Com o anúncio de políticas socialistas pelo Partido Conservador, o Reino Unido finalmente está vendo o que a esquerda já sabia há muito tempo/Foto: reprodução

O Coronavírus mostrou que ideias de esquerda não são nada mais que simples bom senso

Postado em 24/03/2020, 14:13

Na semana passada, o editor de política da ITV (canal televisivo do Reino Unido) e agora escolhido porta-voz do governo, Robert Peston, publicou um blog de direita chamado The Spectator. Intitulado como “Boris precisa copiar o manual de Corbyn para prevenir um colapso do Coronavírus”, o artigo discute quatro importantes pontos: os vulneráveis precisam de mais ajuda para que possam se sustentar durante a crise; o povo precisa de incentivos (financeiros) para se comprometer em comportamentos que mantenham todos em segurança; caso o previsto um quinto dos trabalhadores fiquem isolados então estamos enfrentando um possível colapso do sistema do nosso modo de viver; e que o governo e o Bank of England (Banco Central) devem assegurar empresas em risco de falência. Robert mencionou um ministro do Partido Conservador sobre o plano para o próximo ano para minimizar os efeitos do impacto da economia devastadora que o coronavírus com certeza irá causar.

“Nós nos vemos implementando uma boa parte do programa do Jeremy Corbyn”, uma fonte do Partido Conservador disse.

Caso precise que desenhe: isso é socialismo, meu bem!

Pode-se imaginar quão furioso e espumoso o leitor de direita do The Spectator ficou ao ler essas palavras. Mas para aqueles que já estão à esquerda, é quase enfurecedor ver o Reino Unido acordando lentamente e tomando a atitude certa frente à urgente situação – e as políticas de esquerda que poderiam atenuá-la. Agora que a crise ameaça arruinar aqueles que estavam confortavelmente vivendo sob o capitalismo, eles se juntam para pedir aumento do apoio do governo que, até então, eram limitados a ajudarem grupos marginalizados e seus aliados.

Em pouco mais de quatro meses, o Covid-19 expôs brutalmente os fracassos do capitalismo.

Falhas no sistema de saúde
Primeiro as falhas apareceram na linha de frente. Os efeitos de uma década de cortes no sistema público de saúde e privatização vieram à tona agora que o serviço enfrenta a propagação do vírus. Semanas de espera para fazer o teste e linhas de atendimentos não paravam de receber ligações. Quando se conseguia atendimento telefônico, os atendentes não podiam ajudar, pois as estratégias do governo ainda não haviam sido anunciadas.

Assim que a crise avançou, o sistema de saúde público se mostrou deficiente em respiradores necessários para salvar vidas, com apenas 5.000 disponíveis. O governo teve de se mexer para juntar uma cadeia de fornecimento que fabricasse mais de 20 mil aparelhos em duas semanas, contando ainda com o tweet do nefasto Secretário da Saúde, Matt Hancock, chamando todos os fabricantes.

“Chamando todos os fabricantes de respiradores que podem apoiar nosso Esforço Nacional pelo #coronavirus – para ajudar, entre em contato com Time de Apoio de Negócios.”

Isso foi seguido de uma preocupação igualmente alarmante de que não haveria leitos suficientes para as possíveis 7.9 milhões de pessoas que, de acordo com a previsão do governo, poderiam ser hospitalizadas ao decorrer dos próximos 12 meses. O foco voltou-se aos hospitais particulares – especialidade do capitalismo – e um estimado de 8 mil leitos vazios “esperando pelos ricos ficarem doentes”. Na Espanha, o governo socialista estatizou todos os provedores de assistência médica para combater o Covid-19. No Reino Unido, o poder concentra-se nas mãos das empresas privadas. Claro, o governo poderia usar os leitos, disse Spire, a entidade que os detêm (e tem 25% de sua renda proveniente de contratos com o NHS). Mas a um custo de 2.4 milhões de Libras por dia. Obviamente, um sistema de saúde totalmente público preveniria que um desastre como esse saísse lucrando.

Enquanto isso, graças ao escasso investimento do governo, a falta de profissionais deixa os trabalhadores do sistema de saúde (1 a cada 5 é BAME – sigla usada para se referir a negros, asiáticos e minoria étnica) com pagamento precário, sobrecarregados e a ponto de surtarem. O NHS também decidiu adiar milhões de cirurgias e realocar profissionais em áreas fora de suas especialidades. Em outros lugares, profissionais da saúde falam desesperadamente em se prepararem para “enterrarem seus colegas” em entrevistas na TV.

“Nós vamos perder nossos colegas, nós vamos enterrar nossos colegas.”

Dra. Jenny Vaughan, do The Doctor’s Association, diz que os funcionários do NSH sabem que perderão seus colegas – mas “a linha de frente médica está pronta, disposta e disponível a tentar e ajudar a lidar com essa pandemia”.

Semana passada, profissionais da limpeza terceirizados mal pagos do Hospital Lewisham – o primeiro na capital a tratar um paciente com coronavírus – abandonaram o trabalho e entraram em greve depois que as empresas não pagaram o salário integral pela segunda vez em dois meses, além de não fornecerem os equipamentos de proteção individual. Protegidos pelo sindicato, eles são um de muitos grupos de trabalhadores que decidiram fazer greve e dependem massivamente do apoio dos sindicatos.

O sindicalismo é uma prática comumente da esquerda que está mais uma vez ganhando popularidade. Nos meses que passaram, uma série de conquistas do UVW (United Voices of the World – um movimento sindical independente) demonstrou a eficácia de um coletivo organizado. Mas teria ele alcançado esse nível se os trabalhadores já tivessem recebido salário adequado e o apoio que a esquerda tanto luta?

Direitos trabalhistas
A carência dos trabalhadores em geral também está abrindo diversas questões sobre a precariedade dos direitos trabalhistas no Reino Unido, como: por que a renda mínima – um pagamento regular incondicional feito aos cidadãos – não existe? Por que o auxílio-doença paga 18 Libras por dia enquanto a média salarial é de 9,30 Libras/hora? Por que o valor de 18 Libras está disponível somente para aqueles que ganham mais de 118 libras por semana, um número que desproporcionalmente exclui mulheres negras, que passam pelo recorte da interseccionalidade de gênero e raça? Por que não há uma rede de segurança para autônomos? Por que o governo está deixando de subsidiar empresas, principalmente as indústrias de varejo e de hospitalidade, que verão centenas de milhares quebrarem?

Dados mostram também que quem pode fazer “home office”, sob sugestão do governo, são pessoas que mais provavelmente ganham bem e vêm de família mais abastada. Já se fala por aí que as escolas permanecerão abertas graças ao medo que que milhares de pais que atualmente trabalham no sistema de saúde não podem arcar com assistência médica infantil e, consequentemente, seriam afastados do trabalho para poderem cuidar de seus filhos – algo que poderia ser compensado com as iniciativas de cuidado infantil propostas pela esquerda.

“Não se pode recorrer a vaquinhas online para limpar a sujeira quando há milhares de desempregados.”
Também fica claro que a infraestrutura necessária para prevenir que os trabalhadores contaminados – que se sentem obrigados a continuarem trabalhando para manter o sistema funcionando – espalhem o vírus adiante é uma ideia proposta pela esquerda: aumento do auxílio-doença, a par com outras nações europeias (com uma média de 245 Libras por semana) e extensão do benefício para todos os trabalhadores, incluindo autônomos.

Lamentavelmente, demissões já estão à todo vapor. Seus impactos podem ser imediatamente atenuados pela introdução de medidas como a Universal Basic Income (“Renda Básica Universal”) e pagamento garantido por um período àqueles que perderam o trabalho como resultado. A Dinamarca, por exemplo, prometeu 20 dias de auxílio às pessoas que perderam o emprego por conta da crise, somando um pagamento de 80% da média salarial de um autônomo pelos últimos 3 anos (limitado a 48 mil Libras) e subsídios àqueles que estão cuidando de pacientes infectados pelo coronavírus. O Partido Conservador já se desfez do teto de renda mínimo usado para decidir quanto do Crédito Universal uma pessoa está intitulada a receber (que tem sido fortemente criticado por não considerar flutuações nos ganhos). Não é difícil continuar. Não se pode recorrer a vaquinhas online para limpar a sujeira quando há milhares de desempregados.

Um teto para morar
E ainda tem a moradia. Enquanto o Chanceller anunciou uma “férias” de três meses no financiamento de imóveis, até agora nenhuma medida similar para os 20% da população do Reino Unido que paga aluguel foi tomada. Isso significa que, dependendo do financiamento do proprietário, o aluguel poderá a ser cobrado, enquanto a própria dívida dele (o financiamento do imóvel) permanecerá congelada, com taxa de juros cortadas lá embaixo. Resumindo: proprietários poderão quitar o financiamento bem mais rápido e com uma taxa bem mais baixa.

Com imigrantes, negros e pardos mais propensos a alugar imóveis do que pessoas que se identificam como “brancas inglesas”, em todo grupo socioeconômico, fica claro saber quem será afetado com o não congelamento dos alugueis ou “férias”. Em comparação, até países de centro-esquerda, como a França, suspenderam o pagamento de aluguel, luz e água para acalmar a tensão. Nós não podemos depender da boa vontade dos proprietários para que cada um abdique da cobrança do aluguel – eles enxergam sua propriedade como uma forma legítima e justa de renda e vão querer se amarrar ainda mais no pagamento nesse tempo de incertezas. Por isso que medidas sérias precisam ser tomadas para aliviar os inquilinos – e isso inclui banir os despejos. Qualquer coisa menos que isso coloca milhares em risco e ajuda a aumentar o número de pessoas em situação de rua no Reino Unido.

Quanto às aproximadas 320 mil pessoas já passando por essa situação, algo curioso aconteceu. Depois de décadas sem tomar qualquer ação, o governo está na miúda liberando fundos para derrubar uma crise que até agora havia sido ignorada. De repente, 3.2 milhões do fundo de emergência apareceram, e agora os conselhos deverão oferecer acomodações e serviços para desabrigados. Como muitos outros aspectos da vida sob o regime do capitalismo que sempre nos falaram que as coisas “são do jeito que são”, o coronavírus causou a cruel percepção de que, na verdade… não precisa ser assim.

Esse é o obstáculo. Os outros estão finalmente vendo o que a esquerda vem dizendo há muito tempo: que tem de ter mais do que isso, que apenas com pequenas medidas nós podemos criar uma sociedade que ampara a todos, que a falsa meritocracia e precária crueldade do estágio-final do capitalismo só pode levar ao desastre. Mas ver a direita, que há poucos meses zoavam com “Anyone but Corbyn” (“qualquer um menos o Corbyn”), agora mandando tuítes furiosos para o Primeiro Ministro pedindo ajuda com seu negócio, é no mínimo muito prazeroso. Ok, talvez só um pouco, mas aquela centelha de superioridade se apaga quando lembramos da situação grave que estamos passando.

É difícil não imaginar que as políticas defendidas pela esquerda por tanto tempo possam ter mitigado bastante o impacto e a ansiedade já causados ​​pelo coronavírus. É ainda mais difícil não lamentar nossa década perdida de austeridade e sofrimento, agora os eventos recentes mostram que não era uma necessidade, mas uma escolha.

Mas talvez agora, pelo menos, os que olham para seu próprio interesse podem se dar conta do que o resto de nós já demos: nós não estávamos torcendo pelo socialismo para o nosso próprio bem. Era para o bem de todo mundo.

Artigo original publicado em gal-dem, uma revista britânica on-line e impressa, produzida por mulheres negras e pessoas não binárias negras.