Muitas de nós ainda estamos em estado de incredulidade, parece uma miragem, mas é real. A esperança feminista é prática, e foi isso que vimos nas mobilizações nas ruas e nas redes que levaram a essa vitória, com uma diferença de votos surpreendente.

Devemos essa vitória à juventude, principalmente aos estudantes, mas também às pessoas com mais de 70 anos, que, mesmo com o voto facultativo, entenderam o chamado, a urgência de apertar o 13. 

Também tiveram papel central a classe artística e cultural, especialmente da música, teatro e cinema, que se posicionaram ativamente nas redes, assim como nos palcos pelo país afora. 

Devemos ainda aos movimentos sociais, destaco aqui os movimentos feministas que sabem o que representaria a vitória de Flávio Bolsonaro em termos de avanço do discurso machista e misógino, produtor de uma violência que, em seu extremo, tem como desfecho o feminicídio.

Bloqueamos a cultura do ódio

Para nós, mulheres, mas também para a população negra, os povos originários, as pessoas LGBTQIA+, uma vitória de Flávio Bolsonaro representaria muito mais do que uma derrota eleitoral. Seria a legitimação de um projeto político que alimenta o machismo, o racismo, a LGBTfobia, o avanço sobre florestas, que naturaliza a violência contra nossos corpos e nossas vidas. 

Sabemos que discursos de ódio não ficam apenas nas palavras: eles autorizam práticas, encorajam agressores e aprofundam desigualdades que já experimentamos cotidianamente. 

Para nós, a ameaça é concreta, porque sabemos que o avanço do fascismo, projeto de poder baseado na violência, significa mais medo, mais feminicídios, mas mortes pela polícia, e menos liberdade para existir. Significaria mais crianças estupradas sem acesso ao aborto legal. 

Por isso, nossa mobilização não foi apenas por um projeto político, mas também pela defesa das nossas próprias vidas.

Quero agradecer a quem não desistiu da luta, a quem se agigantou nas manifestações, a cada pessoa que esteve com a gente, nessa caminhada de esperança e de luta contra o fascismo. 

Ainda que a gente veja ao nosso redor familiares, pessoas amadas, cooptadas pela máquina do ódio, é importante não perdermos de vista a grandeza deste momento histórico e desse sentimento coletivo de missão cumprida.

A dignidade de quem carrega a história no próprio corpo

Confesso a vocês que o presságio da vitória se apresentou para mim durante o segundo e último debate das eleições presidenciais, exibido pela Rede Globo, quando veio à tona um dos estigmas mais discriminatórios produzidos pelo antipetismo: o fato de Lula ter nove dedos. 

Lula deu uma aula como trabalhador, em primeiríssima pessoa, porque é parte do chamado povo, que para tantos políticos só existe como recurso retórico, sempre em terceira pessoa.

Quanta altivez teve o metalúrgico que virou presidente ao responder a uma tentativa de humilhação. Para mim, foi o momento mais importante e simbólico do debate. 

Porque diz tanto sobre as dificuldades que Lula enfrentou quanto sobre a perversidade de quem desconhece o que significa passar fome, trabalhar desde criança e depender do próprio corpo para sobreviver.

Lavou a alma de quem conhece essa realidade, de quem tem familiares que precisaram trabalhar desde muito cedo e, especialmente, de quem, como eu, carrega na história da família as marcas físicas dessa exploração. Minha avó perdeu um braço na lavoura de cana, ainda muito jovem.

É de uma perversidade imensa transformar essa dor em deboche. E mais ainda sugerir que alguém seria capaz de mutilar o próprio corpo para receber um benefício social. Essa acusação diz muito mais sobre quem a faz do que sobre Lula.

E isso vindo de alguém que nunca conheceu o trabalho nos termos em que a maioria dos brasileiros o conhece. Enquanto para seu oponente o trabalho parece uma ficção, para Lula é parte constitutiva de sua existência: “Ou eu trabalhava ou eu não tinha o que comer.”

Flávio, em tom de deboche, revelou o que pensa do povo que tanto invoca, mas cuja realidade desconhece. Lula, por sua vez, transformou a tentativa de humilhação em uma afirmação de dignidade e consciência de classe.

Entre os privilégios herdados e as marcas do trabalho

Esse momento foi especialmente importante por evidenciar as histórias de vida e as posições sociais ali representadas. 

De um lado, um homem que começou a trabalhar ainda criança, conheceu a fome e carrega no corpo as marcas da exploração. 

Do outro, alguém que iniciou a vida profissional amparado pelos privilégios herdados do pai, entre cargos arranjados e suspeitas de emprego fantasma.

Sua trajetória política acumula denúncias e controvérsias, das investigações sobre rachadinhas às relações com personagens envolvidos em negócios suspeitos, passando pela defesa de policiais associados a episódios de violência letal. 

Enquanto milhares de brasileiras e brasileiros morriam de Covid-19, participava de um encontro em uma lancha com lobistas envolvidos em negociações de vacinas.

Flávio representa, afinal, uma ínfima minoria da população brasileira, aquela para quem comprar uma ilha é uma possibilidade, enquanto milhões de pessoas lutam para garantir as condições mais básicas de sobrevivência. Mais do que uma diferença entre gerações, ali se revelava uma distinção de classe. À primeira vista, a vitalidade de um homem mais jovem diante de outro com mais de 80 anos poderia sugerir mudança e renovação.

Mas foi o mais velho que nos mostrou a altivez de uma trajetória construída na luta coletiva, enquanto o mais novo evocava práticas políticas de um passado autoritário, marcado pelo culto à violência e pela defesa de privilégios. 

O novo nem sempre representa o futuro, e a idade não apaga a vitalidade transformadora de uma história. Ali, o mais velho nos lembrava que o futuro também é ancestral e nos convocava a pensar: de que lado estamos nessa história?

O direito de sorrir e a coragem de continuar

Foi brilhante. E eu só tenho orgulho de nunca ter me desviado desse caminho e da beleza que é estar ao seu lado nessa história. E talvez seja justamente isso que essa vitória nos devolva: a força de uma história coletiva, feita por gente que conhece na própria pele as dificuldades da vida, mas que nunca deixou de acreditar na possibilidade de transformá-la.

A festa foi bonita e ela nos dá ânimo, nos enche de vida para continuar. Estar entre nós, reconhecer a força das nossas caminhadas juntas e saber que, quando a gente precisa, pode contar com a gente.

Por florestas de pé, pelos direitos das crianças, por mais livros e pelo fim do fuzil, por escolas e universidades, por saúde pública e universal, por tempo livre e lazer, por seguridade social para todo mundo. Pelo fim da violência econômica, racista, machista e belicista. 

Tem muita luta pela frente, diante dos senhores da guerra, dos negócios bilionários e das Big Techs, que só querem lucrar à custa da nossa existência, das florestas e dos povos originários. Mas aprendemos muito nestas eleições, contra Meta, Trump, bets, Globo, ainda estamos aqui e vamos continuar.

Luiz Inácio Lula da Silva, sua estrela brilha porque você é gente como a gente. E nós estamos aqui para construir esse governo como tem que ser, com a nossa cara. Mas, por ora, eu só quero ficar nessa suspensão de felicidade.

Sorriam, nós vamos sorrir!

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  • Paula Guimarães

    Jornalista e co-fundadora do Portal Catarinas. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pós-graduada...

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