O Portal Catarinas esteve presente no encontro “Misoginia online: caminhos para o enfrentamento”, organizado pelo Olabi, em parceria com a Secretaria de Políticas Digitais da Secom e o Ministério das Mulheres, com apoio da Embaixada Britânica do Governo do Reino Unido e do Fundo Elas. O evento aconteceu durante a 10ª Conferência dos Estados Partes do Mecanismo de Acompanhamento da Convenção de Belém do Pará (MESECVI) e a Reunião de Ministras e Altas Autoridades do Mercosul, nos dias 9 e 10 de dezembro, realizado em Fortaleza, no Centro de Eventos do Ceará. 

O encontro debateu os impactos sociais, emocionais, psicológicos, econômicos e políticos das violências de gênero que afetam meninas, jovens e mulheres. Ao longo de dois dias, estratégias de enfrentamento foram construídas, evidenciando a urgência de regulação do ambiente digital e, sobretudo, das plataformas, para que o espaço virtual seja seguro, sustentável e inclusivo para esse público. 

Na fala de abertura proferida pela ministra Márcia Lopes, do Ministério das Mulheres, ela afirmou: “A juventude é um tema ‘da hora’ e precisamos entender o impacto (da misoginia online). Não tínhamos ideia que processos vexatórios e criminosos afetariam a vida das meninas e mulheres”. Ela também reforçou a importância da regulação. 

“A internet não pode continuar sendo um território livre para abusos e agressões, o ambiente digital precisa ser espaço de criação, de participação e de liberdade. As mulheres do nosso continente têm direito de existir online, de falar, de criar, de disputar narrativas e de liderar, sem pagar com a própria dignidade ou mesmo com a vida”, enfatizou a ministra. 

Nicole Ballesteros, presidente da Associação Portal Catarinas, que participou do debate, destacou que a misoginia online é a expressão de um ódio historicamente dirigido às mulheres, ampliado pelas ferramentas digitais. Essa lógica tem gerado uma espetacularização dos corpos de meninas e mulheres, transformando o sentido social das relações humanas.

Violência online, impacto real 

Para a representante da ONU Mulheres no Brasil, Ana Carolina Querino, a misoginia online cria obstáculos para os avanços nos direitos das mulheres, pois traz consigo novas expressões da violência de gênero, estruturais em nossa sociedade. Além disso, enfatizou que “a violência é online, mas o impacto é real”, e vem acompanhando as várias violências reproduzidas historicamente. 

“Nós, mulheres, não podemos mais ficar caladas. Principalmente as defensoras sociais têm sido as mais afetadas, em torno de 70%. Destas, 50% experimentaram violências offline, e houve também aumento de 20% a 42% de ataques a jornalistas, de 2024 a 2025”, acrescentou.  

A embaixadora e chefe da Divisão de Gênero do Chile, Andrea Droppelmann, apresentou estratégias de enfrentamento ao problema pelo Estado chileno, tecendo diálogos com as autoridades presentes para a promoção e proteção da participação plena das mulheres em seu exercício de cidadania. Ela explicou que a misoginia online combina discurso de ódio às mulheres, ofensas à reputação, fake news, montagens, deepfakes, entre outras formas de violência, com ataques sistemáticos às mulheres candidatas ou em exercício de mandatos políticos.

Ainda para a embaixadora, a regulação do ambiente virtual e das plataformas digitais é urgente, “para que as mulheres possam usar as redes e plataformas em seu benefício sem que sofram ameaças laborais e/ou políticas para restringir a sua participação”.

Em convergência, a ministra Alicia Pomata Gunsett, do Ministério da Mulher do Paraguai, ressaltou que “é importante que esses temas tenham incidência política, para garantir a presença segura das mulheres no meio digital”. E acrescentou: “Precisamos trabalhar mais o futuro em temas éticos sobre cidadania digital, para que o ambiente virtual não seja nocivo, mas sim propício à produção de conhecimento”, disse durante a Mesa das Ministras do Mercosul: “Violência online: respostas articuladas”.

Projetando algoritmos para a justiça de gênero

O painel “Diversidade by design: projetando algoritmos para a justiça de gênero”, contou com a participação da co-diretora executiva da Olabi, Silvana Bahia, que destacou a urgência de pensar tecnologias e sistemas digitais capazes de promover a justiça de gênero. Ela destacou que o ambiente digital não cria o machismo, o racismo ou a misoginia, mas amplia essas violências, assim como ocorre com outras tecnologias amplamente utilizadas na sociedade.

Silvana defendeu que a diversidade deve ser incorporada desde o início do desenvolvimento tecnológico, ainda no código e no desenho dos algoritmos, passando por quem ocupa os espaços de decisão, define modelos de negócio e formula políticas públicas e privadas. Para a co-diretora, a justiça de gênero precisa ser compreendida como um eixo transversal das políticas de tecnologia, incluindo iniciativas voltadas à inteligência artificial, compras públicas, data centers e estímulo a novos empreendimentos.

Ela também ressaltou que o ambiente digital funciona como um espelho da sociedade, mas com efeito de ampliação, o que aprofunda desigualdades já existentes. Nesse sentido, chamou atenção para o fato de que a indústria tecnológica é majoritariamente masculina, branca e localizada no Norte Global, o que produz distorções significativas nos sistemas e plataformas digitais.

Segundo Silvana, não se trata de um “defeito técnico”, e sim do resultado de escolhas sociais incorporadas no código. “A misoginia — e, mais profundamente, o patriarcado — já é estrutural no offline. Quando esses padrões entram nos datasets, nos modelos de inteligência artificial ou nos mecanismos de recomendação, eles se automatizam”.

Como exemplo, citou algoritmos de recomendação que amplificam discursos de ódio por gerarem engajamento, plataformas que respondem mais rapidamente a denúncias feitas por homens do que por mulheres e sistemas de reconhecimento facial que apresentam maiores taxas de erro ao identificar mulheres negras. Essas práticas, segundo a co-diretora, contribuem para processos de censura e autocensura e dificultam a participação de mulheres negras, indígenas, trans e periféricas em espaços de poder e decisão, especialmente na política.

Plataformização da misoginia

Em seguida, na mesa “Violência de gênero como modelo de negócio: a plataformização da misoginia”, participaram a conselheira titular Bianca Kremer, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br); a secretária-adjunta de Políticas Digitais, Nina Santos, da Secretaria de Comunicação da Presidência da República; a professora e pesquisadora Mariana Valente, da Universidade de St. Gallen e da diretoria do InternetLab; e a especialista em políticas de internet Daniela Silva. A mediação ficou a cargo de Gabriela Agustini, da Olabi.

Bianca Kremer alertou para a disseminação de conteúdos digitais misóginos no Brasil e em outros países lusófonos. Ela defendeu a regulação das plataformas digitais a partir de uma perspectiva de gênero e de direitos humanos, criticando a estrutura que permite que dados sejam transformados em ativos econômicos e utilizados em modelos de negócios.

Nina Santos, por sua vez, destacou a importância da qualidade da informação nas ferramentas digitais, que poderiam ser usadas para impulsionar ações contra violências de gênero, mas que, na prática, têm ampliado essas agressões.

“A misoginia não só é transportada para o meio digital, ela é transformada, porque online ela tem especificidades ligadas a mediadores, atores, negócios e lucratividade”, explicou.

Segundo ela, é fundamental que as pessoas compreendam o uso da tecnologia como ferramenta de acesso a direitos e cidadania. Dentro das propostas listadas para avanço do eixo regulatório das plataformas digitais com o Projeto de Lei nº 2338/2023 (PL da Inteligência Artificial), a secretária destacou algumas ações: lidar com designer político (novo); responsabilização; vedar qualquer uso explícito discriminatório; regras mais rigorosas para deep nudes — entendidas como disseminação de conteúdos não consensuais — e fortalecimento da atuação da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).

Para Mariana Valente, a amplificação de conteúdos misóginos revela décadas de falta de enfrentamento, deixando claro que não há mais tempo a perder. “As plataformas oferecem moderação como principal serviço, mas os mecanismos existentes são insuficientes e a violência contra mulheres continua sendo tolerada”, afirmou. Segundo ela, a segurança de meninas e mulheres no ambiente virtual muitas vezes é sacrificada em nome da lucratividade, com propagandas que reforçam tanto o desprezo feminino quanto ideologias masculinistas e discursos de ódio.

Daniela Silva trouxe o caso de um influenciador redpill que agrediu a companheira e relativiza situações de violência, apontando como a misoginia online emerge de uma cultura de tolerância que perpetua a impunidade. Ela enfatizou que há um choque na governança democrática, que não garante liberdade nem uma vida sem violências para meninas e mulheres. “Estamos muito carentes de governança democrática”, concluiu.

Plataformização da vida: afetações, cuidados e direitos para meninas e mulheres 

Com a mesa “ECA Digital sob a perspectiva de gênero: misoginia e adultização de crianças no ambiente online”, mediada pela Mariana Ochs, da Educamídia, foi dada continuidade ao segundo dia do evento. 

Mariana chamou a atenção para as consequências de conteúdos e influenciadores misóginos no engajamento de jovens, destacando que os indivíduos fora da “machosfera” são atraídos linguagem e narrativas de pertencimento a identidades moldadas por uma formação midiática misógina e de risco sistêmico. O que aumenta a desproteção das vítimas, muitas delas meninas e jovens. 

Fabiana Pinto, do coletivo Mulheres Negras Decidem, falou sobre a disputa por narrativas e como o aumento das violências digitais exige a ativação de protocolos e mecanismos de proteção. Entre os exemplos citados estão a sexualização não consensual de meninas e mulheres, pornografia deepfake e deep nudes, violências que, no ambiente virtual, se transformam em conteúdo e entretenimento, conforme também citaram representantes de organizações governamentais e não governamentais.

Livia Rocha, representante da Girl Up, ressaltou a necessidade de educação midiática voltada à escuta de meninas e meninos, apontando que a mesma perspectiva deve guiar políticas digitais a serem implementadas e/ou executadas. Apesar de o ECA Digital representar um avanço na proteção infantil e juvenil, ele constitui um teto mínimo e precisa dialogar com os marcadores raciais e sociais que atravessam as relações de gênero na infância e juventude. 

A mesa também trouxe a socialização de pesquisas sobre a temática, com menção a estudos do Grupo de Pesquisa Internet e Direitos Humanos — vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Internet e Direitos Humanos do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM) da Universidade de Brasília (UnB) — e do NetLab, laboratório de pesquisa da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ).

Tecnologia não é apartada da cultura

Para o encerramento do evento foi organizada uma mesa de diálogos com o tema “Misoginia e responsabilização: ciclo da violência online e o enfrentamento jurídico aos discursos de ódio contra meninas e mulheres”, que contou com a participação de todas as convidadas: pesquisadoras, ativistas, representantes de organizações governamentais e não governamentais. 

Cricia Shyhê Pataxó, da organização Co-criando Futuros, fez a abertura da mesma com o histórico de violências que têm marcado as mulheres indígenas na política, tanto institucional quanto comunitária, e nos territórios. Ela ressaltou a necessidade de mudanças na sociedade e na forma como nos relacionamos com a tecnologia.

“Infelizmente, temos uma ideia cartesiana de que a tecnologia é apartada da cultura, um espaço onde ‘tudo pode’, a tão sonhada terra sem lei que os brancos sempre almejaram e não conseguiram quando chegaram a Pindorama. Para nosso desespero, ainda somos novos em medidas de regulamentação e proteção às nossas meninas e mulheres”, ressaltou. 

Outras contribuições também abordaram propostas efetivas para: regulamentação de plataformas e redes sociais; enfrentamento da misoginia online tanto social quanto juridicamente; e promoção de letramento digital com perspectiva de gênero, considerando as assimetrias no acesso a novas tecnologias produzidas globalmente.

Nesse mesmo dia, no marco da realização da 10ª Conferência dos Estados Partes do MESECI, a ministra Márcia Lopes lançou a  Lei Modelo Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Digital contra Mulheres para a garantia de construção de políticas mais seguras e eficazes. 

A Lei Modelo define estratégias e ações para prevenir essas violências, como acolher as vítimas de forma humanizada e como garantir a responsabilização dos autores e estabelece um padrão para que todos os países ampliem sua capacidade de enfrentar crimes digitais, desde ameaças e perseguição até a divulgação não consensual de imagens íntimas.

“Para nós, do Catarinas, foi de grande importância participar do evento. Os debates nesses dois dias foram intensos e profícuos, resultando em grandes desafios pela frente. A urgência do tema, não deixa dúvidas de ações intersetoriais, combinadas e articuladas entre os diferentes atores sociais envolvidos (governamentais e não governamentais), ao mesmo tempo, saímos fortalecidas e enriquecidas de conhecimentos e soluções para garantir o compromisso com a vida livre de violências às meninas, jovens e mulheres”, avaliou Nicole Ballesteros.

Mais informações sobre o evento estão disponíveis nas redes do @olabiorg e do @mmulheres e no site misoginiaonline.olabi.org.br.

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