Mulher Saindo do Psicanalista, por Remedios Varo (1960) pintora surrealista espanhola.

Tempo de Mulheres Divinas

Postado em 01/04/2019, 10:10

A artista mexicana Remedios Varo pinta em 1960 a tela Mulher saindo do psicanalista, com uma estética surrealista a pintura nos apresenta uma mulher ao sair do analista carregando o que supostamente poderia ser a cabeça de um homem, ao mesmo tempo em que, uma máscara cai sobre seu pescoço. Entre o rosto, a máscara e a cabeça de um suposto falo, reflito sobre o que seria o destino de ser mulher. Diante disso e neste balbuciar da história percebo a importância de se falar de um tempo de mulheres divinas. Lembro das palavras da filósofa francesa Simone de Beauvoir ao descrever a importância de esquecermos do “destino de mulher”, o que seria um destino de mulher em nosso século? O que significa estarmos destinadas pela cultura e a importância de esquecermos dessa destinação.

Falar em tempo, mencionar que estamos diante de Mulheres Divinas, parece até uma redundância. Historicamente estamos envoltos a mulheres divinas silenciadas e colocadas no papel de divas ou a mercê da “genialidade” masculina, pelo viés do gênio deveria ser perdoada todas as atitudes desrespeitosas por parte de uma masculinidade febril. Mas a escolha pelas mulheres divinas advém em parte de um filme suíço que assisti ano passado e que carrega o título Mulheres Divinas (Die Göttliche Ordnung) com direção de Petra Biondina Volpe. O filme narra a luta pela conquista do voto feminino em um povoado prosaico da Suíça nos anos 70.

De enredo simples, com alguns percalços romantizados, a história narrada de forma leve aborda o esforço das mulheres em fazer parte das decisões civis. Assim como da busca por emancipação em relação ao seu direito de trabalhar (naquela época as mulheres ao casarem eram propriedades do marido, ficando sob a tutela dos mesmos aceitarem ou não que “suas esposas” fossem ter uma independência ou ocupação que estivesse além dos “afazeres domésticos”), além disso, a película explora a descoberta do prazer feminino no encontro com diferentes gerações de mulheres.

Aproprio-me do filme para pensar nosso tempo – Um tempo de mulheres divinas – um ano em que as mulheres protagonizaram lutas incansáveis em torno do direito à liberdade, do respeito as diferenças, de confronto ao falocentrismo que se desestrutura cada vez que uma mulher despe a centralização do “falo” e resolve “falar”.

Após completarmos meia década do maio de 68 francês e do Ato Institucional N̊ 5, nos deparamos com uma avalanche de retrocessos políticos que colocam o embate da força, das diferenças que compõe o que entendemos por força. Em meio a construção de um governo de ressentidos percebemos a força pelo autoritarismo, pela tirania, pela idolatria e alguma concepção de salvação calcada em um fundamentalismo religioso arraigado nas raízes da tradição colonialista brasileira.

Realmente é atordoante descobrir os buracos que nos compõe, olhar uma história constituída pelo símbolo do Pau Brasil, não poderia se transformar em “Acácias”. Somos constituídas de uma outra força, uma centelha que desde tenra idade aprendemos a sustentar, uma cena prosaica que diz dos silêncios que estamos aprendendo a falar. Estamos aprendendo a falar em nome próprio, resistindo a esfera da cozinha e ocupando as salas, bibliotecas, praças e principalmente nosso próprio corpo.

Matéria esta que nos foi negada por ter sempre alguém dizendo como devemos ocupá-lo, experenciá-lo e também sendo invadido por outréns. Na esfera da sujeição, insurgimos e nos constituímos sujeitos, nada mais divino que o corpo, quando este é um invólucro de desejos e escolhas, ainda estamos caminhando em tornar nossas escolhas ecos mais claros aqueles que ficam aturdidos diante do trauma de receber um “não”. E aí reside mais uma força que nos compõe, conhecemos o “não” desde que nascemos: menina decente não pode sentar de perna aberta, uma adolescente que se respeita não usa roupas curtas, uma mulher que se valoriza não dá voz aos seus desejos.

Crescemos na infinidade de “nãos”, agora que chegou o momento de aprendermos a dizê-los e quando assim começamos a fazê-lo atordoamos a todos aqueles que nunca conseguiram olhar além do centro da sua crosta particular. Sabemos que mulheres divinas não são musas, são seres humanos constituídos de afetos e falibilidades, e que todos os dias não é fácil sustentar as escolhas de sermos seres emancipados, é preciso construir uma cultura que respeite a diferença para além do horror daquilo que é estranho a cada um. Estamos aprendendo a “falhar no nosso destino de mulher”, um destino que incessantemente estão tentando nos empurrar por desespero, tentando reacender a falácia da “verdadeira mulher”: a compassiva, a boa esposa, a obediente.

Beauvoir nos apresenta como esse imaginário do destino da mulher opera em nós mesmas, de como o amor “idólatra, o amor abdicação é devastador: ocupa todos os pensamentos, todos os instantes, é obsediante, tirânico. O mundo incita-a a acreditar em uma salvação dada: ela escolhe acreditar nisso”. Quando esse ideal da verdadeira mulher e de seu destino fantasioso não se concretiza, um perigo se apresenta: como lidar com a verdade de uma destinação não realizada? Como a mulher se depara com as escolhas de ter “falhado em seu destino de mulher” secularizado pela cultura ocidental? Como a lógica patriarcal reage à mudança dessa destinação? Estamos assistindo ao aumento expressivo e cruel dos casos de feminicídio, poderíamos dizer que essa é uma das reações, nos matam, e isto de certa forma sempre esteve autorizado. Por isso, é preciso renunciar o Olimpo das musas, enfrentar o divino que se faz na concretude de nossas ações.

Talvez, tenha chegado o tempo de abraçar e se despedir das fantasmagorias que compõe o imaginário da verdadeira mulher e seus supostos destinos. Ainda carregamos o estigma deflagrado pela velha francesa que escreveu o Segundo Sexo: os fantasmas de um amor que nos conjuga em objeto e não em conjugalidade com o outro, ainda uma “natureza” que clama por ser absorvida pelo medo da liberdade.

Ainda um sujeito que não sabe muito bem como ser sujeito quando é atravessado por uma cultura que diz o tempo todo que devemos nos sujeitar; estamos aprendendo a falar e sustentar os nossos desejos. Por isso, a importância de compreendermos as macerações históricas que impuseram um destino à mulher e da necessidade de ruptura com esse discurso. Afinal, os dias andam a exigir um tanto de revolta, estudo e cuidado em cada esquina.

*Professora do Centro de Ciências da Educação e doutoranda em Educação na UFSC.




Carolina Votto é professora no Departamento de Metodologia de Ensino (UFSC). Doutoranda em Educação na linha de Filosofia da Educação do Programa de Pós-graduação em Educação – UFSC. Mestre em Teoria e História da Arte (2011) pelo Centro de Artes, no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Graduada em Filosofia (2006), pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) - RS. Atua também como professora de História da Arte em cursos independentes.
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