era um mascu”, afirma.

Por denunciar as ações desses grupos, a blogueira começou a sofrer várias ameaças de morte. Foram anos de ativismo e denúncia até que um dos seus agressores foi preso e condenado, no ano passado, a mais de 40 anos de prisão por vários crimes que ele cometeu na internet, entre eles associação criminosa, divulgação de pedofilia, racismo e terrorismo.

Um mês antes da prisão de Marcelo Valle Silveira Mello, 33 anos, em abril de 2018, foi sancionada pelo presidente Michel Temer a lei nº 13.642/18, também conhecida como Lei Lola, em sua homenagem. A lei atribuiu à Polícia Federal a responsabilidade pela investigação de conteúdos misóginos na rede. O projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados em dezembro de 2017, durante os 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, e no Senado na semana do dia 8 de março (Dia Internacional da Mulher).

“Com oito anos de idade me afirmei feminista. Antes de ter o blog, eu não sabia da dimensão da misoginia, apenas tinha uma noção, conhecia mais por teoria do que na vida real”, revela Lola.

Conversamos com a ativista sobre a recente polêmica envolvendo os mandatários do Brasil e da França, em que Bolsonaro endossou o comentário de um apoiador que comparava a aparência física das primeiras-damas dos dois países. Um caso representativo desse pensamento masculinista que a ativista corajosamente denuncia em sua atuação.

“Eles veem a gente como reprodutoras, então se já passamos da idade reprodutiva não temos mais serventia para eles. E também a questão da aparência, somos sempre avaliadas por essas duas funções. A gente só é valorizada como mulher se formos mãe ou bonita, decorativa. Vai saber quanto tempo mais a Michelle tem de vida com Bolsonaro antes de ser trocada, talvez por uma mulher mais jovem. É uma coisa absurda”, analisou.

Acompanhe o vídeo que traz um apanhado do caso e a avaliação da blogueira: 

Confira outros trechos da conversa:

“Principalmente para gente que não votou nele (Bolsonaro), muito pelo contrário, a gente fez tudo para que ele não fosse eleito e continua fazendo para que seja tirado do poder, é sempre uma vergonha. Porque ele está fazendo o governo assim como fez uma campanha de humilhar as mulheres, de considerá-las seres inferiores. Esse foi mais um caso em que ele concordou com um dos eleitores ridículos que ele tem que comparou as esposas como se isso tivesse relevância. Primeira-dama não é um cargo, é um status matrimonial e nem temos o termo ‘primeiro-damo’. É tão pouco comum uma mulher no poder casada com um homem, e talvez por não ter tantas mulheres no poder, as pessoas ficam nessa de comparar primeiras-damas e comparam da maneira mais fácil que é a aparência”, contextualizou.

“A ministra Damares fica falando que quer empoderar as meninas, mas não vai empoderar ninguém desse jeito, tirando a autoestima delas. Esse é mais um exemplo de como este governo é totalmente nocivo às meninas e mulheres do Brasil. Bolsonaro já vendeu a gente como objeto sexual. Ele se inspira muito no presidente dos EUA, um misógino de marca maior, e vê que nada aconteceu com Trump que tem acusações de estupro nas costas”.

Para a blogueira, não devemos superestimar a força política do bolsonarismo. “A gente vai continuar lutando, a gente tem voz, a gente tem força, o feminismo nunca esteve tão forte. Nós feministas e as/os estudantes jovens somos a principal resistência a este governo”.




Jornalista, feminista e arteira.
Veja a coluna da Paula Guimarães