A trajetória de mulheres fora da cisheteronormatividade no Brasil é marcada pelas opressões sofridas, mas também pela resistência contínua desses grupos. Vivências que enfrentaram, e ainda enfrentam, tentativas sistemáticas de apagamento histórico, desafiando os padrões de gênero impostos pela sociedade brasileira desde o período colonial.

Diferente do que muitos imaginam, os registros de relações conjugais entre mulheres e identidades de gênero diversas remontam aos povos originários. Pesquisadores como Érika Aparecida Pretes e Túlio Vianna indicam que, em algumas comunidades indígenas tupinambás, havia mulheres que desempenhavam papéis tradicionalmente masculinos, como caçar, ir à guerra e usar arco e flecha, e que conviviam com outras mulheres como casais.

No período colonial, surge a figura emblemática de Xica Manicongo, considerada a primeira mulher travesti não indígena do Brasil. Originalmente do Congo e escravizada em solo brasileiro, ela resistiu à imposição das vestimentas masculinas, mantendo o uso de roupas femininas tradicionais de sua terra natal. Sua identidade foi revelada por meio de denúncias de “sodomia” feitas à Inquisição em 1591. Para escapar da sentença de morte, Xica foi forçada a negar sua identidade e alterar seu vestuário por uma questão de sobrevivência.

Já o reconhecimento da identidade lésbica como uma categoria social é relativamente novo. Até o século 19, o termo “lésbica” não era utilizado de forma recorrente, em vez disso, falava-se em práticas isoladas. Mulheres homossexuais eram frequentemente descritas como “sexualmente indefinidas” devido ao seu comportamento considerado subversivo para a época.

A forma como a sociedade e o mercado lidam com essas identidades também passou por transformações drásticas. Nos anos 2000, era comum o uso da sigla GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), que possuía um viés predominantemente comercial para identificar locais frequentados por esse público. Com o tempo, a sigla evoluiu gradualmente para ser mais inclusiva, incorporando explicitamente as identidades transgênero e bissexuais, refletindo a luta política por mais representatividade e direitos específicos.

Resgatar essas histórias é fundamental para preencher as lacunas de uma narrativa nacional que por muito tempo tentou ignorar as existências. Neste Dia Nacional do Orgulho LGBTQIAPN+, data que remete ao lançamento do Programa Brasil Sem Homofobia, em 2004, separamos uma lista de mulheres brasileiras cujas contribuições foram decisivas em diferentes áreas. Confira:

1. Filipa de Sousa

Portuguesa radicada na Bahia, Filipa foi condenada pela inquisição por se relacionar com seis mulheres. Seu julgamento é considerado o primeiro caso de perseguição sexual e de condenação da prática de lesbianismo pelo Tribunal do Santo Ofício em terras brasileiras, sendo ela reconhecida como uma das primeiras vítimas de homofobia no Brasil. 

No dia 26 de janeiro de 1592, após andar descalça pelas ruas em cortejo de humilhação até à Igreja da Sé, em Salvador, e ouvir sua sentença de pé com uma vela acesa nas mãos, Filipa foi atada ao pelourinho, açoitada e recolhida ao calabouço, onde recebeu assistência médica pelos seus ferimentos durante quatro dias.

Não há retratos ou imagens conhecidas de Filipa, já que pessoas comuns raramente eram representadas visualmente naquele período. Mas ilustrações contemporâneas buscam imaginar sua figura a partir do contexto histórico, como na capa do livro de Antonio Fontoura.

5 Mulheres que desafiaram padrões de gênero e marcaram a história do Brasil

2. Cassandra Rios

Escritora brasileira filha de imigrantes espanhóis, Cassandra escrevia ficção e, principalmente, sobre homossexualidade feminina e erotismo, sendo a primeira escritora a tratar do tema no país. Ela se tornou a primeira escritora brasileira a vender 1 milhão de exemplares, superando escritores populares da época. 

Considerada uma das artistas mais perseguidas pelos censores da ditadura militar brasileira, 36 dos seus 50 livros foram censurados.

3. Kátia Tapety

Kátia se tornou vereadora pela primeira vez em 1992, quando o povoado de Colônia do Piauí se tornou município. O reconhecimento de seu trabalho em prol daquele território a garantiu o título de vereadora mais bem votada da cidade, feito que se repetiu em 1996 e 2000. Kátia Tapety é considerada a primeira mulher trans negra eleita vereadora no Brasil e na América Latina.

Seu nome foi dado à Escola de Formação Política Kátia Tapety, iniciativa do Instituto Internacional sobre Raça, Igualdade e Direitos Humanos, com o objetivo de formar mulheres negras, indígenas e LGBTQIAPN+ para a disputa política.

4. Rosely Roth

Rosely foi uma das principais ativistas lésbicas do Brasil durante a ditadura militar e no processo de redemocratização. Ela teve um papel fundamental na organização política de mulheres lésbicas e na luta por visibilidade e direitos LGBTQIAPN+ no país. 

Sua ação mais conhecida aconteceu em 19 de agosto de 1983, no Ferro’s Bar, em São Paulo. Na época, mulheres lésbicas foram proibidas de distribuir o boletim informativo ChanacomChana no estabelecimento. Em resposta, Rosely e outras ativistas organizaram um protesto que denunciou a discriminação. Por causa desse evento, 19 de agosto passou a ser celebrado como o Dia Nacional do Orgulho Lésbico.

5. Indianarae Siqueira

Mulher trans e ativista, ganhou destaque por sua atuação em defesa dos direitos de pessoas LGBTQIAPN+, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade social. É fundadora da CasaNem, espaço de acolhimento para pessoas expulsas de casa, e do PreparaNem, iniciativa voltada à inclusão educacional e ao acesso de pessoas trans ao ensino superior. 

Indianarae também teve atuação política institucional, sendo candidata a cargos públicos e defendendo pautas como moradia, educação e combate à violência contra pessoas trans, consolidando-se como uma das figuras mais influentes do ativismo trans contemporâneo no país.

APOIE O JORNALISMO INDEPENDENTE


Fazer uma matéria como essa exige muito tempo e dinheiro, por isso precisamos da sua contribuição para continuar oferecendo serviço de informação de acesso aberto e gratuito. Apoie o Catarinas hoje a realizar o que fazemos todos os dias!

CONTRIBUA COM QUALQUER VALOR NO PIX
Palavras-chave:
  • ariele-lima

    Natural de Juazeiro, sertão baiano. Estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), c...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas