Uma das coisas mais interessantes que as redes sociais nos proporcionaram em nosso tempo é a possibilidade de medir parâmetros e métricas que, antigamente, nem imaginávamos que poderiam existir. Eu sei, por exemplo, que a grande maioria das pessoas que me seguem e me leem são mulheres, segundo os gráficos que o Instagram me fornece. Nos textos acadêmicos e nas colunas, também imagino que quem me lê são as mulheres. É por isso que me sinto, de certa forma, muito confortável em escrever aqui sobre os homens ao meu redor, pois eles estão tão interessados em seu próprio umbigo que dificilmente correria o risco de ser lida por eles. 

Acabei de terminar um ciclo de oficinas de voz em quatro cidades de Santa Catarina e posso afirmar, de modo bastante informado, que boa parte das pessoas que buscam, hoje, processos de formação artística são mulheres. São elas, em diferentes idades e tipos de vida, que possuem a coragem de se abrir para uma experiência sensível, colocando seu corpo e sua mente à disposição de perceber o mundo de outras formas.

São elas que buscam mais rápido formas de se curar, de lidar com as situações adultas da vida, de modificar aquilo que pode ser modificado em prol de uma existência mais livre e feliz. Já os homens são,estatisticamente, mais solitários, mais deprimidos, cometem mais suicídio e são os que mais matam e agridem suas parceiras, filhas, mães, irmãs. 

Uma vez eu estava no provador de roupas de uma loja e ouvi uma conversa incrível. Uma mulher dizia à outra o quanto tinha ficado feliz depois de enviuvar. Que o marido era um chato, nunca queria fazer nada diferente, tudo tinha que ser do jeito dele e a vida tinha que ser pesada para todo mundo. Ela praticamente não existia, seus gostos, seus desejos e suas opiniões nunca eram consideradas.

O marido teve uma morte repentina e ela, de repente, se viu viúva e feliz. Agora não tinha que gerir a vida do marido, as emoções do marido, as paranóias do marido: podia gerenciar o próprio dinheiro e tinha tempo para si mesma. Acima de tudo, ganhou autonomia.

A dependência de mulheres por uma figura masculina é algo construído há séculos por uma tecnologia social muito refinada. Na sociedade ocidental eurocêntrica, não fazem nem cem anos que a mulher conquistou o direito de ter propriedade em seu nome, conta de banco, poder estudar, votar, viajar sozinha ou gerir sua própria vida.

Essa conquista de independência do pai, irmão ou marido é algo muito recente na vida das mulheres. Há menos de cem anos, a vida de uma mulher seria gerenciada de acordo com o que era melhor para o seu tutor homem. A mulher era uma propriedade, uma moeda de troca, um acordo comercial, uma aliança política. Acho que por isso muitas de nós, da minha geração, conquistamos a independência financeira porque é nosso direito garantido por lei. Mas a independência emocional…essa a gente vai desfiando aos pouquinhos, com terapia e paciência. 

Acho as mulheres mais corajosas a se abrirem física e emocionalmente para o novo. Eu sou cercada de mulheres loucamente corajosas e isso me ajudou a ter parâmetros diferentes na vida.

Mulheres que agora, com seus sessenta e poucos anos, conseguiram se afastar dos homens que intoxicavam suas vidas e conquistaram uma certa paz.

Não sem conflitos e, muitas vezes, pagando um preço alto mas, ao menos, não precisam mais dar conta do peso doméstico, emocional e mental que é ter uma pessoa doente de machismo todo santo dia ali, buzinando no seu ouvido. 

A pesquisadora britânica Laura Bates, fundadora do projeto “Everyday Sexism”, afirma que o mundo vive hoje um movimento inédito: o crescimento do machismo entre os mais jovens. Reportagens e publicações nas redes sociais divulgaram as análises dos dados coletados por Laura em sua pesquisa, mostrando esse surpreendente alerta.

Eu pensava que iríamos lidar com o machismo apenas com pessoas de uma certa idade em diante, nunca imaginaria que uma nova geração turbinada estava por surgir. Então, lembrei que moro em um estado que elegeu uma deputada estadual declaradamente antifeminista — o fenômeno mais esquisito do planeta já que sem as lutas dos feminismos ela nunca poderia se candidatar a esse cargo político. Jovem, estridente e com considerável poder de influência, ela consegue fazer suas ideias reverberarem em diferentes cantos de um território ultraconservador. 

Os espaços formativos em arte podem funcionar como estes pontos de alívio da pressão de uma sociedade que reprime o corpo e incentiva um pensamento acelerado e pouco crítico.

Não sei ao certo se eu encontro mais mulheres nesses espaços porque as práticas que ofereço fazem mais sentido ou reverberam mais nessa parcela específica da população. Isso o Instagram não me explica. 

O que eu posso dizer, de dentro do meu micromundinho, é que os homens temeram tanto a independência das mulheres por acharem que seriam abandonados no minuto em que tais direitos fossem concedidos. Não foi no mesmo minuto, nem mesmo na mesma geração. Mas eles tinham total razão em seus receios: a mudança que isso provocou foi tão intensa que abalou as próprias bases do que sustentava os modos de vida de nossa sociedade e vemos as consequências deste movimento todos os dias nos noticiários, no feed da rede social e em nossas vidas pessoais. 

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  • Barbara Biscaro

    Barbara Biscaro é atriz/cantora e pesquisadora nas áreas do teatro e da música. É Doutora em Teatro pela UDESC e coorden...

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