Coluna da Cauane Maia

#SerNegrxEmFloripa: uma hashtag para debater o racismo

Postado em 08/06/2017, 20:17

O mês de maio, assim como o mês de novembro, é para mim um período de muita cautela e reflexão enquanto Mulher Negra, militante, pesquisadora, feminista negra interseccional, candomblecista, periférica, nordestina entre outros predicados. Pois exige um olhar cuidadoso e crítico para a espetacularização e folclorização com que a sociedade lidou com a celebração do dia 13 de maio, abolição da escravatura, até os dias de hoje, num exercício de exaltação à uma pseudo liberdade concedida pela benevolência questionável de uma nobreza branca que, inclusive, foi (e ainda é) quem nos mantém em cativeiro.

Na edição de maio da revista Cult, número 223, Sueli Carneiro, que é uma das minhas grandes referências teóricas enquanto filósofa, educadora, militante feminista e antirracista, aponta a abolição do Brasil como estruturada para a extinção e subalternidade do povo negro definindo o nosso destino social e nos colocando uns contra os outros:

Se a mobilidade social individual de um negro não pode ser evitada, ela é utilizada para questionar a competência dos demais. A abolição foi isso. Vocês estão livres para apodrecer e morrer nas sarjetas desse país. (CARNEIRO, 2017, p.16).

No centenário da abolição da escravatura, em 1988, uma série de marchas, inclusive na Serra da Barriga (AL) local do Quilombo dos Palmares,  e passeatas foram realizadas pelo movimento negro no país com o objetivo de negar a imagem da princesa imperial como “redentora” e estabelecendo uma luta simbólica em torno da legitimação de Zumbi dos Palmares como representação da resistência negra que culminou com o fim da escravização no Brasil (RATTS; RIOS, 2010). A década de 1980 foi marcada por um movimento negro que contestava o racismo e, cada vez mais, atuava de modo articulado, institucionalizando os espaços de luta e unificando as pautas do povo negro do país, contando como a presença de figuras icônicas como Lélia Gonzalez, por exemplo.

Mas é pensando na falaciosa ideia de liberdade do povo negro que vem à reboque nos debates e ensinamentos sobre processo de abolição da escravatura no Brasil, com todas as suas possibilidades e significados, que se manifesta, mais uma vez, o sorrateiro racismo travestido de “democracia racial” ao se negar a debater honestamente o contexto em que se deu a assinatura da Lei Áurea, bem como suas implicações pensando o pós-abolição até os dias de hoje, onde o extermínio da população negra acontece fisicamente, economicamente, epistemicamente, culturalmente, religiosamente e esteticamente de modo sistemático, mas seguimos aprendendo no ensino formal que somos livres.

Nina Simone em entrevista falou que “liberdade é não ter medo”, logo, não somos livres e pensar a nossa existência em Florianópolis na contemporaneidade é se questionar a todo o momento sobre os limites da “liberdade”. Com isso, na última sexta feira, dia 02 de junho de 2017, as redes sociais trouxeram, por meio da hashtag #sernegrxemfloripa, uma série de relatos de negras e negros que vivem o racismo de Floripa, que ostenta o título de Ilha da Magia.

A ideia foi sugerida por uma das estudantes negras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e que atualmente compõe um grupo de negros e negras que vivem na Grande Florianópolis e se denominam como “grupo quilombo”, mesmo grupo que tem articulado uma série de ações para debater e visibilizar a situação do povo Negro no município como a Virada Antirracista em 2016, oficina de dança de rua e rodas de conversa na sala Quilombo, localizada no centro de convivências da UFSC, almoços e momentos de lazer entre os estudantes negrxs entre outras atividade coletivas, cujo objetivo é de proteção, integração e resistência para sobreviver nesta cidade. Retirei alguns relatos preservando os nomes:

O escárnio com a estética negra evidencia o racismo e a cultura de destituição de humanidade que nos é imputado através da ideologia do branqueamento onde a “norma” é o perfil euro-branco e tudo o que se afasta desse ideal é deslegitimado. O antropólogo Raul Lody (2004) aponta o corpo como um dos mais notáveis espaços de representação e expressão de uma cultura:

Para os afrodescendentes do Brasil, os cabelos são memoráveis distintivos de identidade étnica, de inclusão social e, especialmente, de revelação da luta pela liberdade, pelos direitos de igualdade e cidadania.(LODY, 2004, p. 85).

A vida acadêmica como espaço de disputa é um campo fértil para a disseminação do racismo, quer seja velado ou explícito, uma vez que a letargia das instituições ratificam a impunidade dos crimes cometidos, mesmo quando o agressor é identificado e o ato racista é cometido explicitamente. A falta de atuação das instituições, bem como o aumento dos casos de racismo nas universidades, especialmente após a implementação das ações afirmativas, têm contribuído para a evasão e agravamento do bem estar dos estudantes dentro das mesmas:

As políticas de cotas raciais para negros na universidade tiraram os brancos da zona de conforto, e o racismo se manifestou com toda a sua virulência. O poder da branquitude se revelou quando ameaçado de perder os seus 100% de direito, que eles mesmos se outorgaram, de cotas nas universidade. Saíram a campo em uma articulação inusitada, nunca vista, de diferentes forças políticas, que nos expuseram a um verdadeiro pelourinho eletrônico contra as cotas. (CARNEIRO, 2017. p. 17)

Os estudantes da UFSC vivenciaram em 2016, na Virada Antirracista, uma situação de agressão física contra as estudantes negras que participaram da performance no Restaurante Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina. As atividades do evento tinham o objetivo de alertar a comunidade acadêmica para os inúmeros casos de racismo e para a situação de vulnerabilidade que os estudantes negros estavam sendo submetidos. Maiores detalhes sobre o ocorrido pode ser verificado na matéria http://catarinas.info/agressao-durante-virada-antirracista-na-ufsc-nao-e-registrada-como-preconceito-racial-2/ .

A percepção sobre o título de “Ilha da Magia” é mediada pelo racismo, pois é por meio de critérios fenotípicos que, inclusive, definem a singularidade do racismo do Brasil como sendo de marca, como cita Oracy Nogueira (2006)[1], que as experiências serão balizadas na cidade.

Assistir ao vídeo Uau – Percepções de um Angolano e um Belga em Florianópolis evidencia as diferenças de tratamento que a cidade e seus residentes dispensam aos estrangeiros de acordo com sua origem étnica. Não são poucos os relatos sobre a hostilidade e a demonstração cotidiana de desaprovação que os negros vivenciam na cidade, como também são imensas as batalhas travadas pelo movimento negro para que haja, de fato, igualdade racial.

A construção de uma identificação positiva na infância é algo que inexiste para a população negra no Brasil, estrategicamente as instituições se elaboraram para destituir de humanidade os negros e, desse modo, o ego branco se estabelece, onde a especificidade do racismo é que o negro não pode disfarçar ou esconder a marca da sua diferenciação: “o negro é escravo da sua aparição” afirma Fanon (2008 apud Nkosi) e a presença da sua corporeidade aciona, ao menor contato, todas as representações positivas ou negativas relacionadas ao lugar do escravo na divisão escravista de trabalho: o corpo.

Quando a natureza toma o lugar da história, quando a contingência se transforma em eternidade e, por um “milagre econômico”, a “simplicidade das essências” suprime a incômoda e necessária compreensão das relações sociais, o mito se instaura, inaugurando um tempo e um espaço feitos de tanta clareza quanto ilusão. Clareza, ilusão e verossimilhança que são frutos de um poder constitutivo do próprio mito: o de dissolver, simbolicamente, as contradições que existem em seu redor. (Souza, 1983, p. 25)

Para Ratts e Rios (2010) no jogo das relações raciais no Brasil, a textura do cabelo é um indicador do pertencimento etnicorracial. Com isso, no processo de deslegitimação dos negros há uma pressão sobre mulheres e homens para que “controlem” seus cabelos crespos e volumosos, concluem os autores. A insatisfação estética surge, então, desde a primeira infância para o povo preto:

No mesmo dia em que a hashtag #sernegrxemfloripa surgiu, na última sexta feira, foi também a data escolhida pelo grupo As Margens (https://www.facebook.com/Aasmargens/?ref=br_rs) para convocar os negrxs de Floripa para participarem da gravação do clipe Poder Para o Povo Preto. O encontro reuniu grande parte dos estudantes, militantes e lideranças negras na escadaria do Rosário, no centro de Floripa, e foi um momento de exaltação e reencontro ao som de músicas com letras fortes e batidas tão potentes quanto suas rimas e, ao final da gravação, o refrão ainda ecoava pelas ruas do centro:

Poder Para o Povo Preto
Que veio dos Guetos
Fazendo da realidade
O seu samba enredo
No Rap ou no terreiro
Energia de bamba
Ogum nos fortifica
E nos tira dessa lama.(AS MARGENS, 2017)  

O cd Poesia Preta, do grupo As Margens, será lançado dia 15 de junho:

A internet tem auxiliado na integração e comunicação dos negrxs através das redes sociais, portais e blogs difundindo informações, textos, vídeos, notícias, etc que pautem as demandas étnico raciais. Sueli Carneiro (2017), em entrevista, citada no início, aponta o ativismo jovem, que considera o mais vibrante e capaz de grande vocalização no momento atual, como ponta de lança para a organização política e a resistência do povo negro para conter o Estado genocida. E, com essa constatação, vejo na mobilização do movimento negro atual, com a juventude aguerrida, que se utiliza das mídias para um novo ativismo contra o racismo, sem deixar de ouvir os griots, uma possibilidade emancipadora para alcançar a liberdade de fato e de direito que o pós-abolição não nos concedeu.

Referências

NOGUEIRA, Oracy. Preconceito Racial de Marca e Preconceito Racial de Origem:Sugestão de um quadro de referência para a interpretação do material sobre relações raciais no Brasil. Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 19, n. 1. 2006.  pp. 287-308;

CARNEIRO, Sueli. Sobrevivente, testemunha, porta-voz.Sueli Carneiro: Filósofa, educadora, militante feminista e antirracista. Revista Cult. Nº 223. Maio 2017;

RATTS, Alex; RIOS, Flavia Mateus. Lélia Gonzalez: Retratos do Brasil. Editora Selo Negro. São Paulo. 2010;

LODY, Raul. Cabelos de Axé. Identidade e Resistência. Editora Senac Nacional. Rio de Janeiro. 2004;

NKOSI, Deivison Faustino. O pênis sem o falo: Algumas reflexões sobre homens negros, masculinidade e racismo in: Feminismos e Masculinidades: Novos caminhos para enfrentar a violência contra a mulher. Cultura Acadêmica Editora. São Paulo. 2014. pp 75-104;

SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se Negro. Coleção Tendências. Volume 4. Edições Graal. 2ª Edição. Rio de Janeiro. 1983.

[1] Considera-se como preconceito racial uma disposição (ou atitude) desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos membros de uma população, aos quais se têm como estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece. Quando o preconceito de raça se exerce em relação à aparência, isto é, quando toma por pretexto para as suas manifestações os traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sotaque, diz-se que é de marca; quando basta a suposição de que o indivíduo descende de certo grupo étnico para que sofra as conseqüências do preconceito, diz-se que é de origem. (NOGUEIRA, 2006, p. 292)




Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Mestra em Antropologia Social pela mesma instituição, bacharel em administração e graduanda em ciências sociais. Integrante do Cores de Aidê.
Veja a coluna da Cauane Maia