“O Quarto Estado”, pintura a óleo sobre tela do italiano Giuseppe Pelizza da Volpedo (1901).

O levante dos “idiotas”

Postado em 28/05/2019, 10:33

Dostoiévski leva muito tempo para escrever seu magnífico livro “O idiota”. Ele o concebe em sintonia com as condições sociais que impõem ao povo russo a necessidade histórica de determinação de uma nova civilização. Até a primeira metade do século XIX, a Rússia é um reino agrário fundado na servidão e governado por imperadores. Coube ao Czar Alexandre II, em 1860, abolir o estatuto da servidão e, desse modo, criar condições ao processo de industrialização do Império russo.

O avanço do capitalismo na Rússia – que leva à extinção da servidão – se constitui por meio de uma aliança política entre nobres e capitalistas. Os servos repentinamente separados da possibilidade de produzirem sua existência, tal como antes, são compelidos à migração, à busca de trabalho pago fora de suas aldeias e, ao assalariamento nas cidades. Nobres também passam a viver nas cidades. Nestas, dedicam-se além do ócio, ao luxo, aos prazeres e devassidões proporcionados por uma riqueza secularmente acumulada. Assim existirão até que sociedade seja subvertida de modo a configurar uma nova ordem de relações humanas.

Dostoiévski vive em tempos conturbados. As revoltas sociais que assolam a Rússia precisam ser contidas por meio da repressão violenta e sistemática do poder estatal. Os czares, detentores de um poder absoluto, empregam toda sorte de violência e de censura diante das revoltas camponeses e do proletariado, então submetidos a uma exploração brutal.

A história é pródiga em mostrar que, toda vez que uma determinada forma de vida humana começa a ter dificuldades para se reproduzir como tal, surgem movimentos que ameaçam subverte-la revolucionariamente e, na mesma medida, movimentos destinados à sua perpetuação.

O fato é que nesses momentos históricos em que indivíduos tendem a se desorganizar juntamente com suas instituições sociais, surgem propostas de reformas da sociedade. Não são poucos os que pretendem dar solução àquilo que julgam ser um problema. No entanto, todo o imenso esforço humano dispendido a fim de dirimir dificuldades sociais parece inútil.

As tentativas de conferir sensatez à insensatez se diluem quando as antigas crenças, ética, valores, hábitos e modos de viver são postos em questão. As incertezas se sobrepõem às formulações até então inquestionáveis. As profundas e frequentes agitações no modo de existir instigam respostas às indagações: O que fazer?

A grandeza ou a pequenez de cada pessoa pode ser medida pela resposta que cada uma delas dá frente a essa nebulosa passagem histórica. Há os demônios que assombram o mundo, e que vendem, como Doutor Fausto, de Goethe, a “alma ao diabo”, em troca de uma vida suntuosa. Há aqueles que querem perpetuar, a qualquer preço, um modo de vida já condenado historicamente.

Em contrapartida, há os que, como Dostoiévski, não sucumbem aos trágicos tempos de transição social. Por sua conspiração política, o escritor é preso e condenado à morte pelo poder imperial russo. Tem a pena comutada. Em seguida, é enviado para uma prisão na Sibéria onde é submetido aos horrores do trabalho forçado. Após quase uma década regressa à Petersburgo, sua terra natal. Sua vida e criações literárias serão marcadas definitivamente por essas medonhas experiências.

Apesar dos horrores da perseguição política czarista, Dostoiévski não recua. Recorre ao que mais sabe fazer: escrever livros. É pelo poder das palavras que ele “abre caminho” na sociedade.

Míchkin é “O idiota”, seu personagem principal, um príncipe sem súditos, sem posses, esquisito e atoleimado que vive um longo período fora da Rússia. Seu retorno à sociedade russa é surpreendente. Suas atitudes isentas de pedantismo e de malícia causam espanto e curiosidade entre a nobreza russa. Seu apego à justiça e à bondade é inabalável. Não julga e nem condena as pessoas, ainda que seja humilhado, ofendido e ludibriado. Seu horror à violência e à morte é uma condenação daqueles que recorrem a tais meios para preservar sua classe social. Míchkin é, antes de tudo, um defensor da vida. Sua compaixão, sem limites, choca-se com “os desregramentos sociais” que infestam a Rússia no século dezenove.

O que atormenta Dostoiévski? Sua constatação de que o individualismo e o egoísmo são nutridos pela propriedade privada da riqueza, desta condição que alimenta injustiças sociais, cujo resultado é a submissão da maioria das pessoas à extrema humilhação, ou à escala mais baixa da dignidade humana. Seu protagonista, um personagem capaz de sacrificar-se pelo bem coletivo, é contraponto ao estado em que se encontra a sociedade russa. Mais do isso, faz de um príncipe – quanta ironia! – o porta voz de uma necessidade histórica: a necessidade de superação das velhas relações sociais. Na verdade, seu personagem principal, de aparência tão frágil e inofensiva, defende a constituição de uma Rússia soberana, autônoma, original e organizada coletivamente e, nesta qualidade, desvinculada da história burguesa europeia.

Será que Dostoiévski tem uma espécie de vaticínio sobre o destino da Rússia? Talvez. O certo é que sua previsão histórica torna-se realidade na primeira década do século XX, um resultado de movimentos revolucionários que estremecem o Império russo e a Europa Ocidental durante toda segunda metade do século dezenove.

E, nos dias atuais? O que fazer em meio à combinação monstruosa entre pobreza e riqueza? Como abrir caminho diante dessa contradição histórica que transforma o mundo em um em um gigantesco “leprosário social”?

Uns o fazem pelo “rasgo do gênio”, tal como Dostoiévski, outros, “pela destreza da corrupção” (Balzac). Alguns, com balas de artilharia e, outros ainda, que atuam como uma peste: os impostores que prometem salvar a sociedade por meio do sacrifício – da eliminação de qualquer assistência social – dos trabalhadores imolando-os à insaciável lei da acumulação capitalista. Interessante observar que a violência, a esperteza e a mediocridade tornaram-se armas políticas para vergar a população. Por todo lado, sentimos a ponta afiada dessas armas.

Aqui, não houve um príncipe, tal como o de Dostoiévski, que dribla a censura de tiranos enfurecidos determinados a lhe tirar a vida. Mas, em compensação, tem o “Bobo”, de Clarice Lispector.

Quem é o bobo? O que faz dele um ser capaz de despertar um misto de esperança e de alívio? Quem é esse estranho personagem capaz de se contrapor à injustiça e à insanidade política que devastam instituições sociais? Talvez, o bobo. Ser bobo, adverte a escritora, não significa ser tolo, burro nem fútil. Os bobos são tranquilos e não perdem o sono, ao passo que, os espertos, não conseguem dormir à noite, com medo de serem ludibriados. Os bobos oferecem um mundo de saída porque ganham sabedoria e originalidade. Manter-se bobo é muito difícil nestes tempos em que a vulgaridade, a ignorância, o preconceito, a estupidez e o ódio florescem, como se a vida fosse uma qualquer banalidade.

Mesmo assim, o bobo tem fé, mas ele não crê em mito, isto é, no preguiçoso “Macunaíma: um herói sem nenhum caráter” – personagem de Mário de Andrade – que, depois de muitas bravatas e metamorfoses em suas andanças, vira imperador do Mato. A história é  narrada por um papagaio. Incapazes de ligar ideias, como o sabemos, os papagaios, tornam-se repetidores do que ouvem dizer. E, mais, guiam-se por presságios.

Mas, a crença do bobo não se confunde com a daqueles que cultuam uma entidade que se manifesta, nesta ou naquela árvore frutífera, porque ele não crê em superstições, embora elas existam. O bobo tem uma fé semelhante à do príncipe Míchkin, porque ambos acreditam na capacidade dos homens que criam e que resolvem seus próprios problemas, ou seja, no “movimento sempre renovador da história” (Lígia Klein).

O bobo, parafraseando Clarice Lispector pode ser um Santos Dumont que concretiza o sonho de Ícaro; pode ser um Guimarães Rosa que entende “conversas de bois”; ou ainda, um Portinari, que pinta a fome dos desterrados em seu próprio país.

Bobos são também os “idiotas” que não fraquejam diante das adversidades. São aqueles que se organizam para mudar os rumos da nossa história. Também há “idiotas” que, como os bobos, lutam pela escola pública, laica e estatal e pela socialização do conhecimento historicamente acumulado. Decretar o fim da escola – desta necessidade histórica antes que a humanidade tenha produzido uma nova forma de aprendizagem – significa ceder ao obscurantismo que, nestes tempos, ameaça a sociedade e, em particular, a escola. Esta forma educacional poderá vir a ser uma extensão de igrejas, por conseguinte, do predomínio da aprendizagem de ensinamentos religiosos em detrimento da aprendizagem laica, desta condição imprescindível à formação humana atual.

No passado, a ciência teve de travar uma luta de vida ou morte contra o conhecimento revelado. Até vencer a batalha contra os dogmas escolásticos, a fogueira da Inquisição precisou queimar muitos hereges, um modo de tentar barrar o avanço de forças civilizatórias da humanidade.

As lutas em defesa da pesquisa e da produção do conhecimento das instituições públicas estatais brasileiras refletem uma necessidade: a do avanço de certas forças produtivas no longo processo de libertação dos indivíduos. Ou os homens e mulheres dão sequência a essa condição histórica, ou perecerão na moderna barbárie. A repressão e o ódio ideológico a professores, estudantes, dentre outros trabalhadores, escancaram o pavor de certos segmentos sociais diante do novo. Eis porque “eles perseguem águias, mas não sabem voar” (Neruda).

Uma vez que a “vida não cabe em nenhuma certeza” (Guimarães Rosa) exatamente porque a história é um processo de forças em luta não nos cabe lamentar os efeitos deletérios da nossa civilização, pois eles configuram uma grande revolução em curso. Nada mais. Cabe, isto sim, já que a criação da vida é “mutirão de todos”, darmos sequência ao movimento de emancipação da humanidade, desta condição histórica pelos homens criada.

 

*Edna Garcia Maciel é doutora em Educação.