Em sua sexta crônica, a historiadora reflete sobre os sentimentos ligados à memória em tempos de isolamento social/ Foto: arquivo pessoal da autora

Crônica da incontingência da clausura (6) – ou, das partidas e do direito à memória

Postado em 21/04/2020, 9:25

Terça-feira, vinte e um de abril de dois mil e vinte. Escrevo, porque preciso. Os últimos quinze dias foram de tristes notícias; depois do dia quatorze, foram de mais dor e pesar. Esses dias passaram como se não passassem; ao mesmo tempo, voam e saem pelas frestas. Escorregadio, o tempo presente se esvai, o que era ontem não será hoje; tampouco o amanhã será o agora. Nessa confusão de tempos, sigo acariciando a dor em frases, versos, e longas digressões de memórias depositadas nas linhas de papéis em branco.

Dia quinze, resolvi voltar para Florianópolis, para minha casa. Minha filha tentou me dissuadir – “Mãe, todo mundo gostaria de estar numa cidade do interior, num lugar protegido, e tu é a única pessoa saindo dali e indo para o epicentro do contágio! Fica aí, por favor.” Desobedeci, desta vez.  Minha mãe, que acompanhou minha dor e mesmo sem entender direito o que me acontecia, me oferecia, café, bolachas, frutas, chá, e palavras de conforto, repetindo a frase: “Tudo passa”. Quando comuniquei de minha decisão, ela disse “Vai, descansa, se cuida bem. E volte logo”. Sim, mãezinha, me cuidarei por mim e pela senhora.

Preparei a viagem mais minimalista possível para evitar o traslado de coisas; bastava eu como viajante. Na bagagem, só o estritamente necessário – frutas colhidas, comida pronta, queijo, água, o computador e nada mais. A viagem de Turvo à capital dura em torno de quatro horas ou mais em dias “normais”; com os trânsito livre, especialmente na entrada de Florianópolis, fluiu como se fosse uma manhã de domingo e gastei três horas; só que era quinta-feira. Estranhas coisas acontecem nestes dias de medo e afastamentos. No caminho, tive que me aliviar da água que vinha bebendo: parei no ‘posto Baleia’ e sem vergonha de ser feliz, deixei o líquido ali no chão, do lado do carro, engraçado é que notei outras pessoas fazendo o mesmo. Decerto, como eu, tiveram medo de entrar num banheiro de estrada. Para quase tudo esse encontra soluções; só não as temos para a morte.

Cheguei! No prédio onde moro, avisos de isolamento, álcool em gel disponíveis, elevador restrito, máscaras obrigatórias. Com todo cuidado para não encostar em nada, cheguei em casa – sapatos na porta, banho, e só então me detive às saudades, a cheirar os cômodos, folhear os livros, respirar os espaços depois de trinta e quatro dias de ausência forçada. Como é de se supor, não sairei de casa, não visitarei amigas, não receberei pessoas – por mais que sinta essas ausências de abraços… amigas estão tão perto! Nesse outro lugar de clausura, me sinto segura, rodeada de “mil nadas” que só a mim tem significado afetivo, e livre para escrever, ler, e escrever mais. Gosto de meu canto, dos meus guardados de memória, de todo o que me significa e me renova. Revirei as folhagens do mini jardim de sacada; precisavam de água, limpeza, terra, e voltaram a verdejar.  Também costurei máscaras, muitas, de cores variadas, para quem precisar delas.

Então, nesse outro lugar, me inteiro das notícias e sinto asco pelo açoitamento aos direitos inalienáveis para todos os humanos. O conforto de meus lugares de clausura, como já disse noutra crônica, não é para todos; somente uma ínfima parcela da população pode dispor de tempo e espaço para se isolar, se cuidar. Sinto-me privilegiada nesta condição, e sofro com tanta desordem infame provocada por demônios que teimam que a vida vale menos que cifrões…

… assim escrevia no sábado, dia dezoito, às quinze horas. Fui interrompida: minha filha ligou, aos prantos com a notícia de que seu pai (bastante adoecido, não foi do invisível medonho), acabara de falecer em Curitiba. De novo me vi na contingência de me virar com os afetos distantes, engolir em seco, nortear o rumos e decidir o que fazer. A dor dela me apunhalou; a dor de filhos sempre nos apunhala; mais forte é a dor na impotência de amainar o pranto.  Claro que iria a seu encontro; qual mãe não iria? Outra viagem; outros riscos; outras dores. A amiga Onice nos recebeu, e em sua casa em Itajaí, e pernoitamos no acolhimento da amizade sincera. Pude abraçar minha filha! Nos entornamos do gel alcoólico que já é bagagem obrigatória, luvas, máscaras, e nos abraçamos. Acolhi, nos braços, seu choro, os soluços de dor. “Tudo passa, minha filha. Ele descansou”, disse-lhe. Foi uma noite de memórias afetivas do pai; de quando nós três, juntos; da vida, entrecortada de dor e saudades. Vivemos esta história, minha filha.

Dia seguinte, bem cedo, fomos ao crematório em Balneário Camboriú. A experiência de uma despedida em ritual fúnebre em tempos de pandemia é tocante. Interditados os encontros que aglomerem pessoas, com o que concordo, estávamos nós e alguns familiares próximos, menos de dez pessoas, diante de um caixão e um corpo.

Os cumprimentos feitos só com os olhos acima das máscaras, sem abraços, sem apertos de mão e afagos, mantendo a devida distância entre nós, é inenarrável – o que e como cada um e cada uma pensava sobre si, sobre o acontecido. Quais seus medos? Um silêncio nos unia; literalmente, um silêncio sepulcral.

Todo o tempo que ali ficamos, até desfecho do ritual de entrega do corpo, foi de silêncios irmanados na dor da perda, corações chorosos; muitas lembranças que por certo povoava a memória de cada pessoa. Mãe da História, a memória guarda significados e representações diferentes para cada vivente, sejam coletivas ou individuais. Posso dizer que tivemos o privilégio e o conforto de uma despedida mesmo neste tempos de solidão, de irracionalidade que ameaça e aterroriza a cada dia nos empurrando mais para o abismo.

No silêncio, me perguntava: quem tem direito a uma cerimônia de despedida? Quem tem direito à memória? Essencial para o sentimento de identidade, a memória, individual ou coletiva, traduz sentidos de continuidade do grupo de pertencimento – a Constituição Federal em seu artigo 216 prevê o direito à memória como referência à identidade das pessoas e a sua preservação, fator integrante do patrimônio cultural da sociedade; e, portanto, dos direitos humanos. Pensado para as vítimas de atrocidades cometidas por governos antidemocráticos no passado, constituintes poderiam prever os mortos descartáveis por uma pandemia? Talvez não, naquele momento; mas bem que tinham o dever de prever o acolhimento responsável em situações de desgraças como esta que vivemos. E, quem hoje governa tem o dever de prover a vida em condições humanitárias, preservar-lhes o direito à memória. Bem disse o poeta Viegas Fernandes da Costa: “As valas a gente cobre de terra. A terra apaga a morte do rosto que o jornal não imprimiu e a internet não publicou.  Nem todo RG tem Facebook. Nem todo RG tem CPF. Nem todo rosto tem RG.” Necropolítica, em tempos de pandemia, se esgarça.

Então, se a morte é a única certeza da vida, quem tem direito a uma despedida, à memória? Por certo não são os idosos e idosas encontradas mortas em asilos na Espanha; nem para os mortos queimados ou cadáveres deixados nas ruas para que alguém os recolha, como acontece em Guayaquil, Equador, como num filme apocalíptico; ou daqueles e daquelas depositados em vala comum em Nova York, São Paulo, Teerã, para citar alguns fatos destas últimas semanas, por conta da sobrecarga nos cemitérios. Na China, foi estabelecido um protocolo para mortes –  os corpos mortos pelo coronavírus não podem ser enterrados como desejaria a família; desinfetados e colocados em um saco selado por trabalhadores médicos, não podem ser abertos após a vedação. No Brasil, além de ignorar a Constituição, homens incapacitados – e algumas mulheres desprezíveis –fazem a vez de fazer passeatas negando a doença, chamando à ditadura, escrachando masculinidades tóxicas; com o espírito genocida se assoberbam do direito de decretar que morram pessoas, desde que a economia siga seu curso. Podres poderes, que expressei num poema, dia desses:

Estamos passando um tempo
De afetos profundos, entre a dor
Os medos e as saudades;
Mas por aí pregam que isso
É mentira e estupidez, esses
Pobres mortais esvermeados. 

Somado a esse descalabro, o isolamento social tem trazido outros danos e perdas. Mulheres continuam sendo mortas pelo fato de serem mulheres; crianças continuam sendo estupradas pelo fato de serem crianças; pessoas negras continuam sendo atacadas e assassinadas pelo fato de serem negras; pessoas homo afetivas continuam sendo vítimas da sociedade doente; pessoas indígenas estão à mercê dos desmandos espúrios de genocidas fascistas.

Quais memórias serão referenciadas, reverenciadas; e quais, descartadas? Podia contar a história de um rei na Tailândia que se dá ao direito de passar a quarentena num hotel de luxo, na companhia de vinte concubinas, enquanto nas ruas mulheres, homens e crianças morrem esquecidos, esquecidas, de fome e agonia…

Será o fim do mundo? Recorro ao texto belíssimo e atordoante do historiador Luiz Felipe Falcão “o dia seguinte ao do fim do mundo”, escrito para uma aula aberta nos dias seguintes à última eleição presidencial no Brasil – sim, os fins do mundo são plurais; não será esta pandemia a findar a humanidade; e, “antes que o mundo acabe, até porque ele pode não acabar, talvez seja conveniente tomar uma taça de vinho branco bem gelado.”

Attraversiamo, minha filha; vamos adiante. Nos permitamos chorar nossos lutos, com solidariedade àquelas pessoas que lhe é negado esse direito.

Marlene de Fáveri, Florianópolis, 21 de abril de 2020.