Querer é uma minissérie espanhola de 2024, dirigida por Alauda Ruiz de Azúa, e estrelada por Nagore Aranburu. Após 32 anos de casamento, uma mulher denuncia o marido por estupro conjugal e outras violências psicológicas. A cena começa assim: ela, na delegacia com a advogada, depois se dirige para casa e faz as malas, mas é surpreendida pelo marido que volta antes do previsto. Tensão no ar e um homem, aparentemente como qualquer outro, lhe pede para preparar a comida. Miren, a esposa, espera que ele se distancie para escapar com uma pequena bolsa, deixando o resto para trás.

E, é aí que a produção começa a nos inquietar, indignar, pois, as violências estão nos detalhes.

Miren procura o filho mais novo que parece compreender o sofrimento da genitora e os dois dirigem-se até a casa do mais velho, já casado e pai de um menino, para contar sobre a decisão. O filho mais velho, desde o início, fica do lado do pai, sem titubear, e até o avisa que a mãe está lá. Quando o homem chega, Miren esconde-se no banheiro porque tem medo. O filho insiste para que conversem e resolvam as coisas, mas ela está decidida e só sai quando ele vai embora.

Este mesmo homem, dominador, lê o conteúdo das denúncias aos dois filhos, mesmo que eles digam não querer ouvir. No documento de intimação, ele é acusado de solicitar por sexo duas vezes por semana, diligentemente às sextas e sábados, mesmo ela estando menstruada ou costurada depois do parto. Aliás, não podendo penetrar a vagina, exigia sexo anal. O mais velho confronta a mãe dizendo que sempre ouvia os seus gemidos do quarto ao lado, concluindo que ela não fora estuprada, mas que sentia prazer. A mulher lhe diz ter fingido para que o ato durasse menos e para que o marido não ficasse com raiva. Ao longo dos anos, ela contraiu uma ferida vaginal, causada por ato sexual violento, ou melhor, estupro. Ao dizer ao marido, ele simplesmente a ignorou. O dinheiro era controlado, assim como as relações, o tempo que passava fora e até mesmo o afastamento dos familiares foi incentivado, como comparecer ao funeral da própria mãe.

Os filhos dizem que presenciaram discussões, mas nenhuma agressão física, “coisa de toda família”. Esta é a frase mais repetida na minissérie, por diversos personagens. No momento de constituir as testemunhas, percebemos o quanto uma mulher está sozinha neste momento. Depois que um dos filhos negou testemunhar e o outro, a princípio, diz não querer se meter entre os pais, ela procura uma amiga que presenciou uma cena em que o marido lança um copo contra o muro para intimidá-la. A amiga diz não poder fazer aquilo, pois tinha afeto por ambos. Miren retruca: “Mas, foi você mesma quem disse que eu não deveria suportar aquilo”. Ela responde: “Sim, mas uma coisa é denunciar o marido”. As mesmas pessoas que incentivam mulheres à separação, a tomar uma atitude, são as primeiras a abandoná-las na hora que acontece. 

Ela busca um antigo amigo, pai de um dos alunos da escola do seu filho, agredido pelo marido. Ele aceita. Como não tem família, ela precisa dar conta de si, ao contrário dele, com a sua presente e uma rede de apoio, que eram dos dois, mas que tomou a defesa dele. Uma mulher que denuncia precisa ter profunda convicção, do contrário, desiste no primeiro obstáculo. A irmã do marido até a chama de “louca” e diz que todo casal tem seus problemas. A única mulher que parece apoiá-la é a nora, esposa do seu filho, repreendida por ele da mesma forma que o pai fazia. Numa cena em que o jovem casal está num restaurante com outros dois amigos, é visível a reprodução do machismo no rapaz. Ela corrige-o publicamente, ele espera o momento de se vingar. No carro, a caminho de casa, ele a insulta dizendo que ela jamais deveria corrigi-lo na frente dos outros e acelera o carro para lhe causar medo. Medo, medo, medo.

Como diz Miren no julgamento: “O medo é invisível”. E, quem o provoca, assegura-se de deixar sempre uma brecha para que a mulher seja considerada instável, histérica, que mal interpretou. O medo esteve presente durante todo o casamento e foi ele que a fez ceder, o que difere de consentir. 

Todas as vezes que este homem se enraivecia, ele a punia de alguma forma. Engana-se quem pensa que violência sempre deixa marcas no corpo. Certa vez ele a deixou sozinha num Shopping, sem documento e dinheiro para voltar para casa, noutra, desapareceu com os filhos e, noutra ainda, deixou de falar com ela por muitos dias. As crianças eram usadas para chantageá-la constantemente, como no momento do nascimento do segundo, quando ela quis o divórcio e ele os acordou no meio da noite para dizer que a mãe queria abandoná-los. As crianças ficaram apavoradas e, para provar o contrário, ela ficou. E foi ficando e ficando. 

Ele a convenceu a deixar o emprego no início do casamento e inventou todas as dificuldades para que não tivesse uma carreira, fosse pelos filhos, pela ideia de família ou ameaçando suicidar-se se ela o deixasse. A violência é tão silenciosa que grita. Os detalhes se tornam tão engrandecidos, que toda e qualquer mulher pode se ver numa violência descrita. Ceder para não o deixar com raiva, a raiva, neste caso, era forma de intimidar, quebrando objetos, dando murros em móveis, acelerando o carro, sussurrando em seu ouvido frases como “você não é nada”. Ela acordou muitas vezes com ele penetrando-a. 

Quando o marido procura a sua testemunha, não teve dificuldades nenhuma, todos acham exagerado uma esposa denunciar o próprio cônjuge por estupro conjugal. Afinal, diz a cunhada, “todas nós temos momentos em que não queremos transar”. O marido diz a um amigo, que aceita dar o seu testemunho: “Ela foi influenciada pela sua advogada, uma feminista. Esse feminismo que deturpa tudo”. A gente entende o ódio dos homens pelo Feminismo e pelas feministas, afinal, o que todos consideram parte da vida de casal, uma briguinha qualquer, um mal-entendido, uma fantasia da vítima, dizemos claramente: É violência. 

A advogada pergunta ao filho mais novo, durante o julgamento, que enfim decide apoiar a mãe, como ele a vê depois do divórcio. A resposta foi: “Mais feliz, ela sorri, nós estamos morando juntos e fazemos muitas brincadeiras.” A infância dos filhos foi rígida, não podiam cantar no carro, deixar comida no prato, entrar no escritório do pai, e até mesmo, ter uma opinião contrária. Todos cediam para não o deixar com raiva. Ele sempre dava um jeito de culpar o outro: “Olha o que você me fez fazer”. Para o mais velho, esta educação foi ótima, não faltou nada e hoje ele é um homem tal qual o pai. O mais novo tem outra visão, reconhece os abusos e o ambiente tenso no qual viveu. 

O ar que nos entra pelos pulmões nesse drama vem ao saber que a nora se separou do filho. Teve força e apoio para romper o ciclo de violência, mesmo o marido não aceitando ser a cópia do pai. Miren arruma um trabalho num supermercado, pois, mesmo com diploma da faculdade, não tem experiência na carteira há mais de trinta anos. Mas, está feliz. Ao ser perguntada pela advogada qual foi o ponto de virada na sua vida, o que a levou a denunciar, ela responde:

Fui impedida de ter contato com a minha família por mais de 30 anos, pois ele dizia que ela só queria dinheiro. Eu não tinha uma boa relação com a minha mãe, mas fui afastando para não o deixar nervoso. Ela morreu e ele disse, com cólera, que eu não iria ao funeral, pois não falava com ela há anos. Depois de um tempo, fui atrás do meu pai e ele entregou-me uma carta da minha mãe dizendo que tinha pensado em mim todos os dias da sua vida e deixava-me o seu apartamento. Com um lugar para ir, tive coragem de pedir o divórcio e denunciar as violências.”.

Parece que todas as mulheres, vítimas dos seus maridos, têm um ponto de virada. 

No final do julgamento o marido vence a causa. Mas, quem vence mesmo, é a mulher. O filho mais velho começa a perceber a dominação do pai, depois que o homem ameaça um coleguinha da escola do neto e a criança diz que não o contou porque não queria que ele ficasse com raiva.  De novo, a raiva aparece como intimidação. 

Depois do ganho de causa, o ex marido vai ao supermercado à procura de Miren, que se esconde. Era uma tentativa de humilhá-la, afinal, ele era diretor de uma empresa e ela uma repositora de produtos. O filho mais novo sofre um acidente de carro e os pais se encontram finalmente no hospital. No corredor, o marido tenta intimidá-la novamente e diz: “Vamos esquecer tudo isso, eu te perdoo”. Ora, ele continua culpando-a por tudo, o detentor do perdão, sem jamais assumir os erros. Mas, a máscara cai diante do espectador. Ele imprensa-a contra a parede, impedindo-a de sair, aproxima a boca perto dos seus ouvidos e diz: “Você não é nada”. Ela responde: “Isso você já disse”. Ele ensaia um soco, mas recua. Ela segue a vida. A vida que ela tem nas mãos e lutou para reavê-la.

A produção é um presente para toda mulher, para que olhe Miren bem de perto e diga: “Aqui não fico mais”.

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  • Fabiane-Albuquerque

    Feminista negra, escritora e doutora em sociologia. Autora dos livros Cartas a um homem negro que amei (Editora Malê) e...

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