Ao lado das/os apoiadoras/es, Petra Costa reforçou a pergunta que há dois anos ecoa no Brasil/Foto: reprodução Twitter

Oscar 2020: os manifestos políticos por narrativas mais plurais

Postado em 10/02/2020, 17:24

Nos minutos iniciais de cerimônia do Oscar 2020 já ressoavam os discursos lembrando a falta da representação feminina em diversas categorias. Antes disso, no pré-Oscar e o seu tradicional tapete vermelho, que dá acesso ao auditório da premiação, no Dolby Theatre, em Los Angeles (Califórnia), Natalie Portman literalmente vestia os nomes das mulheres que poderiam ter sido indicadas, mas não foram. Seu vestido foi bordado com os nomes das representações ausentes e potencialmente capazes de concorrer.

No mesmo tapete, a equipe da produção brasileira que concorreu na categoria de Melhor Documentário, com Democracia e Vertigem, dirigido por Petra Costa, em produção da Netflix, também fez sua manifestação posando para fotógrafos portando cartazes com denúncias e reivindicações urgentes, de um país que vive retrocessos sociais, ambientais, de representação política e na garantia de direitos civis. Os escritos traziam as hashtags “lute pela Amazônia” (#ActfortheAmazon), “lute pela democracia” (#actfordemocracy), assim como o pedido de proteção às terras indígenas ao lado de críticas ao governo Bolsonaro, fazendo “presente” a vereadora Marielle Franco, questionando as condições de sua morte ao perguntar em português “Quem mandou matar Marielle”, junto a outro cartaz em inglês com os dizeres: “697 dias sem Marielle”.

A líder indígena Sônia Guajajara e coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) foi a convidada especial da diretora na campanha de divulgação do filme que explicita o contexto político do Golpe que levou à derrubada da então Presidenta Dilma Rousseff, e aparece na foto ao lado de Petra Costa segurando um dos cartazes no qual se lê “our fight is your fight”, nossa luta é sua luta, referenciando a permanente preocupação dos povos indígenas por um modo de vida mais sustentável.

O certo é que Democracia e Vertigem, independentemente das vontades de quem quer que seja, imortalizou parte da história brasileira em seu filme, e com sua indicação, a narrativa circulará o mundo e se perpetuará na historiografia do cinema mundial como um dos 5 melhores documentários do ano de 2019, segundo os membros da academia. A mera indicação do filme já contraria e provoca a política do atual governo, como mostra um trecho inédito do documentário divulgado pela produção do filme, no domingo da premiação, numa fala do então deputado federal Jair Bolsonaro, em 2016, dizendo que cortaria fundos para as artes “já que os filmes brasileiros nunca chegam ao Oscar”.

Ao receber o Oscar de Melhor Documentário Julia Reichert, codiretora de Indústria Americana (American Factory) acrescentou o caráter contra-hegemônico que caracteriza a produção ao conclamar “Trabalhadores, uni-vos”. A frase é conhecida como slogan político do Manifesto Comunista de 1848, escrito por Karl Marx e Friedrich Engels. O documentário da Netflix marca o primeiro filme da produtora de Barack e Michelle Obama, Higher Ground Productions. Ainda que o documentário brasileiro não tenha conquistado a estatueta é possível considerar que seu recado também foi uma vitória política contra o governo Bolsonaro, tão obcecado no falacioso combate ao comunismo no Brasil, e seu pseudoaliado Trump.

Durante o decorrer da premiação a falta de representatividade feminina seguiu pautando vários dos discursos da cerimônia ao lado de outras tantas reivindicações importantes e urgentes para a conscientização humana a que se referiu Jane Fonda, ao apresentar o último prêmio da noite, a categoria de Melhor Filme.

Vestida de gala, mas carregando no ombro o emblemático sobretudo vermelho que lhe acompanha em protestos e nas consequentes prisões que tem sofrido como ativista pela causa climática, a atriz reforçou o discurso e a atitude de Joaquin Phoenix, premiado como a estatueta de Melhor Ator por Coringa (Joker), que lembrou em seu discurso que o melhor presente que o meio cinematográfico lhe deu é “a oportunidade de usar nossa voz pelos que não têm” e aproveitar a condição privilegiada de poder transmitir ideias e ideais de forma massiva, em função da popularidade alcançada em seus ofícios. O ator prosseguiu dizendo que “seja falando sobre desigualdade entre gêneros, racismo, direitos LGBTQ+ ou indígenas, direitos dos animais, estamos falando sobre lutar contra a ideia de que uma nação, uma raça, um gênero ou uma espécie tem o direito de dominar, controlar, usar e explorar outros sem impunidade. Acredito que nos desconectamos demais do mundo natural, e nos sentimos culpados por ter uma visão egocêntrica, a crença de que estamos no centro do universo”.

O conservadorismo tradicional da academia foi também bastante criticado por outra causa identitária ao ser novamente chamado de Oscar So White pela evidente falta de indicações de profissionais negros nas categorias. Em 2016 a Academia anunciou medidas para tentar garantir maior representatividade e diversidade às premiações futuras, como a abertura de vagas para novos membros de diversos países, idades e raças. Porém, as mudanças pretendidas parecem ainda depender de um caminho mais longo para alcançar este justo anseio de inclusão.

A estatueta de Melhor Filme foi entregue por uma Jane Fonda subversivamente emocionada ao anunciar como vencedora a primeira produção de língua não inglesa a ganhar a categoria mais importante da premiação. O filme sul-coreano Parasita, do diretor Bong Joon-Ho, levou também as premiações de Melhor Filme Internacional, Roteiro Original e Direção, consagrando-se na história do maior prêmio da indústria do cinema de Hollywood.

O filme é pautado na diferença de classes e deixa evidente que este é um problema mundial, embora apresentado a partir de uma realidade específica. O diretor fez discursos humildes e reconheceu a influência de seus colegas indicados à melhor direção Martin Scorsese e Quentin Tarantino, que estavam na plateia, dizendo que “Se a Academia deixasse, eu gostaria de pegar uma serra-elétrica e quebrar minha estatueta em cinco pedaços com todos vocês”, disse, reforçando o clima de que a 92° edição do The Academy Awards, pode ser um marco importante para a necessária atualização dos parâmetros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Sem esquecer as diversas variáveis que influenciam os destinos das estatuetas talvez seja possível dizer que a premiação tem a possibilidade de consolidar uma mudança mais significativa daqui em diante e representar de forma mais ampla a diversidade do mundo e o próprio papel da arte nessa conquista. A impressão é de que desta vez – mesmo com as já relatadas faltas e omissões deste ano – os maiores beneficiados foram os discursos de vencedoras/es e apresentadoras/es, que colocaram em pauta reivindicações por justiça, inclusão, respeito e tolerância. Ganharam assim os parasitas, os loucos, os subversivos e os negligenciados, senão no recebimento do prêmio em si, ao menos nos discursos.

 

 

 




Claudia Aguiyrre é cineasta, artista multimeios, educadora e pesquisadora, graduada em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo e pós-graduada em Estudos Culturais, ambas pela UFSC. Trabalhou por 15 anos como docente em cursos de Cinema e Realização Audiovisual, Comunicação Social, nas habilitações de Jornalismo e Publicidade e Propaganda. Sua experiência mais extensa é como documentarista. Já dirigiu e roteirizou mais de 15 documentários desde 1989.
Veja a coluna da Claudia Aguiyrre