O Supremo Tribunal Federal (STF) inicia nesta terça-feira, 2 de setembro de 2025, o julgamento histórico de Jair Bolsonaro e outros sete réus pela tentativa de golpe de Estado após a derrota do ex-presidente nas eleições de 2022. 

Entre os acusados estão o deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), ex-diretor geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin); o almirante Almir Garnier, ex-comandante da Marinha; Anderson Torres, ex-ministro da Justiça; o general Augusto Heleno, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República; Mauro Cid, ex-ajudante de ordens; o general Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa; e o militar da reserva Walter Braga Netto, ex-ministro da Defesa e da Casa Civil.

 O julgamento, previsto para se estender até o dia 12 de setembro, ocorre em um contexto de alta tensão e expectativa nacional. A 1ª Turma do STF  decidirá se condena ou absolve os acusados, e a operação será acompanhada com esquema de segurança reforçado na Praça dos Três Poderes. A acusação da Procuradoria-Geral da República (PGR) é severa, envolvendo crimes como organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, além de dano qualificado ao patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado. 

Nunca antes na história deste país um ex-mandatário e militares tão influentes foram criminalmente responsabilizados por tentativa de ruptura da ordem democrática.

Inclusive, enquadro como paternalistas as matérias feitas sobre este julgamento pela revista inglesa The Economist e pelo jornal americano The New York Times. Apesar de demonstrarem compreender a importância do momento, nem uma nem outra reconhece que é o Brasil quem está na dianteira da luta contra a extrema direita fascista da contemporaneidade.

O Movimento Ele Não é uma das sementes desta luta. Nascido em 2018 como uma resposta contundente das mulheres brasileiras contra a ameaça de retrocesso representada por Jair Bolsonaro, o nome foi sugerido pela publicitária Ludmila Teixeira, e rapidamente se espalhou pelas redes sociais. Com estratégia de mobilização, feministas de diferentes matizes abraçaram o chamado, compreendendo que não se tratava apenas de rejeitar um candidato, mas de marcar posição coletiva contra a misoginia, o racismo, a homofobia e o autoritarismo que sua candidatura simbolizava.

Da potência digital, o movimento tomou as ruas: milhares de mulheres se reuniram em atos históricos em várias cidades do Brasil e do mundo, ocupando praças, avenidas e manchetes internacionais. O feminismo brasileiro mostrou sua força ao articular, com coragem e criatividade, uma mobilização plural e descentralizada, que deixou claro que a política não pode continuar ignorando nossas vozes. A campanha “Ele Não” não foi apenas protesto, foi afirmação de presença política.

Eu mesma, como feminista, escritora e educadora, estive entre as que ajudaram a fortalecer esse debate. Ao lado de tantas companheiras, defendi a importância de dizer não ao avanço da extrema direita, mas sobretudo de dizer sim à nossa capacidade de criar novos futuros em comum.

O “Ele Não” ecoou como um grito de resistência e solidariedade que segue ressoando: uma recusa clara ao autoritarismo e também um chamado para que a política brasileira seja influenciada pela ética feminista de igualdade e justiça.

Em 2015, o segundo mandato da ex-presidenta Dilma Rousseff foi atravessado por uma crise política e econômica alimentada por disputas partidárias e pela ofensiva conservadora que se consolidava no Congresso. O processo de impeachment que se seguiu foi conduzido por Eduardo Cunha e se transformou em um espetáculo político que escancarou a misoginia entranhada na política brasileira.

Como escrevi em 2016, “O feminismo aponta os ritos do ‪patriarcado como quer que eles se manifestem, e a votação acerca da abertura do processo de impedimento de Dilma Rousseff que ocorreu na Câmara no domingo 17 de abril de 2016, foi indubitavelmente patriarcal.” Naquele dia, “uma maioria esmagadora de homens brancos, ricos e (ao menos declaradamente) heterossexuais, ofereceu seu sim a um novo governo do povo com discursos contraditoriamente individualistas. ‘Pela minha família, por deus, pelos meus’. Pela mesma coisa de sempre. Pelo que é meu.”

O contraste de gênero e de valores foi evidente: “A proporção de homens e mulheres na sessão, aliada aos valores explicitados nas justificativas, acabou por nos oferecer o espetáculo da transmissão do ‎patriarcado, ao vivo e em rede nacional.” Entre as declarações mais brutais, ecoa até hoje a de Jair Bolsonaro, que dedicou seu voto favorável ao impeachment à memória do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra — um gesto que condensou tanto a violência política contra Dilma quanto o desprezo declarado pela democracia.

O impeachment de 2016 ficou marcado como um golpe institucional que destituiu a primeira mulher eleita presidenta do Brasil e instalou Michel Temer no poder. A agenda ultraliberal que se seguiu, com cortes de direitos sociais e ataques a políticas públicas, expôs de imediato o caráter antidemocrático daquela manobra. 

O feminismo brasileiro denunciou que o processo tinha a aniquilação das mulheres como forma de fazer política. Mais do que uma troca de governo, era uma operação de retrocesso, reposicionando forças conservadoras dispostas a minar avanços históricos.

Em 2018, o país assistiu a mais uma ruptura com a prisão do então ex-presidente Lula, favorito nas pesquisas, em decorrência da Operação Lava Jato. A condenação e o encarceramento de Lula foram determinantes para inviabilizar sua candidatura, configurando um cenário eleitoral distorcido que favoreceu a ascensão da extrema direita. A interdição política de Lula representou o aprofundamento da ofensiva contra a democracia e abriu espaço para que Jair Bolsonaro emergisse como candidato viável.

Naquele mesmo ano, as eleições presidenciais sofreram ataques da máquina de fake news  —  o “ecossistema de desinformação”, como postula a cientista social brasileira Dra. Eliara Santana  —  e pelo uso intenso das redes sociais como campo de guerra política. O governo Bolsonaro foi marcado pela militarização da política, pela corrosão das instituições e pela escalada da violência política. 

Generais, almirantes e oficiais ocuparam postos estratégicos, legitimando um projeto de poder autoritário que se apoiava no discurso antissistema ao mesmo tempo em que aparelhava o Estado. A retórica misógina, racista e homofóbica do presidente, transformada em política pública e em incentivo cotidiano, ampliou a vulnerabilidade de grupos historicamente marginalizados e aprofundou a polarização social.

A pandemia de Covid-19 escancarou de forma brutal a irresponsabilidade do governo. Negacionismo científico, sabotagem à vacinação, ataques a especialistas e a promoção deliberada de aglomerações compuseram uma política que resultou em milhares de mortes evitáveis. 

Nesse período, as redes bolsonaristas funcionaram como laboratório permanente de desinformação, convertendo a mentira em estratégia de governo. O incentivo à violência contra opositores, jornalistas, indígenas, ambientalistas, feministas e defensores dos direitos humanos gerou um clima de intimidação que buscava normalizar o autoritarismo. 

A cada novo ataque à democracia, a resistência feminista manteve-se como espaço de crítica e de imaginação política, lembrando que liberdade, igualdade e justiça social são inegociáveis.

Desde o grito de “Fora Cunha”, em 2015, as articulações feministas não cessaram de se multiplicar. As eleições de 2020 trouxeram sinais concretos desta persistência, com o aumento da diversidade no legislativo, tensionando a hegemonia masculina, branca e elitista da política. 

Em 2022 e 2023, essa energia se renovou em movimentos como o Elas Sim, que reafirmou a potência da mobilização feminista ao propor novas formas de disputar narrativas e ocupar espaços institucionais; e o Elas Ficam, campanha feminista que convocou a sociedade a se mobilizar contra a tentativa de cassação de mandatos de deputadas mulheres. Foram anos de costura e resistência, nos quais a força coletiva das mulheres pavimentou alternativas democráticas em meio à ofensiva autoritária.

O dia 8 de janeiro de 2023 tornou-se um marco de violência contra a democracia brasileira. Uma semana após a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, milhares de apoiadores de Jair Bolsonaro invadiram e depredaram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal, em Brasília (DF). A cena de destruição — vidros estilhaçados, obras de arte vandalizadas, símbolos da República profanados — expôs ao mundo a radicalização bolsonarista e a disposição de parte das elites e das massas manipuladas para apostar no caos.

A tentativa de golpe não se deu no vazio: foi resultado de anos de incentivo ao ódio, à desinformação e ao flerte explícito com a ruptura institucional.

O conluio entre setores civis e militares, alimentado pela retórica golpista de Bolsonaro e sua cúpula, deixou evidente que a violência de janeiro era a expressão prática de um projeto autoritário que vinha sendo ensaiado. A omissão de autoridades de segurança pública e a conivência de parte das forças policiais reforçaram o caráter planejado da invasão.

A resposta institucional foi rápida, e movimentos feministas e democráticos se levantaram em defesa das instituições, conscientes de que proteger a democracia exige não só punir os culpados, mas também desmontar as estruturas de poder e desinformação que permitiram que o 8 de janeiro acontecesse.

Dez anos não são dez dias. Para quem acompanha, denuncia e resiste ao avanço do autoritarismo, cada ano pareceu uma eternidade — e, ainda assim, chegamos até aqui.

O início do julgamento no STF em 2025 é um respiro, um regozijo feminista que reconhece a persistência dos nossos esforços ao longo da última década. Viver o marco histórico que é ver os responsáveis terem que responder por tentativa de golpe não apaga as dores do caminho, mas confirma que a democracia pode, deve, e será defendida com altivez constitucional. 

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  • Joanna Burigo

    Joanna Burigo é natural de Criciúma, SC e autora de "Patriarcado Gênero Feminismo" (Editora Zouk, 2022). Formada pela PU...

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