A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, lançará o programa de abstinência sexual, em fevereiro/ Foto: Tânia Rêgo – Agência Brasil

É muito pedir política pública sem fundamentalismo religioso?

Postado em 24/01/2020, 14:58

Desde quando grupos minoritários passaram a romper barreiras e ocupar espaços públicos, apesar de ainda vivermos uma hegemonia masculina, branca e heterossexual, parcela privilegiada da sociedade se sentiu ameaçada. Agora, estamos assistindo à volta da moral sexista que determina tratamentos diferentes e rígida divisão de papéis atribuindo ao homem o poder, autoridade e notoriedade do espaço público e à mulher o cuidado com o lar e a família.

Em uma breve análise psicossexual do legítimo “machista brasileiro” podemos definir este sujeito como aquele que junto com outros homens fala mal e ridiculariza a mulher, odeia feministas e tem sempre uma piada de “viado” pronta. Esse clássico cidadão de bem, sonha ter uma relação de dominação com uma mulher “bela recatada e do lar” para deste modo ostentar sua presa fálica.

Mulher para ele é um mero objeto, afinal esse macho ama é a si mesmo e gosta de cultuar o próprio sexo. Ele é seu próprio objeto erótico e é por esse motivo que tem enorme dificuldade em aceitar a igualdade sexual. Se diz cristão, conservador e cidadão de bem, mas não se comporta como tal.

Precisamos evitar o retrocesso e impedir que decisões sejam tomadas condicionadas ao poder patriarcal. É fundamental um trabalho efetivo de educação sexual que informe e estimule questionamentos, pois sem isso jamais alcançaremos a igualdade.

Uma educação sexual para discutir direitos humanos, contextualizar historicamente significados culturais e preconceitos presentes nos modelos de organização social. Mas parece que estamos na direção contrária. No Brasil, país que é legalmente laico, a religião tem ditado políticas públicas de Estado como abstinência sexual para adolescentes, e com isso a própria ministra dos direitos humanos viola o direito à educação sexual, e outros do campo sexual e reprodutivo.

Não existe ideologia de gênero, tudo isso é uma falácia para confundir as pessoas e esconder injustiças sociais. Uma expressão criada pelo grupo do escola sem partido (que tem partido – extrema direita) e é contra qualquer debate sobre desigualdade. Gente preconceituosa que não aceita a diversidade do comportamento sexual, fanáticos religiosos que querem reforçar estereótipos de gênero e disseminar mentiras. Sim, somos diferentes sexualmente e corporalmente, mas isso não deve ser determinante nas relações sociais e de poder.

Ninguém tem o poder de mudar o sexo de ninguém, o que eles fazem é criar uma paranoia como se existisse um complô para destruir a família e os valores tradicionais. Estudos acadêmicos de gênero, esses, sim, existem e são fundamentais para discutir as desigualdades e romper os mecanismos opressores que legitimam a assimetria do poder de uma sociedade dominada pelos homens.

É nosso dever como cidadãs e cidadãos ensinar as crianças o respeito, a não submissão e a se impor perante uma sociedade machista. Mas é dever do Estado fornecer políticas públicas que não sejam pautadas em um fanatismo religioso de repressão sexual. Além de fazer a nossa parte com muita leitura e discernimento, nós precisamos de ações do poder público para TODOS nós, pautadas pela equidade. Seguimos lutando!

*Danielle Nuernberg  é psicóloga clínica.