A renúncia da professora Joana Célia dos Passos à vice-reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) não é um acontecimento isolado, nem pode ser reduzido a um conflito de gestão administrativa. O que ela expõe diz respeito a todas as mulheres que hoje vivem, trabalham e resistem dentro da universidade.

Quando uma mulher — especialmente uma mulher negra — denuncia violência política de gênero, silenciamentos e falta de reconhecimento, ela está nomeando práticas que atravessam a vida de todas nós. A universidade reproduz hierarquias de gênero e raça que moldam quem pode falar, quem pode decidir e quem é permanentemente colocado à prova. 

O feminismo negro nos oferece ferramentas fundamentais para compreender esse processo. Patricia Hill Collins, ao formular a ideia de matriz de dominação, demonstra que opressões de gênero, raça e classe não atuam separadamente, mas se entrelaçam para produzir formas específicas de controle sobre determinados corpos. Mulheres negras em posições de liderança, como a professora Joana, enfrentam não apenas o machismo institucional, mas também o racismo que insiste em tratá-las como intrusas em espaços de poder.

A contestação constante de sua autoridade, o isolamento político e a disputa de narrativas são mecanismos que, como Collins aponta, mantêm estruturas de dominação funcionando mesmo quando mulheres formalmente ocupam cargos de prestígio. 

Ao mesmo tempo, podemos entender que, como no caso da professora Joana, aciona-se outra camada de complexidade, que aprofunda ainda mais a forma de operar da violência de gênero. Lélia Gonzalez nos ajuda a compreender como o racismo opera no Brasil de forma sutil, mascarada, cordial, mas profundamente violenta. O que ela chama de racismo por denegação se manifesta na universidade quando mulheres negras são interrompidas, questionadas, tuteladas ou elogiadas de forma condescendente, como se sua competência fosse sempre uma surpresa.

É o racismo que diz “não sou racista, mas…”, enquanto reproduz práticas que deslegitimam a presença dessas mulheres nos espaços decisórios. A experiência da professora Joana ecoa exatamente esse padrão: a violência nem sempre é explícita, mas se expressa em interrupções, deslegitimações, isolamento e tentativas de controlar o que incomoda. 

Justamente por isso o que a professora Joana expõe diz respeito a todas nós. As violências de gênero que atravessam a UFSC — e tantas outras universidades — não são exceções. São práticas cotidianas que moldam nossos dias e nossos corpos: somos interrompidas em reuniões, somos questionadas mesmo quando dominamos o assunto, somos complementadas por colegas que ocupam o mesmo cargo, como se nossa fala precisasse de tutela. Somos elogiadas de forma condescendente, responsabilizadas por conflitos que não criamos, observadas com lupa quando ocupamos espaços de poder.

Organizamos nossos cotidianos para caber em expectativas que não foram feitas para nós. Disputamos narrativas todos os dias. 

Quando a professora Joana denuncia a disputa de narrativas em torno de sua saída, ela revela algo que todas nós vivemos: mulheres precisam justificar sua presença o tempo todo. Precisam explicar suas decisões, suas emoções, seus métodos. Precisam provar, reiterar, reafirmar sua legitimidade — enquanto colegas homens simplesmente ocupam o espaço. E, quando ousamos discordar, apontar problemas ou reivindicar autonomia, a reação costuma ser a mesma: somos vistas como exageradas, emocionais e desagregadoras. A crítica que vem de uma mulher é tratada como ameaça; a mesma crítica, quando dita por um homem, é recebida com ponderação. 

A renúncia da vice-reitora Joana Célia dos Passos é, portanto, um sintoma de um sistema que ainda não aceita mulheres nos espaços de poder. Ela nos obriga a olhar para a UFSC com honestidade e a reconhecer que a luta feminista dentro da universidade é urgente, coletiva e inadiável. Não basta ocupar espaços; é preciso transformar as estruturas que definem quem pode permanecer neles.

É preciso romper com a lógica que naturaliza a violência política de gênero. É preciso construir instituições que reconheçam e legitimem a autoridade de mulheres, que não as isolem, silenciem ou empurrem para fora. 

O que está em jogo não é apenas um cargo. É o futuro das mulheres na universidade. É a possibilidade de que nossas trajetórias não sejam exceção, mas caminho. É a construção de uma UFSC onde nossas vozes não sejam tratadas como ruído, onde nossas narrativas não sejam disputadas, onde nossa presença não seja tolerada, mas reconhecida como legítima e necessária. 

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  • Profa. Associada IV -Educação e Infância /CED e dos Programas de Pós-Graduação PPGE E PPGICH. Pós-Doutora na Faculdade d...

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