As 46 casas parceiras distribuídas pelo centro histórico de Paraty durante a programação da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que aconteceu de 22 a 26 de julho, evidenciam a pluralidade de vozes que compõem a literatura e a cultura brasileira. Valorização e resistência de saberes, conhecimentos e estéticas que por muito tempo foram relegados à margem dos circuitos oficiais dos grandes eventos. 

Nesta edição, que homenageou a poeta Orides Fontela (1940-1998), a Flip se consolida como um espaço de celebração e enfrentamento, de debates que repensam e projetam novos futuros, que criticam lógicas excludentes e evidenciam outras formas de vínculo social.

Com programação intensa ao longo dos cinco dias do evento, a Casa da Favela, dedicada à literatura, cultura e pensamento periférico, propôs como tema condutor das diversas discussões que organizou o “Afeto como resistência nas periferias”. De acordo com Tuane Rodrigues, coordenadora da casa, a escolha se deu pelo próprio amadurecimento do espaço em sua quarta edição. 

“O afeto, os sentimentos e os amores eles precisam de maturidade para irem se solidificando. Além disso, temos a questão da herança africana e indígena, de entender o modo de vida coletivo”, explica.

Tuane Rodrigues. Crédito: @clickromano

Segundo Tuane, a maneira como nos organizamos hoje enquanto sociedade enfraquece esta forma de vínculo, mas quando se olha para as periferias, este é um modo de sobrevivência e resistência. “As redes de solidariedade, as formas que a gente tem de compartilhamento do cotidiano. ‘Um café aqui, olha meu filho pra mim’, isso é um modo de vida que é o comum nas etnias africanas e indígenas e que é o mote da cultura e da essência brasileiras”, ressalta.

A casa se torna, assim, uma antítese ao senso comum, que muito se baseia em uma lógica eurocêntrica, de que a periferia é feia, pouca e pequena, um local de sofrimento. “Se você olhar nos detalhes desta forma de organização, tem muita beleza de como isso se fortaleceu, de como eles se sustentam e sobrevivem. É realmente fazer um contraponto. A gente veio falar ‘não’, falar do afeto que se dá exatamente nestas necessidades”, destaca a coordenadora. 

Para Tuane, em um contexto de negligência de serviços básicos, como saúde, precariedade de transporte público, de coleta de lixo, a população que vive nos bairros das periferias brasileiras ainda consegue encontrar fortalecimento a partir destes vínculos coletivos. 

A Casa da Favela se dedica a enfrentar a lógica colonizada dos saberes válidos, propondo a emergência de outros conhecimentos. “Nesta lógica colonizada, se entende que o saber vem do modelo acadêmico. Aqui a gente está evidenciando autores que colocam em seus livros o saber que vem de suas próprias vivências, que se transformam em teoria pela prática”, enfatiza. Além disso, uma das propostas do espaço é evidenciar saberes relevantes que nem sempre se encontram nos livros. 

Para Tuane, o modo de viver do brasileiro é cheio de conhecimentos que estão presentes no cotidiano, que são saberes orais. “É por isso que essa referência indígena e africana é tão importante para nós, pois o saber oral ele só se sustenta e sobrevive no afeto, pois ele precisa ser passado na relação”, afirma.

Território, democracia e literatura como ferramenta de trabalho 

As longas filas em frente às pequenas fachadas das casas parceiras da Flip demonstram o interesse nos assuntos que estão sendo discutidos em seu amplo interior. As cadeiras organizadas dentro da Casa Poéticas Negras foram muito disputadas, com público tomando as ruas estreitas do centro de Paraty. A programação das dezenas de mesas de debates organizadas contou com a participação de personalidades importantes do âmbito político e cultural, como a ministra da Igualdade Racial Anielle Franco, as deputadas federais Erika Hilton e Benedita da Silva e a escritora Ana Paula Tavares. 

“A democracia também se constrói pela memória. Pelos saberes ancestrais. Pela palavra que atravessa gerações e mantém vivas as histórias que insistiram em apagar”, anunciava a casa Poéticas Negras ao escolher “Território e Democracia” como tema desta edição. 

Ângela Damasceno, idealizadora, produtora executiva e curadora da edição da casa em 2026, conta que este é um espaço não formal de educação, que surgiu em 2018 durante uma Flip, a partir da necessidade de ter literatura negra para o público do festival. 

“Esta é uma das festas mais importantes aqui na cidade, movimenta a sociedade, dinheiro, fornecedores e público em geral, e sentimos esta carência. Surge, então, esta casa, com a participação de nanoeditoras, com esta ideia de: ‘Vamos trazer seu acervo, seus atores, e a gente elabora uma programação de literatura negra’”, explica. 

Ângela Damasceno na Casa Poéticas Negras. Crédito: Jéssica Gustafson.

Já na primeira edição contaram com a presença das escritoras e intelectuais Cidinha da Silva e Grada Kilomba. Findado o evento, decidiram continuar o projeto para atuar no território de Paraty, criando uma associação que tem a literatura como ferramenta de trabalho. 

Há seis anos atuam na cidade, em bairros periféricos e vulneráveis, tendo entre as suas atividades um curso preparatório de inglês. “Esta é uma cidade turística, se eu oferecesse uma formação de escrita, ia aparecer eu e o formador. Inglês é um serviço caro para uma pessoa adquirir e tem uso imediato. Lançamos o Hey Black, projeto de ensino de inglês afro referenciado e foi um sucesso. Oferecemos 15 vagas considerando o recorte da região da cidade, racial e de gênero e tivemos 150 pessoas inscritas”, relata. 

Entre as leituras que são referência no curso estão as intelectuais e ativistas negras Angela Davis, uma das participantes desta edição da Flip, e Patrícia Hill Collins

Além do Hey Black, oferecem mais dois programas educacionais de longa duração, sendo um contraturno escolar afro referenciado e um preparatório para o vestibular. Participam também de atividades dentro das escolas do município. “Ao longo do ano, a gente desenvolve esse trabalho voltado para uma necessidade que é de formação destes indivíduos numa perspectiva deles se emanciparem na educação e partirem para outras oportunidades. É sobre escolha, uma percepção que a gente não tinha, a gente falava com os jovens e era uma perspectiva muito limitada em uma cidade que não tinha ensino técnico e não tem universidade”, destaca. 

Para Ângela, foi a observação do território que fez com que a Casa Poéticas Negras se reconhecesse neste lugar. “O recorte racial e de gênero é muito importante, pois sabemos que para este modelo de cidade, como é Paraty, são os que mais estão na vulnerabilidade”. 

Como casa parceira da Flip, a Poéticas Negras está dentro da programação oficial do evento e esta visibilidade importa para a manutenção dos projetos continuados. “Em 2024, fomos reconhecidos como um ponto de cultura pelo Ministério da Cidadania e a partir daí nos inserimos nesta proposta de disseminar conhecimento através da música, da literatura, das artes em geral. Era um lugar distante, mas quando nos tornamos, ganhamos força”, conta. 

O tema deste ano, “Território é democracia”, foi escolhido exatamente para lembrar em um ano eleitoral que as decisões na política institucional afetam a vida das comunidades e dos projetos que tentam enfrentar as desigualdades estruturais. 

“Eu sou cria de projeto social, cresci numa periferia bem violenta de São Paulo, com uma mãe solo, e ela não deixava a gente largar os estudos. As quatro filhas se formam, se pós-graduaram, eu fui a primeira a fazer um intercâmbio”, conta a diretora. Ao conhecer as histórias das meninas que frequentam o projeto, Ângela se reconhece e se emociona. Para ela, existe uma grande importância de mulheres negras estarem à frente de projetos como a Casa Poéticas Negras, porque estes são espaço de comunidade, de estar coletivamente, subvertendo a correria do cotidiano. 

“Você está no corre de sobreviver. Falta tempo para a socialização, para a troca, para o pensamento reflexivo”, enfatiza. “Mas quando essa mulher negra se mobiliza, como eu me mobilizei ao chegar em Paraty para iniciar um projeto social, é no lugar da dor, de olhar uma dor coletiva”. Uma dor que só pode ser minimizada na coletividade, no compartilhamento das potencialidades de cada um, nos diálogos que são construídos. 

Ao reunir dez editoras que publicam autores e autoras negras e indígenas, e dezenas de convidados para lançarem seus livros e debaterem sobre os mais diversos assuntos durante mais de 40 horas de programação, a casa visibiliza pautas importantes e coloca em contato escritores e escritoras e seu público. “A democracia está no território e o território está na democracia e a gente está reverberando desde quarta-feira este mantra, para energizar, para não perder a esperança de seguir”, diz Ângela. 

Quais crianças têm o direito de sonhar?

Eu me lembro como era o meu barraquinho

Era aquele local o meu cantinho

Eu desde menino não sabia porquê

Havia perto de casa tanto miserê

[…]

Barraquinho demolido pela prefeitura 

Barraquinho com pouca estrutura

Barraquinho que ninguém quer morar

Barraquinho construído em todo lugar

[…]

(Trecho do livro “Os barraquinhos da Favela”, de Wesley Barbosa (Editora Moderna/2026)

A festa literária também abriu espaço para discutir outros direitos, especialmente para as crianças. Ao mediar a mesa “Direito de sonhar: literatura para infâncias nas periferias”, organizada pela Casa da Favela,  a professora universitária Silvana Santus provocou uma reflexão sobre a responsabilidade que a sociedade tem em retomar o direito das crianças de sonhar. “Essa garantia que parece básica, mas que é tão difícil de ser sustentada”. 

Pesquisadora das infâncias no Brasil, ela conta que se deparou com um recorrente questionamento trazido por crianças que enfrentam a vulnerabilidade social: “Pra que é que eu vou sonhar?”.

A pergunta encontra um contraponto na trajetória de Sagat B. Ele leu seu primeiro livro, “O Alienista”, Machado de Assis, aos 33 anos, durante sua terceira passagem pelo sistema prisional. Hoje, escritor, ator, rapper e educador social, participou da mesa para lançar seu novo livro infanto-juvenil “Binho, O Pretinho Sonhador”. “Eu sou tudo aquilo que na realidade eu não sonhei ser, sou imortal da Academia Brasileira do Cárcere, sento na cadeira cujo patrono é Nelson Mandela, nada mais nada menos”, se apresenta. 

Para o escritor, a questão do sonho é central em sua vida porque na sua infância e adolescência foi privado dessa possibilidade. “Eu saí em 2014, naquela época ainda não sonhava em ser escritor, porque os sonhos eles vão se descortinando à medida que você vai caminhando. Aprendi a cortar cabelo, montei uma barbearia e depois decidi trabalhar nos meus sonhos e ser um artista”, relata.

Sua trajetória só foi alterada a partir do momento em que começou a sonhar com a vida sendo artista fora do presídio. “Quando comecei a mostrar a minha música, a minha poesia, a minha perspectiva, as pessoas começaram a se identificar. Se aqui dentro estão gostando, o moleque lá da favela também vai gostar. Vou fazer isso lá fora”, relata.

Mesa “Direito de sonhar: literatura para infâncias nas periferias”. Crédito: @clickromano

Desde 2024, Sagat B atua dentro de escolas do Rio de Janeiro e identifica o mesmo problema que o atingiu, a falta de perspectiva na infância e adolescência. “Quando eu chegava na escola e ia perguntando criança por criança, ‘qual o seu sonho?’, percebi uma porcentagem triste de que 70% não sabia o que queria fazer no futuro, não tinha uma meta, não tinha um objetivo”, conta. Para ele, o sonho não está ao alcançar o objetivo, mas no percurso. 

“Digamos que tenha uma criança que sonha em ser astronauta da Nasa, sonho difícil, mas é um sonho justo, lícito, ela tem que saber que tem esse direito”, ressalta.

A professora e escritora Luana Rodrigues, autora de diversos livros infantis, entre eles “Mar de Marielle” (Editora Malê Mirim) e “Pra que medo?” (Nova Fronteira), conta que sua experiência em sala de aula na Baixada Fluminense também evidenciou a falta de perspectiva dos seus alunos. “Este era o grande problema, a grande doença dos meus alunos. Quando a gente falava ‘olha, estuda’, ‘presta atenção nisso’, eles falavam ‘pra que?’”. 

Formada em Letras, a leitura entrava em suas aulas a partir deste lugar de possibilidade de ampliação de horizontes, de experiências. “Um lugar bem piegas. Mas era muito difícil para eles enxergarem isso. Este é o maior desafio para os educadores e para quem escreve. Hoje eu enxergo a literatura como real ferramenta, o que eu uso para tentar quebrar preconceitos, abrir perspectivas, inclusive para meus filhos, que são negros, e que eu quero que sonhem e que vivam”, destaca. 

Para Luana, a literatura infantil tem uma força ainda maior, embora o mundo literário a considere menor. “A base precisa vir forte e ela vai vir a partir do que oferecemos para ela. Precisamos oferecer boas leituras para que elas possam imaginar coisas que não façam parte do dia a dia delas”, ressalta. 

Comunhão e solidariedade como estratégias de sobrevivência

O escritor e educador social Douglas Belchior, por sua vez, destacou na mesa sua atuação no movimento negro e a mudança subjetiva necessária para a produção de um livro infantil. “Um processo fora do habitual da militância política dentro do movimento negro, que é alimentada por uma dinâmica muito dura, do combate a uma realidade que oferece morte para a nossa juventude, para a nossa população”, diz. 

De acordo com ele, agendas que são muito caras a determinados grupos sociais  — que embora não sejam específicas, dizem respeito à  maioria da população, como as pessoas negras e as mulheres — podem ser transformadas  quando o   olhar se volta para as crianças. 

Segundo Douglas, sua preocupação na formulação do livro “Vamos dividir?” (Editora Pallas Mini) partiu da premissa de que sentimentos de colaboração e solidariedade com o outro são fundamentais para o desenvolvimento de outras percepções na infância. A provocação a essa preocupação com o outro, que é diferente, envolve o despertar de atitudes de partilha, valores mais frequentes nas periferias, em que a comunhão e a solidariedade são estratégias de sobrevivência. 

“Como o dinheiro nunca dá até o final do mês, pendurar a conta, marcar na caderneta, é fundamental para a sobrevivência. Esses valores de solidariedade são fundamentais de serem exercitados sobretudo no tempo que estamos vivendo, em que as crianças estão mais sozinhas, em que a rua não é mais lugar de sociabilidade”. 

 Douglas defende que é preciso reativar esses valores que são tão presentes na vida do povo brasileiro, sendo a infância uma etapa privilegiada para isso. “Isto é diferente do que eu estou acostumado a escrever: tiro, polícia, cadeia, morte, prisão. Penso que é um antídoto que pode prevenir o que vem de ruim depois”, completa. 

Descaravelizar a literatura a partir da perspectiva indígena

A infância também foi o ponto de partida para discutir a importância de visibilizar outras narrativas a partir das cosmologias indígenas. Na grande tenda montada em frente à praça da Matriz, Aline Ngrenhtabare Lopes Kaiapó integrou as atividades da Flipinha, realizou uma contação de história  e autografou seu livro “Yakirana, a guerreira de Uruitá” (Editora PeraBook). 

Ao abrir sua fala no palco, destacou a importância de se fazer presente ali. Em entrevista, aprofundou essa manifestação. “Ser uma mulher indígena em um estado genocida, sexista; ser pesquisadora em um país que não incentiva a pesquisa; ser escritora em um país que não investe em leitores; e estar em um corpo ancestral, politicamente consciente da sua ancestralidade, em um lugar de importância como a Flip, é muito importante para nós indígenas”, afirmou.

Aline Kaiapó. Crédito: Jessica Gustafson.

Segundo ela, a literatura é um instrumento de descaravelização, capaz de oferecer  uma  narrativa diferente da disseminada  durante séculos. “Utilizando a metodologia correta, a gente consegue furar essa bolha caravélica e propiciar para as pessoas uma outra visão, que não é a do confronto”, destaca. 

Aline recorre à analogia do cultivo da terra para explicar por que considera a literatura infantil um caminho privilegiado para promover mudanças. Para ela, trabalhar com adultos é como plantar em um solo árido e duro, as mãos ficam calejadas e muitas vezes se desperdiçam sementes. Enquanto as crianças são um alívio porque a terra é fofa e cheia de nutrientes onde as sementes encontram melhores condições para germinar.

Jurista e pesquisadora, Aline é cofundadora do Mulherio Nacional das Letras Indígenas, coidealizadora do Movimento Plurinacional Wayrakuna-MPW e coidealizadora do primeiro grupo de pesquisa exclusivo para indígenas mulheres, o GP Wayrakuna. Dentro do Mulherio, estão reunidas mulheres indígenas que compartilham o estímulo pela escrita como forma de expressão. Entre as obras publicadas, está o “Álbum Biográfico Guerreiras da Ancestralidade”, que reúne parte da história de importantes mulheres indígenas brasileiras. 

Segundo Aline, escrever ainda é um desafio para muitas dessas mulheres, já que a oralidade é a principal forma de transmissão de conhecimento entre os povos originários. “Elas muitas vezes encontram processos difíceis para escrever seus livros, pois este não é um processo comum, mas elas têm conseguido superar o desafio de escrever, porque nós somos da oralidade. Mas se a gente precisa escrever para chegar à comunidade do entorno, a gente faz isso”, explica. 

Ainda assim, ela destaca a importância da literatura para aproximar a sociedade das experiências e visões de mundo dos povos indígenas. “A sociedade muitas vezes não quer a parte dolorosa que atravessa essas cosmovisões, mas tentamos contar isso de forma lúdica”, garante.

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