Em ‘Mudanças’, Gugie propõe reflexão sobre papel social das mulheres

As identidades da artista se refletem no seu trabalho, que retrata pessoas racializadas e excluídas da estrutura social. Foto: Djuly Gava.
Postado em 16/03/2022, 9:10

Quatro pinturas estarão expostas no Centro de Florianópolis até 17 de março

O interior do baú de um caminhão de mudanças é o cenário onde a artista visual Monique Cavalcanti, a Gugie, escolheu instalar sua exposição Mudanças. O veículo estará estacionado até quinta-feira, dia 17, das 15h às 20h, na rua Victor Meirelles, no Centro de Florianópolis. 

A artista pensou no caminhão como um espaço que pudesse fazer parte da composição das pinturas, e provocar diferentes relações com as imagens. “A arte relacional é sobre essa possibilidade de a gente se relacionar com as obras por meio de nossas próprias bagagens. As obras estarão ali, exatamente onde essas bagagens são transportadas. E eu vou estar trazendo as minhas bagagens pessoais por meio das pinturas”, explica Gugie.

Através de quatro pinturas expostas – Nascemos de alguém; Somos alguém; Somos história de alguém e Cuidamos de alguém – a artista provoca as pessoas a repensarem e transformarem a forma como elas veem as mulheres e o papel social estabelecido para elas. 

O espaço da exposição dentro do caminhão de mudanças provoca o público a trazer sua própria bagagem para a obra. Foto: Djuly Gava.

As obras trazem representações de mulheres próximas à artista, como a sua filha, sua avó, a mestranda em biologia e mulher trans Alicia Kenobi, e a representação de um parto feita a partir de uma fotografia de Cris Odara, amiga da artista. Ao retratar vínculos próximos, Gugie busca despertar no público uma sensação de reconhecimento, através da poética que ela nomeia de “publicidade afetiva”. 

“Eu divulgo meus afetos por meio das obras, por isso essa expressão. E na exposição eu trouxe pessoas e momentos que são importantes para mim e que, dentro do contexto de transportar mudanças e bagagens, eu gostaria de provocar nos visitantes as suas próprias identificações e afetos”, comenta. 

Obras expostas em Mudanças trazem representações de mulheres próximas à Gugie como, por exemplo, sua filha. Foto: Djuly Gava.

Gugie convida o público a pensar sobre as diversas possibilidades de existência para uma mulher, desafiando as pessoas a repensarem sobre suas próprias relações com as mulheres. 

“Gostaria que nós, enquanto sociedade, refletíssemos sobre a forma como sentimos e gostamos das mulheres. Infelizmente existe um ódio, um controle e uma objetificação muito naturalizados, e que não nos cabe mais perpetuar isso a partir do momento que percebemos a humanidade e a dignidade em cada mulher, em cada ser humano. A mudança que eu quero é essa: um ‘gostar’ mais humanizado sobre as mulheres”, finaliza. 

Em Mudanças, Gugie convida o público a pensar sobre as diversas possibilidades de existência para uma mulher. Foto: Djuly Gava.

As ruas são parte das obras da artista

Para Gugie, a relação da sua arte com as ruas é impossível de separar: “Eu sou pintora, mas a cidade, as buzinas, cheiros, músicas aleatórias, o clima, os muros e as pessoas fazem parte das obras. Por isso, já não sei se me considero apenas pintora ou muralista”. 

A artista busca um espaço de diálogo nas artes produzidas nas ruas. Ela assina alguns murais no Centro de Florianópolis, como aquele que homenageia Antonieta de Barros. Na exposição Gestos, realizada em setembro de 2020, oito telas foram distribuídas em sete bairros da cidade. 

Assim como em Mudanças, todas as obras de Gestos retratavam pessoas negras – temática com forte presente no trabalho da artista. Sua obra retrata pessoas comuns que fazem parte de sua vida, desperta sensibilidade, registra a presença e promove a representatividade destes corpos nos espaços. 

“Utilizo a rua como um acesso a esse lugar de se relacionar com as imagens. Quando eu coloco as obras nas ruas da cidade, a cidade complementa as minhas pinturas. Minhas obras são também o que as cercam em volta”. 

Mudanças tem curadoria de Juliana Crispe e produção de Sebastião Gaudêncio Branco. A proposta foi contemplada no Edital Aldir Blanc 2021 do Governo do Estado de Santa Catarina por meio da Fundação Catarinense de Cultura.

Gugie é uma artista multimídia que vive atualmente em Florianópolis, Santa Catarina. Foto: Djuly Gava.

A obra de Gugie reflete sua vivência como artista, mulher negra e mãe

Monique Cavalcanti, de nome artístico Gugie, é grafiteira, artista visual, muralista e pintora. Nasceu em Brasília (DF) em 1993, cresceu e vive atualmente em Florianópolis (SC). Ela desenvolve sua arte em diferentes formatos: muros, telas, performance e desenho digital, propondo o contato e interação como parte das suas obras.

A artista busca fortalecer a visibilidade de pessoas que são racializadas e excluídas da estrutura social. Propõe naturalizar no imaginário social a presença digna dessas pessoas, com as quais ela se identifica, desconstruindo a cultura visual que predomina no decorrer da história. A sensação de reconhecimento, que Gugie busca despertar no público, também se faz presente nela, enquanto artista, mulher negra e mãe.  

Serviço:

O quê: Exposição Mudanças

Quando: Até 17 de março, das 15h às 20h, na rua Victor Meirelles, em frente ao 138, Centro de Florianópolis.

Onde: Rua Victor Meirelles, em frente ao 138, Centro de Florianópolis

Quanto: Gratuito

Classificação indicativa: 18 anos. Menores de 18 anos devem ter autorização prévia, pois contém conteúdo sensível 

Exposição acessível a pessoas com mobilidade reduzida

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