*Atenção: este texto contém spoilers

O filme A Cronologia da Água (2025), dirigido por Kristen Stewart, adapta a autobiografia de Lidia Yuknavitch. Trata-se de um drama psicológico que mergulha na experiência de uma mulher marcada pela violência do incesto, pela dor inscrita no corpo e pela busca de libertação através do esporte, a natação e, em seguida, da arte, após a descoberta do dom da escrita. 

A narrativa não se constrói de forma linear; é feita de fragmentos, sensações, imagens e silêncios que comunicam aquilo que não encontra palavras. A obra é de suma importância porque expõe a violência familiar em sua dimensão mais íntima, crua e sem retoques. O trauma não é apenas narrado, mas vivido no corpo: um corpo que se retorce, se modifica, busca punir-se e extravasar a dor. A espectadora é convocada a sentir, mais do que compreender racionalmente, a violência e suas reverberações. Stewart traduz isso em uma linguagem estética inovadora, que dá forma ao indizível. 

No entanto, apesar de sua força, não é um filme feminista. Ele revela o sofrimento, mas não o transforma em ação política ou em reivindicação de justiça.

E nele, vimos duas grandes violências se perpetuarem com certa naturalidade: o estupro das filhas e a convivência delas, na vida adulta, com o genitor abusador. 

Na obra, de caráter intimista, a dor é superada, sobretudo por umas das filhas abusadas, Lidia Yknavitch, dentro de uma lógica neoliberal que diz: “resolva e supere os seus traumas”, sem invocar estruturas e a necessidade de derrubá-las. 

Em alguns momentos de extrema violência, como a cena do último estupro cometido pelo pai, o grito de justiça, que pensamos vir em seguida, é substituído por outras sequências tão violentas quanto: a presença do pai no casamento de Lidia; sua participação no ritual de despedida das cinzas da filha que nasceu morta; a respiração boca a boca no homem que a estuprou, depois dele infartar na praia. A narrativa culmina na cena final, em que o marido de Lidia o leva para dentro da própria casa, sugerindo uma suposta conclusão da superação. 

O corpo mostrado como lugar de dor, do sofrimento, da violência, é o mesmo que se levanta e se ergue, sem justiça, sem intervenção da sociedade, sem punição. Por isso, a obra permanece na dimensão estética do trauma, sem romper com a lógica patriarcal que exige silêncio, resignação ou perdão.

É nesse ponto que o filme pode ser contrastado com o livro La Vengeance: Le droit de ne pas pardonner (Vingança: O direito de não perdoar, 2026), da filósofa Laurence Devillairs. A autora defende que a vingança pode ser um desejo legítimo de justiça. Para Devillairs, o direito de não perdoar é um ato de dignidade, uma forma de recuperar poder diante da violência sofrida. Sendo assim, a vingança reabilita a cólera, impedindo que que a raiva e o desejo de justiça se convertam em loucura, e os afirma como reação saudável frente ao irreparável. O filme, porém, estetiza a dor sem abrir espaço para a cólera como força transformadora.

A filósofa critica a pressão social que exige das vítimas o perdão, culpabilizando-as quando recusam fazê-lo. A obra, ao mostrar o trauma e seus desdobramentos ao longo dos anos, não questiona essa injunção; permanece no registro da vítima que sofre, mas supera. Na perspectiva de Devillairs, a recusa em perdoar é afirmação de vida. 

Assim, a crítica feminista ao filme aponta sua insuficiência: ele revela a violência do incesto com uma linguagem estética poderosa, mas não rompe com o pacto patriarcal. Um cinema feminista, não apenas expõe a dor, mas reivindica o direito de não perdoar, transformando a cólera em ação política e devolvendo às vítimas a possibilidade de se libertarem da posição de impotência. 

Para ilustrar alguns filmes com essa perspectiva do direito de não perdoar, destaco o filme Manas (2025), de Marianna Brennand, e o documentário Une Famille (2024), de Christine Angot, que literalmente “meteu o pé na porta”da casa onde sofreu abusos do pai, adentrando o espaço para expor os silêncios, a cumplicidade e a recusa em encarar as verdades. 

Urge confrontar a nossa herança cultural judaico-cristã e a centralidade do perdão, bem como a exigência de convivência com os abusadores, exigida pelas famílias e pela sociedade como sinal de “superação”. 

Nas palavras de Laurence Devillairs, “o fato de ser capaz de desejar vingança, acredito que é isso que nos liberta da culpa”, pois “a vítima está sempre do lado do fracasso; na verdade, ela não conseguiu, não está do lado do poder”. A perspectiva do perdão e da convivência, imposta ou requisitada como prova de superação, traduz-se na busca de permanecer ao lado do poder. Essa lógica, porém, mantém a justiça em segundo plano e fere, novamente, a dignidade das mulheres e meninas abusadas.

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  • Fabiane-Albuquerque

    Feminista negra, escritora e doutora em sociologia. Autora dos livros Cartas a um homem negro que amei (Editora Malê) e...

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